Ana Júlia não estava bem hoje. Eu sabia disso pela forma como ela sorria — um sorriso forçado e uma risada ainda mais forçada. Não mostrava suas covinhas de costume, e isso era o primeiro indício. Em segundo lugar, passamos a manhã inteira na praia e ela não tirou o vestido. Pensar que ela estava com vergonha de seu corpo me deixou incomodado, mais do que eu realmente deveria estar.
Ela não comeu, apenas ficou tomando suco. A julgar pelo fato de que passei o dia inteiro com ela, a única coisa que ela havia comido era um sucrilho pela manhã. Eu iria falar com ela, mas meu telefone vibrou no bolso. No instante em que peguei o aparelho, o nome de Giulia brilhava na tela.
Desliguei a chamada, pois odįava falar ao telefone, e logo enviei uma mensagem. Não demorou muito para ela me passar as informações sobre o que havia pedido antes: fotos de Alfred Klein, um holandês extremamente rico e com grande influência no mundo do crïme. Um homem baixo, já careca devido à idade, com uma barriga grande que certamente não combinava com sua altura.
Ele possuía mais de meio milhão de dólares em joias e quadros. Não era um ladrão comum ou um criminoso envolvido com tráfico. Seu principal negócio era esse tipo de roubo, como um colecionador de obras antigas.
O diamante Hope era o meu único objetivo. Sabia o motivo pelo qual Makyson o queria: para entregar a alguém. Não sendo diferente de mim, ele acreditava na maldïção da pedra. Disse-me uma vez que era para entregar a alguém, mas nunca explicou o motivo ou especificou a pessoa.
Enquanto tentava focar no que Giulia me enviou, uma sensação de desconforto persistia. O estado de Ana me preocupava. Havia algo mais profundo ali, algo que eu ainda não tinha descoberto. Talvez fosse a missão que estava pesando sobre ela, ou talvez algo pessoal.
— Rubens! — ouvi Silas, um pouco bêbado, gritar e jogar um cubo de gelo em mim. Apenas o olhei, levantando uma sobrancelha e não conseguindo evitar um olhar sério. — Eita, foi m*l!
Olhei em volta e todos me observavam. Suspirei, guardando o celular; hoje era dia de folga, e eu poderia mergulhar nisso tudo amanhã.
— Fala — disse, pegando meu copo de Coca.
— Vamos para MG hoje — ele disse. — E dessa vez você vai! É seu aniversário, cara. Posso colocar uma loira, ruiva ou até morena à sua disposição, se você quiser.
— Eu vou — respondi. Silas, Charlotte e até mesmo os novatos bateram na mesa, chamando a atenção para nós. — Mas venham embora cedo! — argumentei.
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Enquanto terminava de fazer o nó na gravata, me perguntava por que aceitei essa loucura. Era um terno gasto à toa e dinheiro enviado à lavanderia desperdiçado. Agora seria tarde demais para desistir; se o fizesse, era capaz de Charlotte me envenenar com uma de suas agulhas e eu acordar no meio do pub.
No momento em que fechei a porta do meu quarto, entrei e vi Ana parada em frente ao elevador, esperando o mesmo. Ela estava com um vestido preto colado ao corpo e um salto da mesma cor. Algo havia acontecido; ela estava completamente apagada, sem seu brilho habitual.
— Ana — chamei-a, e só então ela notou minha presença. — O que aconteceu?
— Me chame de Júlia, já te pedi isso — foi só o que ela disse antes de entrar no elevador. Fiquei parado, em choque com tamanha grosseria. Certo, eu a ignorei o dia inteiro, mas a ponto de ser tratado dessa forma? — Vai entrar ou não?
Forcei meu corpo a obedecer à mente e entrei no elevador. Ficamos em silêncio enquanto ele descia para o térreo. Que merdå estava acontecendo? Ela sabia que tínhamos uma missão juntos, não era hora de me ignorar ou agir dessa forma.
— Sabe que temos uma missão juntos, né? — perguntei o óbvio, e ela suspirou.
— Amanhã cedo passo no seu quarto para colocar algumas pautas em dia — disse de forma ríspida. — Até amanhã, continue a me ignorar, por favor.
Assim, Ana saiu do elevador, o som dos saltos ecoando pela garagem. Seu quadril balançava a cada pisada firme que dava no chão. Fiquei parado por um tempo, apenas observando-a se afastar. Só quando o elevador apitou e as portas iam se fechar é que coloquei o pé na frente, saindo também.
Ela estava brava comigo, isso era óbvio.
Caminhei até minha moto e a vi parada em frente à sua. Uma moto da mesma marca que a minha, com a diferença de que a minha era preta e a dela roxa, o que não era novidade, considerando ser sua cor favorita. Ela não iria pilotar de vestido e salto, né?
Minha questão foi respondida no momento em que ela levantou o vestido, mostrando uma venda que até então eu não tinha notado. Parte de uma tatuagem em sua coxa ficou à mostra. Foquei meus olhos nela e me perguntei quando ela havia feito outra tatuagem, além daquela na panturrilha que era a marca da Máfia.
Conforme meu olhar subia, metade do pano do vestido cobria o restante. Mas deduzi que era uma cobra pelo formato inicial. Deixando minha mente viajar, imaginei-a sem o vestido, mostrando a tatuagem com uma lingerie preta. Subi o olhar rapidamente para encarar seu rosto.
Já em cima da moto, com o corpo ereto, me encarava, provavelmente notando o tempo que passei focado nela. Engoli em seco ao ver seus olhos castanhos me observando como se tentassem desvendar um quebra-cabeça. O barulho do elevador fez com que ambos olhássemos na mesma direção, quebrando a sensação estranha que estava.
— Bora encher a cara! — Silas apareceu com o resto do pessoal. — Eu dirijo!
Ele apertou o controle do carro, destrancando-o. Peguei meu capacete, olhando diretamente para a parede enquanto me ajeitava para subir na moto. Certo, nos últimos meses passei tempo demais culpado pelas coisas que Makyson me pediu sobre Caim, mas cheguei ao ponto de não notar as mudanças em Ana, ou talvez estivesse apenas ignorando essa sensação estranha.