Ana Júlia Alencar ❦.
Quanto mais acelerava, mais sentia a adrenalina me dominar. Quanto mais minha BMW fazia barulho, mais eu acelerava, querendo deixar a adrenalina me dominar por inteiro. Precisava sentir qualquer outra coisa que não fosse a tristeza e a solidão.
Hoje não estava sendo um dos meus melhores dias, mas sabia fingir. Sempre soube fingir muito bem. Minha vida era assim, desde o momento em que pisei na sede, ou melhor, desde que me conheço por gente. Sou uma garota depressiva, que vive a vida fingindo ser feliz.
Fora do meu quarto, sou uma pessoa; dentro dele, sou outra. Hoje deveria ser um dia feliz; estávamos todos de folga e passamos o dia na praia. Mas ele... Sempre era ele. Rubens conseguia mexer com minhas emoções como ninguém mais fazia. O fato de vê-lo hoje cedo fez com que toda a minha autoestima fosse ao chão.
Ele não olharia para mim, ninguém nunca olhou. Minha mãe não me protegeu; meu pai não era realmente o herói que deveria ser. Na maioria das vezes, queria morręr. Sentia que toda essa tristeza e vazio que me dominavam desapareceriam se eu simplesmente dormisse e não acordasse mais.
Pisquei e apertei o freio com tanta força que quase fui jogada da moto. Por falar no dïabo, Erdoğan cruzou à frente da minha moto em alta velocidade, parando na minha frente. Se não tivesse feriado, teríamos batido. Vi-o erguer os braços, como se me perguntasse o que eu estava fazendo, e só então notei que o farol estava fechado. Se tivesse continuado acelerando, teria causado um acidente no cruzamento da avenida principal.
Balancei a cabeça rapidamente, não em resposta a ele, mas na tentativa de afastar todos os meus pensamentos e sentimentos ruins. No momento em que o farol ficou amarelo, acelerei. Sem sair do lugar, Rubens fez o mesmo e revirei os olhos. Eu só queria um minuto de espaço; era pedir demais?
Soltei o freio e logo minha moto voltou a andar. No instante em que voltei a correr, já não estava mais sozinha. Pelo retrovisor, via a moto dele, da mesma marca que a minha, tentando me ultrapassar. Deitei todo o meu corpo sobre o tanque; se ele queria correr, então iríamos correr.
Faltavam três quadras para chegar ao pub, então saí da avenida cortando para o bairro. Logo vi-o fazer o mesmo. Assim que entrei em um bairro que conhecia, comecei a acelerar entre as vilas, tentando que todas saíssem da minha frente. Não importava o que eu fizesse, não conseguia despistá-lo, e não demorou muito para ele me ultrapassar.
No instante em que olhei o painel da minha moto, vi que realmente estávamos correndo demais. Porém, a placa "MG" dominou minha visão, mesmo de longe, e comecei a soltar o acelerador. No momento em que parei a moto e tirei o capacete, vi Rubens andar em minha direção com seu capacete nas mãos.
— Que porrå você estava fazendo?! — revirei os olhos e balancei a cabeça, tentando ajeitar meus cachos. — O que você tem?!
— Me deixa em paz — respondi, descendo da moto. Ele me ignorou o dia inteiro; certo, hoje ainda era seu aniversário e ele podia se isolar em seu mundinho, mas me tratar de forma diferente dos outros era demais.
Fazia um tempo que notei como Erdoğan estava diferente comigo. Depois que fiz dezoito anos, ele se afastou, como se eu fosse uma doença contagiante. Só falava comigo em momentos assim, para saber se estava bem ou para mandar eu não fazer isso ou aquilo.
— Ana Júlia! — e logo parei o caminho que estava fazendo. Sua voz firme parecia comandar meu corpo. — Que porrå está acontecendo?
— Você! — e com toda a coragem que tinha, me virei em sua direção, apontando o dedo para sua cara e segurando meu capacete e chaves com a mão livre. — Você me sufoca, Rubens! Uma hora age como se preocupasse comigo, outra como se eu não existisse! Faz o seguinte: me deixa em paz! Vou terminar essa missão com você e pedir para o chefe me transferir, assim não serei um fardo para você, está legal?!
— Não tô entendendo, você não é um fardo — ele disse, me analisando, como se tentasse me ler através dos seus olhos azuis cintilantes.
— Mas é o que sou para mim! — gritei, ignorando os olhares que recebíamos. — Estou cansada! Desse jeito — balancei as mãos em frente ao seu corpo, como se desenhasse ele. — Que me trata! Não sou sua irmã, Rubens, não sou da sua família para ser tratada tão cautelosamente! Não sou um diamante que vai quebrar, Caralhö!
— Oxi! — ele gritou. — E quer que eu te trate como?!
— Como tratou aquela empregada naquela noite! — e ele arregalou os olhos. — Como trata qualquer mulher que vai parar no seu quarto! Eu não sou sua irmã e nem uma criança! E se não pode me dar o que quero, prefiro que me deixe em paz e se afaste de mim!
Ele ficou um tempo parado me olhando, e não era para estar assim. Não era novidade que eu já o pegara diversas vezes; nossos quartos eram próximos e, por mais que as paredes fossem revestidas para nenhum som sair do quarto, através da porta tudo era ouvido. Além disso, naquela noite, ele me viu; viu que eu assistia tudo através da fresta da porta.
Era uma idiotice dele agir como se não soubesse do que estava falando.
— Próxima vez que apostarem corrida, avise! — ouvi a voz de Silas e logo pisquei, quebrando seu contato visual e virando as costas para ele. — Bora, aniversariante! Temos rodadas de tequila de graça!
— Por isso trouxemos você! — foi a vez de Charlotte dizer, agarrando meu pescoço. — Pronta, amiga?
— Me deixa bêbada hoje — ela riu, batendo palmas, e logo todos nós fomos parar dentro da boate.
Uma música eletrônica tocava enquanto as luzes piscavam sem parar. O lugar estava cheio e a música alta fazia minha cabeça doer. Deveria ter ficado em casa; no momento em que fomos vistos, os seguranças logo liberaram nossa entrada para a área VIP. Tínhamos uma sala em nosso nome.
Liberada para um m****o ou para todos, mas sempre reservada, já que nossa presença ali era quase constante, a área nunca ficava vazia. As luzes piscantes aqui não existiam e eu agradecia por isso; era tudo iluminado por uma luz vermelha. Logo, nosso barman particular ocupou seu lugar no bar.
Silas não demorou a pegar o controle do lugar e a fazer as janelas perderem a tela preta que protegia a visão tanto de dentro quanto de fora. Víamos todo o movimento na pista de dança, assim como ouvimos a música, graças à caixa de som na sala privada.
— Ai, pequena Mari — era sempre a mesma atendente. — Estamos comemorando o aniversário do meu amigo aqui! — bateu no peito de Rubens. — E a chegada dos nossos novos irmãos — apontou na direção dos novatos. — Uma rodada de tequila! — disse animado — Menos para o aniversariante, ele não bebe.
— Iremos beber por ele! — eu disse, após deixar meu capacete em qualquer lugar. — Então, me dê a dose dupla, vou beber os drinks em seu lugar!
Mari foi pegar nossos pedidos, e todos nós nos ajeitamos. Erdoğan apenas se sentou em uma poltrona solitária, de frente para a pista de dança. Eu fui em direção ao bar, pegando os dois shots servidos para mim. Não demorou para todos estarmos com bebidas na mão e erguermos nossos copos em um brinde.