Máximo
Saio do aeroporto com a sensação de que não deveria ter vindo. Às vezes fazemos algo e mentalmente já sabemos: é um erro.
Assim eu me sinto.
Quando o meu irmão me ligou e disse que ia se casar, fiquei sinceramente feliz por ele. Até que ele mencionou que tinha que vir aqui e passar mais tempo com a família e a sua noiva. Para, supostamente, nos aproximarmos.
Não tenho ideia por que eu deveria fazer isso, mas se Tandy quer assim, quem sou eu para neg*ar a ele?
Isso eu pensava há uma hora, enquanto o avião estava no ar, mas agora os meus pensamentos mudaram. Faz cinco anos que não estou em casa. Cinco anos fingindo que a vida longe daqui poderia me trazer satisfação.
Eu me enganei. Eu menti para mim mesmo. Existia, porque perdi o sentido da vida quando a mulher a quem eu estava disposto a dar o mundo me destruiu. Me fez em pedaços.
— Finalmente! Tandy sorri amplamente e afasta-se da asa do seu BMW desportivo.
Não tenho tempo nem para respirar fundo, e já está me abraçando com força. Não consigo evitar sorrir, porque há cinco anos Tandy era um rapaz magro e com acne, e agora ele quase tem a minha altura e desenvolveu músculos.
— Não te reconheço. Respiro fundo e coloco a minha mala no porta-malas.
— E você não mudou. Ele sorri e abre a porta do passageiro para mim.
— Espero que você não tenha contado a ninguém que eu voltei. Eu o olho seriamente.
— Por quem você me toma? Ele finge estar ofendido. — Só a Kris sabe, mas ela prometeu guardar segredo.
Suspiro, porque não confio numa menina que não conheço, mesmo que seja a noiva do meu primo. Entramos no carro e fecho os olhos imediatamente. O voo foi longo, mas eu não me importaria de voltar ao aeroporto e pegar outro avião.
Enquanto dirigimos pelas ruas familiares, olho a paisagem pela janela. A cidade quase não mudou. As mesmas paradas, os mesmos postes de luz, os mesmos buracos que me lembro da minha juventude. Tudo é tão familiar, mas, ao mesmo tempo, estranho. Como se fosse um convidado a quem mostram uma cópia da sua vida passada.
Tandy fala alegremente sobre os preparativos do casamento, brinca sobre a participação excessivamente ativa da futura sogra na organização e sobre como teve que aceitar guardanapos cor-de-rosa pela paz familiar. Sorrio, mas não ouço metade. É difícil para mim estar aqui. Me custa respirar o ar que ainda carrega o seu cheiro.
Samanta.
Passaram-se cinco anos. Não a vejo há cinco m*alditos anos, e ainda não consigo dizer o nome dela em voz alta. Ela me destruiu. Levei quase dois anos para parar de vê-la nos meus sonhos, aprender a respirar sem ela.
E aqui estou. De novo.
— Já estamos quase chegando. Diz Tandy, olhando para mim. — Só estou avisando, vai ter muita gente. Se não quiser que alguém te reconheça, esconda-se atrás de mim.
— Obrigado, mãe. Resmungo e sorrio.
O carro para suavemente em frente ao restaurante. Luxuoso, com um monte de carros na entrada. Parece que metade da cidade está aqui. E não me surpreende que meus pais também estejam. Afinal, Tandy é nosso parente próximo.
— Pronto? Pergunta Tandy, já saindo do carro.
— Não. Respondo honestamente, mas de qualquer forma continuo em frente.
Enquanto subimos as escadas para o restaurante, sinto algo apertar no meu peito. O meu coração bate mais forte do que o necessário. A minha mente está vazia. Sou como aquele garoto de novo, a quem mostraram as fotos... aquele que perdeu o seu amor, sua confiança, tudo.
Ouço risadas, vozes altas, o tilintar das taças. Entramos na sala. Todas as atenções se voltam para Tandy. O futuro noivo, o favorito do público. Mantenho-me um pouco atrás, sem buscar o centro das atenções.
— Max! O meu pai é o primeiro a me ver. O seu rosto muda de choque para uma alegria inesperada. — Você... não disse que viria!
— Esse era o plano. Respondo secamente.
Meu pai me abraça, minha mãe também se junta ao abraço, e eu olho para a noiva de Tandy e, honestamente, não consigo entender o que ele viu nela.
Cristina está um pouco à parte – alta, loira, segura de si. Ela sorri para Tandy, e ele sorri para ela.
A sua aparência excessivamente de boneca me repele, mas se Tandy gosta, que seja assim.
— Olá! A garota se aproxima e me oferece a mão com uma manicure perfeita. — Sou Cristina.
— Máximo. Digo, apertando a sua mão e recuando imediatamente.
— Estamos felizes que você tenha aceitado o nosso convite e vindo tão rápido.
— Sim, eu também. Respiro fundo e, virando-me, vou para a mesa. Ocupo um assento livre e sirvo-me um copo de uísque.
