Minha cabeça doía tanto que queria batê-la na parede. Não sabia como cheguei em casa, muito menos dentro do meu quarto. Mas desejava apenas permanecer deitada e esquecer o mundo lá fora. Porém, as batidas constantes na porta me irritavam. Assim que me levantei e abri a maldïta.
Ramon Aplin era o zelador, o nosso "meliante". Claramente, a casa não seria deixada na mão desses adolescentes. Ele era velho, nítido pelas expressões marcadas. Alto, com algumas mechas grisalhas no cabelo.
— Estão lá embaixo querendo falar com você — ele disse sério, e eu voltei a cabeça para dentro do quarto. Analisando o relógio digital em cima da cômoda, vi que eram seis horas da manhã ainda.
— Estou descendo — respondi, fechando a porta na cara dele e me caminhando para o banheiro.
Assim que liguei a luz do espelho, notei meu estado deplorável. Bufei enquanto arrumava meu cabelo bagunçado de qualquer jeito. Escovei os dentes e passei água no rosto. Ainda usava a mesma roupa de ontem, o que significava que nem banho havia tomado.
Resolvi descer assim mesmo, pois quem quer que fosse não deveria estar aqui. Apertei o botão para o térreo, pois nenhuma de nossas "visitas" subia. Enquanto o elevador descia, joguei minha cabeça contra o metal gelado.
Prendi os sentidos depois da quinta rodada de tequila, sem ideia de onde estava minha moto ou meus pertences. Poderia me procurar com as coisas que disse a Rubens ontem, mas sinceramente, não queria. Meu mundo não gira em torno daquele albino idïota. Assim que destranquei o portão e saí na calçada, meu corpo travou, meu estômago revirou e minhas mãos suaram.
— Como descobriu onde eu moro? — perguntei ao homem que caminhava em minha direção. Victor, mais especificamente meu tio. Sempre fui uma pessoa sozinha depois da mōrte dos meus pais, quando comecei a entender o que era a vida. Dei-me ao trabalho de encontrar algum m****o da minha família e encontrei. Só não pensei que essa decisão seria o meu įnferno pessoal.
— É assim que fala com seu tio? — Seu sorriso amarelo foi entregue a mim. No instante em que ele me puxou para seus abraços, senti um arrepio ruįm na espinha. — Você não me deixou um endereço, foi difícil de encontrar.
— Se não deixei, era porque não queria ser encontrada — cruzei os braços, analisando o homem de um metro e noventa em frente a mim, com os cabelos tingidos de preto, perfeitamente arrumados. Vestia um terno caro e um Rolex dourado gigante no pulso.
— Achei que você tivesse ficado feliz por encontrar sua família querida — revirei os olhos. — Preciso de dinheiro.
— Claro que precisa... — sussurrei, arrependendo-me amargamente das coisas que fiz por este homem. — Não tenho. — Não era mentira; eu recebia apenas quando terminava encomendas e, no momento, estávamos de "férias".
— Então arranje — choquei-me com suas palavras; não era a pōrra de um banco. Apenas virei as costas, querendo voltar para minha cama, mas logo sua mão agarrou meu braço com tanta força que senti a dor de imediato. — Não brinque comigo, Ana Júlia! — ele disse entre dentes — Eu sei exatamente para o que, ou melhor, para quem trabalha. Uma ligação minha e você e essa gangue idïota vão para a cadeia. Quer testar a sorte?
— Me solta — tentei puxar meu braço, mas com a ressaca que estava, minha força ia junto com o vento. — Já disse que não tenho! — gritei.
— Então arranje! Dou-lhe três dias, beleza? Se não...
— O que está acontecendo aqui? — conhecia aquela voz até na escuridão. Assim que olhei na direção da mesma, Rubens Erdoğan parecia ao nosso lado, sem camisa e suado, com seus fones que deveriam estar no ouvido, colocados no bolso. E logo o mar cristalino de seus olhos tornava-se um olhar turvo e escuro. — Solta ela agora.
— Opa, não quero confusão — Victor me soltou e logo se afastou de nós. — Espero sua ligação, querida.
O desgraçado atravessou a rua sem olhar para trás e logo entrou na Porsche estacionada do outro lado. Não era para ser assim... Victor Alencar era irmão da minha mãe. Ele deveria ser uma parte boa da minha família... deveria ser minha família. Quando o procurei, só não queria me sentir sozinha. Estava tão cansada de me sentir sozinha e pensei que ele me ajudaria. Mas o desgraçado tinha uma vida miserável. No começo, era tão gentil, alegre e uma ótima companhia. Porém, agora, tornara-se um estorvo na minha vida.
