Episódio 6

1252 Words
Respiro fundo, engolindo a raiva que sobe pela minha garganta. — E você ficou feliz quando ela desapareceu da minha vida. Não é? Você considerou isso uma vitória. Como se finalmente o seu filho estivesse voltando a si. Se tornasse digno do seu sobrenome. — Considerei isso uma salvação. Ela poderia ter te destruído. Viro-me bruscamente para ele. — Talvez ela fosse a única que me fazia sentir vivo. Talvez graças a ela eu tenha finalmente sentido algo real. Mas em vez de me apoiar, você me empurrou para o abismo. — Eu te mostrei a verdade. Ele responde friamente. Um suor frio me percorre. Miro nos olhos do meu próprio pai e ainda não consigo acreditar que foi ele quem me enviou aquelas fotos. Depois descobri que ele tinha um plano completo para desmascarar Samanta. Ele mesmo me contou. Meu pai encontrou um ator que a perseguiu por um tempo, e num momento conseguiu seduzi-la. É simplesmente repugnante. Não consegui perdoar Samanta, mas também nunca perdoarei o meu pai. Para mim, ambos são traidores. Samanta Hoje tenho uma reunião com a Cristina e o noivo dela. Não entendo por que estou tão nervosa. Preparei tudo e tenho certeza que a noiva vai gostar de algumas das amostras. Restaurantes, arcos, bolos, flores. Levei o trabalho a sério, mas minhas mãos ainda tremem. — Você está estranha hoje. Sarah nota, percebendo que algo não está bem comigo. — Cliente problemática? — Não é que ela seja problemática. Suspirei. — Só tenho um mau pressentimento. — Ânimo. Sarah sorri para mim e coloca a jaqueta. — Infelizmente, não posso ficar com você. Tenho uma reunião na cidade. Minha irmã sai do escritório, e eu respiro fundo várias vezes. O relógio me diz que a Cristina está dez minutos atrasada, mas nem sequer lhe ocorre me ligar para avisar. A ansiedade se transforma em irritação, mas mantenho-me firme, porque ao começar a trabalhar com a Cristina, eu sabia que isso poderia acontecer. Continuo sentada na minha mesa, tentando fingir que tudo está sob controle. Diante de mim, pastas de apresentação organizadas, um tablet com opções de decoração, um iPad com álbuns de fotos de locações. Sei que fiz tudo certo. Sei que tudo será impecável. pelo menos no papel. Mas meu coração bate como o de uma menina na escola antes do seu primeiro exame. Nunca me senti assim antes de me reunir com clientes. Pelo contrário, com os anos, tornei-me quase fria, até profissionalmente distante. Mas hoje algo está errado. Como se o ar no escritório tivesse engrossado. Não me vejo no espelho, mas sinto que o meu rosto está pálido, os meus olhos estão alertas, os meus dedos tremem. E justo quando tento respirar fundo novamente, a porta do escritório se abre. — Olá! Soa a voz familiar de Cristina. Eu me levanto. — Finalmente cheguei. — Olá. Digo o mais calmamente que posso. — Entrem, fico feliz em vê-los. Ela com confiança, com um casaco de marca e um penteado impecável. O seu sorriso brilha. E atrás dela, um homem que eu conheço. Tandy... Só preciso de um olhar. O homem no terno claro, um pouco mais moreno que Máximo, mas semelhante. A estrutura facial, os olhos, os gestos. E no momento em que os nossos olhares se cruzam, entendo: ele me reconheceu. Tandy para por um momento, mas rapidamente se recupera e concorda. — Bom dia. Ele diz, apertando minha mão. — Você é a Samanta, não é? — Sim. Respondo em voz baixa, mas firme. — Você é o Tandy? — Exatamente. Ambos fingimos não nos conhecer, e honestamente, sou grata a Tandy por isso. Cristina não nota a tensão, tagarela sobre bolos de casamento e locais, e eu respondo quase automaticamente. Mostro fotos, inicio a apresentação. Mas meu coração não bate no peito, mas nos meus ouvidos, nas minhas têmporas. Tandy me olha atentamente. E sei que quer dizer algo, mas fica em silêncio. Acho que espera o momento em que estivermos sozinhos. E esse silêncio assusta mais do que qualquer palavra. Estamos escolhendo o bolo quando o telefone da Cristina começa a tocar. Ela se levanta e pede a Tandy que escolha o bolo a seu gosto, e ela sai para o corredor. Assim que a porta se fecha atrás dela, a voz de Tandy ressoa: — Não sabia que você estava na cidade. — Esta cidade não pertence à sua família. Digo um pouco bruscamente, porque não consigo controlar as minhas emoções. — Samanta, não quero brigar... — Então não comece. Peço. — Melhor fingir que não me conhece. — Como você quiser. Ele concorda. — Mas você deve saber que Máximo está na cidade. Ele veio ao meu casamento com a Cristina. Sinto que o meu coração afunda e cai aos meus pés depois dessas palavras. Não, qualquer coisa menos isso! Eu sabia que Máximo tinha deixado o país quase imediatamente após o nosso casamento desfeito. Não pensei que ele voltaria. Mas é o casamento do irmão dele. Claro que ele está aqui. Pego a página com as fotos dos bolos, como se isso me ajudasse a manter o equilíbrio. Mas não há equilíbrio. Tudo dentro de mim desmorona, quebra, se desfaz em pedaços. Máximo está aqui. Está perto. Ele poderia entrar por aquela porta a qualquer momento. Inclino-me um pouco para a frente, forçando-me a respirar como uma psicóloga me ensinou uma vez: profundamente pelo nariz, lentamente pela boca. Mas meu peito parece estar preso num torno. Tandy me observa em silêncio, e finalmente me atrevo a levantar os olhos. — Por que você me disse isso? Pergunto com voz apagada. — Porque eu queria que você estivesse preparada. A voz dele é realmente sincera. — Se você acha que poderá evitá-lo, está enganada. Sorrio. Nem sequer é um sorriso, mas um espasmo no meu rosto. — Não tenho medo dele, Tandy. Só não quero me encontrar com aquela parte de mim que morreu naquele dia. Tandy baixa o olhar. Ele se sente desconfortável. E até sinto um pouco de pena dele. — Não sei o que realmente aconteceu. Ele diz em voz baixa. — Mas... ele ainda carrega isso dentro dele. Vi como ele viveu todos esses anos. Não é vida, Samanta. Aquele dia não foi só você que perdeu. Ele também te perdeu. Essas palavras penetram em mim mais profundamente do que estou disposta a admitir. Porque sei o que é perder-se de si mesmo. — Não importa mais. Digo com firmeza, forçando-me a voltar a ser fria. Profissional. — O casamento de vocês é o meu trabalho. Farei tudo como deve ser. E o passado... ficará no passado. Naquele momento, a porta se abre e Cristina entra na sala, com o telefone na mão. — Desculpe. Ela diz com um sorriso. — E o bolo? Viro a página do álbum e me forço a falar com calma, sem um mínimo sinal de quebra na minha voz: — Acabamos de escolher. Mousse de baunilha com uma camada de framboesa. Clássico. Mas impecável. Cristina assente, satisfeita. E eu, em silêncio, não conto os dias nem as horas. Conto as batidas do meu coração até o momento em que eu me reencontre com os seus olhos. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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