Depois de uma noite impensável — daquelas que você jura que nunca viveria — acordei ao lado do noivo da minha chefe. O gosto do desejo ainda escorria pela pele, mas o silêncio entre nós já gritava mais alto. Tomamos um café sem trocar mais do que algumas palavras soltas, enquanto uma camareira curiosa nos observava como se soubesse de tudo. E talvez soubesse.
O olhar que Liam me lançou naquela manhã foi frio, quase indiferente. Diferente do homem da noite anterior, que segurou minha mão como se o mundo desabasse se ele soltasse. Agora, nem mesmo me olhava nos olhos. Do elevador à garagem, fui engolida por um silêncio constrangedor.
Às dez e meia, ele me deixou em frente ao meu prédio, no Tatuapé. Atrás do carro, notei os seguranças que não vi na noite anterior — e de repente tudo fazia ainda menos sentido. Aquela manhã de sol escaldante deveria ser minha pequena comemoração por ter quebrado um jejum de quase dois anos sem prazer, mas tudo o que senti foi o gosto amargo de estar sozinha demais.
No caminho de volta, ainda precisei ouvir calada a voz irritada de Bárbara, reclamando com Liam sobre a impossibilidade de agendar o salão de festas para o noivado. Ele respondeu com a calma de quem não se abala, dizendo que resolveria tudo com uma reunião em Ilhabela apenas para os mais íntimos. Aproveitou para citar a cirurgia da mãe, algo que eu só soube por conta dos sussurros nos corredores do escritório e da galeria.
— Tchau, gatinha — foi tudo o que ele disse quando parou diante do meu prédio, seco, como quem entrega uma encomenda. Eu ainda tentava entender como ele sabia onde eu morava. Não perguntei. Só desci.
— Ah, seu celular. — Ele esticou o braço e me devolveu o aparelho, eu esqueci de comentar sobre ele e seu desaparecimento. Claro. Sem registros. Sem rastros.
Ele arrancou com o carro e me deixou ali, parada na entrada do meu edifício, com o coração apertado e a sensação nítida de que algo dentro de mim havia mudado — e não tinha mais volta. Liam Von Lancaster não era um homem que olhava para trás. E eu… eu tinha sido um deslize. Uma sombra entre os lençóis, um corpo que se entregou demais. Uma confusão que ele provavelmente já tinha arquivado sob a gaveta dos “momentos que não se repetem”.
Mas o que mais doía não era o silêncio dele. Era o vazio que ele deixara. Porque, mesmo sabendo que ele era o noivo da minha chefe, mesmo entendendo o quão errado tudo aquilo era… havia algo naquela noite que não parecia só desejo.
Quando ele me puxou de volta, quando me encarou com aqueles olhos claros e seguros, eu me senti como se finalmente alguém tivesse me visto. Não apenas o uniforme de assistente, nem a moça que pega café e faz ajustes no projeto alheio. Mas eu. Elara. De verdade.
— O que estamos fazendo? — eu tinha perguntado, com o coração aos pulos, esperando qualquer resposta que fizesse sentido.
Mas ele apenas me silenciou com um beijo. E, naquele instante, eu deixei de resistir.
Porque, por mais que ele dissesse tão pouco, seus gestos falavam como gritos. E eu estava faminta por isso. Por alguém que me tocasse como se eu fosse indispensável.
Mas agora, sentada no meu pequeno apartamento de paredes finas e cortinas baratas, tudo parecia um sonho m*l editado. Ou um erro imperdoável.
Talvez tenha sido um favor. Um capricho. Uma distração de uma relação que ele próprio já não desejava tanto. Só que, para mim, foi mais. Foi o início do que eu temia e desejava ao mesmo tempo: me apaixonar por alguém que jamais poderia ser meu.