Senti um nó na garganta, queria sentar e chorar. Odįava isso, reconhecia esse sentimento, o mesmo de ontem cedo depois que vi Rubens. A sensação de não ser importante, a sensação de que minha vida não valia a pena e que tudo se resolveria se eu dormisse e não acordasse mais. Minha vida seria isso para sempre... sozinha.
Ninguém nunca iria me querer; era gorda e estranha, tinha uma péssima mania de estragar tudo de bom na minha vida e afastar qualquer pessoa que se aproximasse, com mędo de me machucar. No final, acabava sozinha e, por mais que tentasse esconder esse sentimento, a tristeza e a infelicidade me abraçavam nos meus piores dias. Senti meu estômago revirar e queria vomitar.
— Ana... — ouvia uma voz distante me chamando. — Anjo? — queria sumir, precisava sumir. — Ana Júlia!
Pisquei, sentindo uma lágrima pesada descer dos meus olhos. Olhei na direção da mão em meu ombro e só então lembrei de Erdoğan, logo limpei meu rosto e retomei minha postura. Entrei em casa sem responder ou agradecer, sentindo sua presença atrás de mim.
— Quem era ele? — fechei os olhos, ouvindo a voz de Rubens, tentando ignorar sua presença. Porém, assim que entramos no elevador, isso se tornou impossível. — Você não vai continuar com isso! — logo vi a mão dele bater no botão vermelho do elevador, fazendo-o parar no primeiro andar e assim ficar. No instante em que tentei apertar o botão para o elevador voltar ao seu curso, vi seus dedos longos pegarem meu pulso. — Olha para mim.
Assim fiz. Como sempre, Rubens estava com seus cabelos brancos molhados de suor, sua pele branca levemente vermelha, creio que pela corrida ou nervosismo. Mas não era o momento; eu só queria voltar para o meu quarto. Senti um soluço escapar entre meus lábios e ele arregalou os olhos.
No momento em que pisquei, lágrimas começaram a cair sobre meus olhos, destruindo minha postura. Ele me puxou para seus abraços e me prendeu entre eles, fazendo meu choro ficar alto e incontrolável. O abracei de volta, querendo sumir e sentindo meu mundo inteiro ruir. Eu estava cansada, exausta. Disse tudo; nunca pedi para ser uma criminosa.
Mas gostava da minha vida. Mesmo querendo agradecer por tudo o que tinha, pela vida luxuosa que levava, eu só queria dormir... morręr. E essa sensação nunca passava; podia me deixar por alguns dias, semanas. Mas sempre voltava, e cada vez pior.
— Estou cansada, floco de neve... — sussurrei para ele, sentindo seus braços me apertarem mais e seu queixo ser apoiado no topo da minha cabeça, fazendo um casulo perfeito de músculo ao redor de mim.
— O que está acontecendo com você? — ele perguntou e, sinceramente, muita coisa. Ele estava há tanto tempo afastado de mim que nem nos conhecíamos mais. Em um ano, muita coisa muda, pois foi esse o tempo que ele se afastou de mim. Um ano e cinco meses. — Olha para mim. — ele segurou meu rosto em suas mãos. — Quem era aquele cara?
— Ninguém importante — afastei-me de seu toque, limpando meu rosto e forçando minha garganta. — Não se importe comigo. — disse, apertando o botão e fazendo o elevador apagar e acender as luzes. Logo voltou a funcionar. — Vou só tomar um banho e nos encontramos na sala nove. Temos um assalto para planejar.
Ergui a cabeça, encarando os números do elevador subirem. Encher minha cabeça de trabalho era exatamente o que eu precisava. Iria conversar com Ramon; precisava de um trabalho extra até a conclusão deste. Precisava de dinheiro urgentemente.
Tinha esse sentimento péssimo dentro de mim, mas era extremamente covarde para tirar minha vida. Então, o que restava era continuar, sempre continuar. Uma hora isso iria chegar ao fim. Com a vida que levava, uma hora eu encontraria o fim que queria.
— Precisamos conversar — ouvi a voz dele.
— Sim, sobre o roubo do diamante. Já disse, vou tomar um banho e já desc...
— Júlia. — suspirei. — Você bebeu tanto ontem que não conseguia ficar reta na sua moto. — Agora sei quem me trouxe. — disse várias coisas para mim e eu sinceramente não sei o que fazer ou dizer e...
— Rubens — me virei para ele. — Esqueça as coisas que disse ontem, ok? Não estava bem. Preciso só de um banho e trabalho. Somos irmãos, né? — ele ficou em silêncio. — Então assim permanecerá. Foi só um momento, talvez t***o acumulado. Resolvo isso hoje à noite.
E assim saí do elevador sem deixar que ele respondesse. Assim que fechei a porta do meu quarto e a tranquei, ri com tamanho idiotice. Nunca tinha transädo na vida; como iria resolver um problema que nem existe? Que merdå de desculpa i****a eu arrumei.