ENTRE O FOGO E O DESTINO

1293 Words
O morro estava em silêncio naquela manhã — silêncio falso, desses que antecedem a tempestade. O tipo de quietude que eu aprendi a reconhecer cedo demais. Vinícius estava ao meu lado, cigarro no canto da boca, o olhar fixo lá do alto, onde o beco da laje dava pra parte mais alta da comunidade. — Tá estranho, mano — ele murmurou. — Muito calmo. Assenti. O vento batia forte, trazendo cheiro de chuva e pólvora velha. A gente sabia que ia dar r**m. Só não sabia quando. Desde a semana passada, o boato corria solto: os caras do Complexo do Norte estavam querendo tomar o controle do Morro do Horizonte. Queriam impor domínio, expandir território. Pra eles, era só mais uma área com lucro fácil. Pra mim, era casa. Eu cresci ali. Vi as vielas se construírem no barro, vi criança virar homem e homem cair antes do tempo. A favela me criou, me moldou e me feriu. E, por mais que a vida tivesse me empurrado pro crime, eu não deixava ninguém mexer com o meu lugar. O rádio chiou no bolso de Vinícius. — Tão vindo, Erik. Pela parte de baixo. Uns dez carros, armamento pesado. Respirei fundo, sentindo o sangue acelerar. — Então é isso. — joguei o colete por cima da camiseta e engatilhei o fuzil. — Hoje eles não passam. Vinícius me encarou e soltou um sorriso de canto. — E quando é que passam, né, irmão? Desci o beco com ele, o coração batendo firme. O sol começava a cair, pintando o céu de vermelho. Era bonito e triste ao mesmo tempo — parecia um presságio. Os primeiros tiros vieram como trovões. O som ecoou por toda a comunidade. Gente correndo, portas batendo, crianças chorando. E, no meio disso tudo, a gente se posicionava, defendendo o que era nosso. As rajadas cortavam o ar, e o cheiro de pólvora tomava o peito. A cada disparo, uma lembrança: o pai que eu perdi cedo, a mãe que chorei demais, o destino que nunca me deu escolha. Mas no meio da fumaça, entre gritos e passos apressados, algo diferente aconteceu. Foi um instante, um piscar de olhos. Ali, descendo apressada pelo beco, tentando se proteger, estava ela. A garota dos olhos que eu nunca consegui esquecer. Samanta. Eu não sabia o nome dela ainda, mas sabia quem era. Era impossível não reconhecer aquele olhar — o mesmo que me prendeu dias atrás, quando o mundo desabava e eu, por um segundo, senti paz. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. — Sai daí! — gritei, largando o abrigo e correndo na direção dela. Ela se virou, assustada. Os olhos dela se arregalaram ao me ver. E naquele exato segundo, o destino fez o que faz de melhor: me colocou no meio da linha de fogo. O estampido foi alto, seco. Um impacto me atingiu na perna, me jogando no chão. A dor veio como uma onda quente, subindo rápido demais. Caí, sentindo o sangue escorrer. Vinícius correu até mim. — c*****o, Erik! Fica no chão, irmão! Mas eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela ainda estava ali, parada, sem saber pra onde correr. O medo estampado no rosto. Mesmo ferido, eu ergui o braço, indicando pra ela seguir. — Vai! — gritei. — Sai daqui! Ela hesitou por um segundo, depois correu. E o mundo pareceu parar de novo. O som dos tiros foi ficando distante, misturado com o pulsar do meu coração. A dor era intensa, mas havia algo maior me prendendo àquele momento. Vinícius me arrastou até um canto, xingando. — Mano, você é doido! Saiu no aberto por causa de quê? Não consegui responder. Só respirei fundo, sentindo o peso da vida me puxando pra baixo. A dor latejava, o sangue manchava o chão. Eu via flashes da minha infância — o beco onde aprendi a correr, os