O Morro do Horizonte nunca dormia de verdade. Quando o sol se punha e as luzes da cidade lá embaixo começavam a brilhar, aqui em cima outra energia tomava conta. O silêncio rareava; no lugar dele surgia o barulho dos paredões de som, os MCs gritando letras que falavam de conquista, dor e poder, enquanto a favela inteira parecia vibrar no mesmo compasso. O baile funk era mais do que uma festa — era o coração pulsando da comunidade, uma mistura de alegria, ostentação e perigo. E eu, como sempre, estava ali, mas em outra posição: observando, protegendo, pronto para agir se algo saísse do controle.
Sentado dentro do meu carro preto, estacionado em um ponto estratégico de onde eu conseguia ver parte do movimento, pensava em como a vida me tinha colocado nesse papel. Do lado de fora, a favela parecia solta, dançando sem peso, esquecendo a dureza do dia a dia. Do lado de dentro, eu carregava o peso de todos. O baile era diversão para uns, mas para mim era também trabalho. Precisava garantir que nenhuma facção inimiga tentasse invadir, que não houvesse confusão maior do que a gente podia controlar.
Meus homens se espalhavam pelo perímetro. Eu já tinha dado as ordens: atenção redobrada. O clima com a facção do morro vizinho andava tenso, e qualquer deslize poderia custar caro. Enquanto o som estourava e a multidão descia para a pista improvisada, eu pensava no quanto aquilo tudo parecia um jogo perigoso que nunca acabava. Cada baile, cada festa, cada momento de alegria era sempre atravessado por essa sombra. E eu era a sombra maior, o patrão que precisava manter a ordem.
Foi nesse instante, entre uma batida e outra ecoando nos alto-falantes, que meus olhos captaram algo diferente. Uma figura caminhava pela rua lateral, mais afastada da confusão do baile, mas ainda assim dentro do meu campo de visão. Uma garota.
A princípio, achei que fosse só mais uma entre tantas. O morro sempre estava cheio de rostos, alguns conhecidos, outros passageiros. Mas quando ela passou sob a luz amarelada de um poste, algo dentro de mim travou. O tempo pareceu diminuir o ritmo, e mesmo o som ensurdecedor lá fora ficou em segundo plano.
Era ela.
Não sabia o nome, de onde vinha, nem para onde ia. Mas bastou aquele instante para que minha atenção se fixasse nela como se o resto do mundo não importasse. A garota parecia diferente de tudo que eu estava acostumado a ver por ali. Simples, sem ostentação, mas carregava uma leveza rara, quase impossível naquele lugar. O jeito como andava, a expressão no rosto, a forma como segurava a bolsa lateral enquanto descia a viela — havia algo nela que me deixou intrigado.
Segui seu movimento com os olhos, disfarçando, como se não me importasse. Mas era impossível. Enquanto o baile explodia com luzes coloridas e danças ousadas, ela parecia caminhar em outra frequência. Como se não pertencesse totalmente àquele cenário, mesmo estando dentro dele.
Encostei no banco de couro, tentando afastar aquela sensação. “Não é hora pra isso”, pensei. Eu não podia me dar ao luxo de me perder em devaneios. Mas, quanto mais tentava ignorar, mais ela ocupava meus pensamentos. Quem era? O que fazia ali, atravessando a rua com aquele ar de inocência em meio ao caos?
Ela parecia estar indo encontrar alguém, porque se ajeitou ao perceber a movimentação mais adiante. Então notei quando outra garota apareceu no canto da viela — devia ser uma amiga. As duas se abraçaram rápido e seguiram juntas, rindo de algo que só elas sabiam. E aquele sorriso… eu não via sorrisos assim com frequência. Era limpo, verdadeiro, como se a vida ainda não tivesse conseguido roubar a pureza dela.
Meu peito apertou. Eu, Erik, acostumado com sangue, armas e poder, de repente estava ali, parado, olhando uma garota rir como se fosse a coisa mais importante do mundo. E, por um instante, foi.
Olhei para o retrovisor, ajustei a arma que descansava ao meu lado, tentando voltar à realidade. Eu não podia me deixar levar. A favela estava cheia, meus homens precisavam de mim em alerta. E, no entanto, bastou um olhar para que algo dentro de mim começasse a se mover.
— Patrão, tudo certo? — ouvi a voz de um dos meus na frequência do rádio.
Apertei o botão e respondi no mesmo tom frio de sempre:
— Mantém a atenção. Movimento grande hoje.
Desliguei e voltei os olhos para a rua. Ela já tinha desaparecido na multidão junto da amiga, mas a imagem continuava presa em mim. Eu ainda podia ouvir a risada dela se misturando ao funk, ainda podia ver a forma como o cabelo caía pelos ombros, iluminado pela luz fraca do poste.
De repente, percebi um gesto meu que me pegou de surpresa. Sem perceber, minhas mãos tinham apertado o volante como se tentassem segurar aquela sensação estranha. Como se fosse perigoso demais deixar escapar. Suspirei fundo, fechando os olhos por alguns segundos. “Não, não é hora pra isso”, repeti mentalmente. Mas a verdade é que já era tarde. Algo nela tinha me marcado.
Passei o resto da noite entre ordens, olhares atentos e pensamentos confusos. Parte de mim queria acreditar que foi só impressão, só mais uma garota bonita atravessando a rua no meio do baile. Mas, no fundo, eu sabia que não era. Era diferente.
E essa diferença me assombrava.
Eu, que nunca me permitia sentir nada além da frieza necessária para sobreviver, me vi pensando em alguém que nem sabia o nome.
O baile continuou até tarde, o morro seguiu seu ritmo. Houve pequenas brigas, nada que a gente não controlasse. A madrugada avançou e, como sempre, o peso do poder voltou a cair sobre meus ombros. Mas entre cada decisão, cada ordem dada, a lembrança dela voltava como um sopro inesperado.
Ali, no meio da guerra silenciosa que eu travava todos os dias, nasceu um detalhe que podia mudar tudo.
E eu sabia, no fundo, que aquela não seria a última vez que meus olhos a encontrariam.