• Capítulo 5 •

1249 Words
Não sabia ao certo quando comecei a chamar Rubens de "floco de neve". Mas lembro que, em dias de nevasca, eu o comparava com a neve, e isso apenas se tornou normal. “Estava sentada no sofá pequeno que ficava na frente da janela da sala. Com seis anos, não podia descer ao "porão", a parte onde todos eram treinados ou apenas se exercitavam. Estava cansada de ficar sem fazer nada nesse prédio todo e, principalmente, me sentindo mais sozinha do que nunca. Pisquei assim que ouvi o barulho do elevador apitar. Logo que a pessoa entrou em meu campo de visão, notei ser Rubens. Mesmo com seus onze anos e com uma estrutura magra, tinha o físico de um atleta. Sua pele branca parecia brilhar pelo suor, e seus cabelos pareciam igual à neve que caía. — Por que não posso descer lá? —perguntei, fazendo-o se assustar com a minha presença. — Quando tiver idade, não vai querer descer — ele respondeu grosseiramente, como sempre. Fiz um biquinho enquanto encarava de volta a janela. — Você parece a neve — disse, e ele não respondeu. Quando voltei minha atenção para o turco, ele estava parado me olhando com um copo d'água na mão. —Um floco de neve. — Vai para o seu quarto, pirralha — disse ele, parecendo voltar à realidade. — Antes que fique doente com esses pés descalços. Não vou cuidar de ninguém. ” Sacudi a cabeça após essa lembrança, tentando esquecer o fato de que era mentira. Eu fiquei doente, e ele cuidou de mim, como sempre fazia. Era estranho e totalmente contraditório. Eu não queria que Rubens Erdoğan cuidasse mais de mim daquela forma, mas o sentimento de solidão era tão grande que, definitivamente, eu era hipócrita. Poderia não me sentir assim... Na realidade, me julgo por sentir essa sensação ruįm. Eu tinha tudo que, certamente, muitas pessoas não têm. Poderia ter sido deixada no meio daquele bar com os corpos dos meus pais. Talvez, se tivesse uma vida totalmente diferente, reclamaria menos. Ouvi batidas na porta, que logo me fizeram sair dos meus devaneios. Quem quer que fosse, não esperou que eu permitisse a entrada, e logo a porta foi aberta. Não demorou muito para que Charlotte entrasse no meu quarto e acendesse as luzes. — Você não vai ficar trancada nesse quarto no nosso dia de folga — disse ela, com um tom engraçado, como se uma ou duas semanas passassem rápido. — Não estou aqui o dia inteiro... — respondi. Fiz a reunião que tinha com Erdoğan; ele me passou tudo que havia descoberto e um relatório completo sobre o nosso alvo. No momento, eu só precisava estudar mais e montar uma estratégia inicial. Já havia pensado em algo, mas, como dito, era nosso último dia de folga e queria aproveitar sem a pressão de uma ordem direta do Don. Estava prestes a completar minha fala quando Lotte rapidamente disse: — Ficou sim! — e puxou meu cobertor. — Vamos a uma luta hoje! Olhei o relógio e era oito horas. Depois de conversar com Rubens, fiquei mais de sete horas deitada na cama, olhando para a televisão sem prestar atenção no que se passava. — Não quero — não que a ideia de ver homens agindo como animais não fosse interessante para mim. — Quer sim! Vale tudo — ela disse, com seus olhos brilhando. — Levanta! Levanta! — Quer ir ver a luta ou ver Kauan? — perguntei, e ela revirou os olhos enquanto eu ria. Levantei-me antes que ela me arrastasse de pijama mesmo. •$°$• Em trinta minutos, estava pronta, graças à pressa de Charlotte. Não demorou muito para ela estacionar em um galpão abandonado, e gritos de euforia dominaram minha mente. O lugar tinha vários carros estacionados. Ouvi dizer que também haveria uma corrida, e, ao caminhar para dentro do galpão, um rugido de entusiasmo. Assim que entramos, senti a falta de ar me dominar; o lugar estava completamente lotado. Eu preferia mil vezes que ela tivesse me arrastado para o pub; lá, pelo menos, tínhamos uma sala particular e não ficávamos nessa multidão. — Vou pegar uma bebida!— ela gritou, e eu assenti, sabendo que as bebidas demorariam se ela encontrasse quem procurava. Não iria ficar parada igual uma idïota esperando ela voltar, então comecei a caminhar pelo lugar. Notei que, no ringue, havia dois caras lutando; um estava deitado no chão já desacordado, enquanto o outro não parava nem por um momento de socar sua cara. Assim que o homem se levantou e outro rapaz entrou no ambiente erguendo sua mão, as pessoas gritavam em euforia e outras por frustração. Uma mulher vestida com um mini short e um cropped saia recolhendo dinheiro que era entregue a ela, enquanto outra entregava o dinheiro para alguns. Sim, as lutas eram apostadas. Procurei um lugar onde pudesse ficar quieta no meu mundo e logo encontrei um assento vazio perto do ringue, que acabara de ser esvaziado. Sentei-me e suspirei, esperando pacientemente minha amiga voltar. A cadeira vazia ao meu lado se movimentou. Eu iria sorrir na esperança de ser minha bebida, mas logo meu sorriso mōrreu. O que exatamente Rubens estava fazendo aqui? — O que faz aqui? — ele perguntou, com um tom sério e irritado. — O que você faz aqui? — perguntei, evitando olhar para seu rosto. — Senhoras e senhores! — um homem em cima do ringue gritou, chamando atenção. — Façam suas apostas, a nova luta começará daqui a dez minutos! Rubens versus Kauan! — minha boca se abriu em um "O" gigante. Ele lutava? Não acredito nisso. — Vá embora — ele ordenou, e eu olhei para ele irritada. — Você não é meu pai! Inclusive, ele está mörto, se não se recorda! — vi seu rosto ficar vermelho, não por vergonha ou qualquer tolice desse tipo, mas de raiva. — Rabugento! — Charlotte apareceu como um milagre do céu, com duas bebidas duvidosas em mãos. — Vê se não måta meu amuleto da sorte. — Você a trouxe! — Lotte fez um biquinho e deu de ombros, como se tivesse sido pega aprontando. — Ana... —ele disse meu nome, suspirando. — Vá embora. — Ela é adulta agora! — minha amiga disse e agradeci por isso. — Pode tomar as próprias decisões. Corta o cordão umbilical! Rubens a olhou de uma forma que, se o olhar pudesse måtar, me encontraria chorando a mortę de minha amiga. — Você quer ir embora, Júlia? — ela perguntou e eu neguei. —Então pronto! —ela disse animada, me entregando o copo. — Você precisa ir, lutador. Me dá licença! Assim, ela expulsou Rubens e se sentou ao meu lado. Recusei-me a falar e apenas bebi, querendo qualquer líquido. Uma garçonete, também vestida com a mesma roupa de todas aqui, passava com um carrinho de bebida a todo momento. Poderia ficar prestando atenção em tudo ao meu redor. Mas, como todos, minha atenção foi voltada para o ringue, vendo Kauan Salazar adentrando-o. Um moreno alto e totalmente musculoso, com cachos impecáveis e um corpo de dar inveja. Entendia por que minha amiga era apaixonada por ele. Logo, Erdoğan tirou o moletom preto que usava e precisei beber mais. Sua barriga trincada e definida, seus braços fortes e nada exagerado, e seu rosto muito bem desenhado. O vi me olhar, e vi como ele travou a mandíbula; ele bufou e se virou na direção de Kauan.
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