rostos que perdi pelo caminho, as promessas que nunca cumpri. E agora, ali, ferido, tudo parecia tão pequeno perto do que eu senti ao olhar pra ela. Vinícius rasgou um pano e amarrou na minha perna. — A bala pegou de raspão, mas atravessou f**o. A gente precisa te tirar daqui. — E o morro? — perguntei, entre dentes. — Já tá controlado. Os caras recuaram quando ouviram os fogos. Mas agora é tu que precisa de ajuda. Ele e mais dois me carregaram até uma das casas vazias na parte alta. Eu estava tonto, a visão embaçada. Cada passo doía mais que o anterior. Deitaram-me num colchão velho, e Vinícius ficou ao meu lado, preocupado. — Vou buscar o médico. O Jonas ainda tá por aqui, ele resolve isso. Balancei a cabeça. — Não chama ninguém. Ele franziu o cenho. — Tá maluco, Erik? Vai morrer de infecção, pô. — Ninguém pode saber onde tô — respondi, ofegante. — A notícia vai espalhar rápido. Se souberem que tô ferido, voltam pra cima da gente. Vinícius me olhou, entendendo. Ele sabia que eu tava certo. — Beleza. Mas eu não te deixo morrer, ouviu? — disse, apertando meu ombro antes de sair. Fiquei sozinho. O barulho dos tiros foi diminuindo até restar só o som do meu próprio coração. Olhei pro teto da casa, manchado de infiltrações antigas, e me perguntei quando minha vida tinha se tornado isso: correr, atirar, sangrar e proteger. Sempre proteger. Mas proteger o quê? O morro? As pessoas? Ou algo que eu nem entendia direito? Fechei os olhos e, sem querer, vi o rosto dela. Os olhos assustados, a expressão pura, o jeito que o cabelo caía no rosto. Mesmo no meio do caos, ela parecia diferente de tudo. E eu, que sempre fui bom em entender o medo dos outros, não conseguia decifrar o que sentia por ela. Era só curiosidade? Ou era aquela vontade de paz que eu fingia não ter mais? A noite caiu devagar. A dor era constante, mas o cansaço venceu. Dormi m*l, acordando várias vezes com o som distante dos helicópteros rondando o céu. Nos dias seguintes, desapareci. Ninguém sabia onde eu tava — nem polícia, nem rival, nem morador. Vinícius vinha às vezes, deixava comida, trocava o curativo. Mas eu evitava contato. Precisava ficar invisível. Precisava respirar. Ficar quieto me fez pensar demais. Sobre o morro, sobre a vida, sobre a morte que me rondava o tempo todo. E, inevitavelmente, sobre ela. Não sabia o nome dela, não sabia de onde vinha. Só sabia que, de alguma forma, ela me fazia querer sair dali — nem que fosse só pra entender o que era aquilo que eu sentia. Uma tarde, enquanto o sol entrava pela fresta da janela, peguei o cigarro que Vinícius deixara e fiquei olhando a fumaça subir. A dor na perna já era mais suportável, mas a outra dor — aquela que eu não sabia nomear — só crescia. Eu, Erik, o cara que nunca teve medo de morrer, tava com medo de sentir. Medo de se importar. Porque, se eu me importasse com ela, o morro já não seria só o meu mundo — seria uma prisão. Fechei os olhos e jurei pra mim mesmo que ia descobrir quem ela era. Não importava quanto tempo levasse. O destino já tinha cruzado nossos caminhos duas vezes — e eu sabia, lá no fundo, que ele ainda não tinha terminado seu trabalho. Enquanto a noite caía sobre o Morro do Horizonte, eu acendi outro cigarro, sentindo o gosto amargo da fumaça e do sangue seco. Olhei pela janela e murmurei, pra ninguém ouvir: — Eu ainda vou te encontrar, menina dos olhos claros. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que a guerra dentro de mim não era só feita de tiros. Era feita de sentimentos que eu não sabia como lutar.
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