Preciso beber algo, porque sinto que estou perdendo o controle. Minha mãe me olha com um brilho de alegria nos olhos, e meu pai me observa atentamente. Não sei o que ele está tentando encontrar no meu rosto, mas não há nada lá. Absolutamente nada, exceto um brilho frio nos meus olhos.
******
— Como você está? Pergunta Tandy quando saímos para a varanda. Tira um cigarro do bolso e me oferece um.
— Parei de fumar. Respondo brevemente, olhando para a cidade noturna à nossa frente. As tábuas de madeira rangem sob os nossos pés, o ar cheira a flores, fumaça da cozinha e à tensão que trouxe comigo.
— Você? Ele levanta uma sobrancelha com suspeita. — E beber o whisky em três goles é um estilo de vida saudável?
— Não disse que me tornei um santo.
Tandy sorri, mas vejo que está esperando por algo. Ele me observa, como sempre faz quando quer abordar um assunto difícil.
— Escuta, entendo que tudo isso é estranho para você. Repentino, inesperado... Mas fico feliz que você esteja aqui. Ele diz.
— Ainda não decidi se me alegra ou não. Confesso. — Mas fico feliz que você esteja feliz. Parece que você finalmente encontrou o seu lugar.
— Sabe. Sorri suavemente. — Tive medo por muito tempo. Eu achava que na nossa família os homens não eram capazes de ter relacionamentos normais. Depois apareceu a Cristina. E tudo se encaixou.
Guardo silêncio. Era para eu dizer algo, levantar um brinde ao amor, ao futuro, a algo bom. Mas estou vazio por dentro. Como um apartamento depois de uma mudança: as paredes estão, mas nada mais. Nem conforto, nem sentido.
— Me perguntaram onde você esteve todos esses anos. Acrescenta Tandy com cuidado.
— Espero que você tenha inventado algo bonito para eles.
— Eu disse que você estava trabalhando. Você viajava. Que você não gostava da agitação. E também disse que deveriam te deixar em paz.
— Por isso, obrigado. Digo secamente e assinto.
Ficamos em silêncio por um momento. Os garçons passam pela varanda com bandejas, ouvem-se gritos, risos e o tilintar de copos da sala. Mas não quero voltar. Aqui, ao ar livre, é um pouco mais fácil respirar.
— A propósito. Tandy me lança um olhar de soslaio. — Amanhã Cristina e eu vamos à agência escolher o conceito do casamento. Você quer vir com a gente? Você pode ver como tudo será. A organizadora é boa. Jovem, mas muito profissional. Cristina a elogia.
— Você está falando sério? Respiro fundo. — Sem mim, ok? Casamentos não são a minha praia.
— Sinto muito. Tandy toca meu ombro, mas não consegue continuar porque o meu pai sai para a varanda. Sabia que ele ia querer falar comigo, mas esperava que não fosse tão cedo.
Meu pai sai para a varanda, como sempre, tranquilo, composto, num terno impecável que parece lhe cair melhor do que a própria pele. Não se apressa, não se dirige diretamente a nós. Simplesmente para um pouco mais afastado e observa. O seu olhar é frio, analítico. Demasiado familiar para mim.
Me endireito, como em piloto automático. Odeio que eu ainda reaja a ele como a uma figura de autoridade. Odeio que ele ainda queira... não sei... que veja algo em mim. Qualquer coisa.
— Posso? Ele pergunta calmamente, embora saiba que a conversa continuará de qualquer forma.
Tandy me lança um olhar rápido, como se perguntasse se deveria ficar, mas eu apenas ne*go levemente com a cabeça. Ele entende sem palavras.
— Estarei lá dentro. Ele murmura e sai.
Meu pai se aproxima mais. Se à frente de mim. O silêncio entre nós é tão denso que daria para cortar com uma faca.
— Seis anos, Máximo. Ele diz finalmente. — Você nem veio ao funeral do vovô.
Apertou os dentes.
— Eu tinha as minhas razões.
— E agora? Você só aparece, toma um whisky e acha que está tudo bem?
— Vim ao casamento do meu irmão. Digo com firmeza. — Nada mais.
— Isso não muda o fato de que você fugiu. Você era o favorito de todos nós. Da responsabilidade. De...
— De ti. Interrompo-o bruscamente. — Do seu constante "eu te disse" ou "você deveria ter me ouvido". Me cansei disso, pai. Sempre pensou que eu não era digno de ser teu filho. Acho que com o tempo nada mudou.
— Tudo isso é por ela.
— Não comece! Digo com firmeza e o interrompo imediatamente. — Foi há seis anos! Seis, pai! Você não acha que já chega com esse assunto?
Ele aperta os lábios numa linha fina, como sempre faz quando quer dizer algo cortante, mas se contém. Mas sei que ele está fervendo por dentro.
— Eu vi o que ela fez com você. Ele diz finalmente em voz baixa, como se isso justificasse sua intervenção. — Você era uma sombra. Você não era você mesmo. Você corria atrás dela como um filhote. E você ainda faz isso, Máximo.