O PERIGO DO NOME DELE

1214 Words
Naquela manhã, o sol parecia mais forte que o normal, queimando as telhas e fazendo o ar vibrar sobre as ladeiras do Morro do Horizonte. Samanta caminhava apressada, o coração acelerado, as lembranças daquele dia ainda vivas em sua mente. Os tiros, o grito das pessoas correndo, o som dos passos pesados no asfalto, e — acima de tudo — o rosto dele. O rapaz que surgira do nada, com o olhar firme, as mãos fortes a puxando para um beco seguro. O sangue, o barulho da respiração dele misturada com o dela. E depois… o silêncio. A lembrança se repetia como um filme que ela não conseguia parar de assistir. Mas agora havia algo novo — algo que fazia seu peito pesar. Na noite anterior, sua mãe havia recebido uma visita. Uma vizinha faladeira, daquelas que sabiam de tudo que se passava no morro. Samanta ouviu a conversa de longe, fingindo estar ocupada no quarto, mas cada palavra atravessava a porta como uma flecha. — Aquele rapaz, o que ajudou sua filha… — disse a mulher em voz baixa, como quem carrega veneno na língua. — É o Erik. O dono do morro. O som do nome ecoou na cabeça de Samanta. Dono do morro. Aquelas três palavras mudaram tudo. Ela esperava ouvir que ele era algum morador, talvez alguém que passava por ali, mas não… Erik não era qualquer um. Ele era o cara que comandava o lugar onde ela vivia — o homem que todos respeitavam, e que outros temiam. Quando a vizinha foi embora, sua mãe entrou no quarto com o rosto pálido, a expressão tensa. — Samanta, você me escuta bem? — perguntou, a voz firme, quase fria. — Escuto, mãe… — Aquele rapaz… o tal Erik. Você não chega perto dele, entendeu? Samanta tentou argumentar, mas o olhar da mãe era duro como pedra. — Ele é perigoso, filha. Pode ter te ajudado, mas não se engane. Gente como ele vive de um mundo que não é o nosso. — Mas ele me salvou — respondeu Samanta, quase num sussurro. — Duas vezes. — Isso não muda nada! — a mãe rebateu, a voz falhando entre medo e autoridade. — Você promete pra mim que não vai atrás dele. Promete, Samanta! Ela ficou em silêncio. Por fora, assentiu. Por dentro, o coração gritava. Naquela noite, m*l conseguiu dormir. Ficou olhando o teto, pensando em tudo. Como um homem poderia ser perigoso e, ao mesmo tempo, ser o único que lhe transmitiu segurança? Como alguém com aquele olhar protetor poderia representar ameaça? Mas o que mais a confundia era o sentimento que crescia dentro dela — um desejo intenso, uma curiosidade quase dolorosa de vê-lo novamente. Na manhã seguinte, ela contou tudo para sua melhor amiga, Isabela, enquanto subiam juntas o beco que levava à escola. — Então… o cara que te salvou é o Erik? — Isabela perguntou, arregalando os olhos. — O Erik mesmo? O dono do morro? Samanta confirmou com um aceno tímido. — Minha mãe surtou quando soube. Disse que é pra eu ficar longe. Isabela soltou uma risadinha nervosa. — Difícil, viu? Porque esse homem é o tipo de cara que a gente tenta esquecer e não consegue. Samanta franziu a testa. — Você o conhece? — Nunca falei com ele — respondeu Isabela, sorrindo de canto. — Mas todo mundo aqui sabe quem é. Ele é respeitado, Sam. Não é só por medo. Ele cuida da favela, ajuda quem precisa, bota ordem quando as coisas saem do controle. Claro, o mundo dele é perigoso, mas… ele tem um coração que ninguém entende direito. Samanta ouviu em silêncio, absorvendo cada palavra. A amiga continuou: — Dizem que ele nunca se apaixonou. Que é fechado, frio, sempre na dele. Mas também dizem que, quando ele se envolve, é de verdade. Que protege quem ama com a própria vida. Essas palavras ficaram ecoando dentro dela. Nunca se apaixonou. Protege quem ama. Sem perceber, Samanta sorriu. Um sorriso leve, quase tímido, como se guardasse um segredo. — Ele me olhou de um jeito… — murmurou, sem coragem de terminar. — De que jeito? — provocou Isabela. — Como se… me conhecesse. Como se já soubesse quem eu era. Isabela arqueou as sobrancelhas. — Cuidado, Sam. Esse tipo de sentimento pode ser perigoso. Samanta concordou, mas a mente já estava longe, imaginando Erik — o olhar intenso, o jeito firme, o silêncio carregado de mistério. Durante as aulas, m*l prestou atenção. Os professores falavam, o quadro se enchia de fórmulas e datas, mas tudo parecia distante. O rosto de Erik voltava a aparecer em flashes: o toque da mão dele, a respiração ofegante quando ele a puxou pra trás do muro, o calor do corpo dele colado ao dela. Quando a escola acabou, em vez de ir direto pra casa, ela caminhou sem rumo pelas vielas, seguindo o instinto. Queria vê-lo, mesmo sem saber como. Queria, ao menos, entender o que sentia. O sol estava se pondo quando chegou à parte alta da favela. As casas estavam mais espaçadas, e dali dava pra ver quase todo o morro. Ela parou, respirou fundo e fechou os olhos, deixando o vento bagunçar o cabelo. Era como se o lugar tivesse o cheiro dele — de pólvora, suor e coragem. De repente, ouviu passos atrás de si. O coração disparou. Abriu os olhos, girando rápido, mas não era ele. Apenas um rapaz da comunidade, que a cumprimentou com um aceno. Samanta disfarçou, respirou fundo e começou a descer o morro. Chegando em casa, a mãe a esperava na porta, o semblante tenso. — Onde você estava? — perguntou, cruzando os braços. — Fui dar uma volta. — Eu já falei pra não se meter por aí! — a mulher rebateu. — Você quer se meter com gente perigosa? Samanta abaixou a cabeça. — Mãe, ele me salvou. Eu só queria… — Queria o quê? — interrompeu a mãe. — Achar que pode mudar ele? Que o amor vai fazer ele largar o morro? Isso não é novela, minha filha! As palavras doeram, mas também a fizeram perceber algo: o que ela sentia era real. Não era simples curiosidade. Era algo mais forte, algo que crescia quanto mais tentavam impedi-la. Naquela noite, escreveu no diário — um velho caderno que guardava segredos desde a infância: “Eu não sei quem ele é de verdade. Sei o que dizem. Sei o medo que o nome dele causa. Mas quando o vi, não vi perigo. Vi alguém cansado, alguém que carrega o peso do mundo nas costas. Alguém que me olhou como se, por um instante, eu fosse paz.” Fechou o caderno devagar, como quem sela um pacto consigo mesma. Enquanto isso, em outro canto do morro, Erik olhava o horizonte de seu barraco, o corpo ainda dolorido do ferimento, a mente longe dali. Sem saber que, a poucos becos de distância, uma garota pensava nele com a mesma intensidade. O destino já começava a traçar os fios que uniriam — e colocariam à prova — os dois mundos. E no meio do silêncio da noite, o amor começava a nascer. Um amor proibido, intenso, perigoso… Mas que, como tudo no Morro do Horizonte, tinha o poder de incendiar o impossível.
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