Rubens Erdoğan ☠.
Férias
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Quatro horas, foi o horário que levantei da cama e coloquei meus tênis para vir correr. Estava correndo há duas horas, dando a volta no bairro inteiro como fazia todos os dias, em meu fone tocava Bad Omens, minha banda favorita. Meu corpo já pingava em suor e sentia a exaustão me abraçar, porém continuei mantendo o ritmo. Meu relógio de pulso começou a apitar às seis e vinte, horário costumeiro de início do dia na sede.
Enquanto voltava para casa, pensei em como deve ter sido a noite do pessoal. Duas semanas de folga, claro que iriam ao Pub; MG era um clube que eles adoravam frequentar. Todo final de semana que ganhávamos folga, eles batiam ponto lá. Eu, particularmente, se fui duas vezes, foi muito. Não gostava de ir, por dois pontos: primeiro, eu não bebia; segundo, era mais uma balada. Isso não enchia meus olhos.
No instante que avistei o prédio, reduzi a velocidade. Nós, moradores, não entrávamos pela fachada. A frente sempre será parecida com um prédio comercial, então, era pelos fundos nossa entrada principal. Logo que coloquei minha digital, o portão se destrancou. Retirei os fones no momento em que entrei no elevador e apertei o último andar; era todo nosso, como uma suíte presidencial.
No último andar ficava a cozinha e a sala; no décimo primeiro, os quartos. Tudo era dividido por andares e numerações. Cresci aqui, poderia andar por esse prédio todo de olhos fechados. No momento em que o elevador abriu e saí da caixa de metal, dei de cara com Ana Júlia, vestindo seu baby doll curto e apertado, deixando sua barriga à mostra e as coxas pareciam que iriam rasgar aquele mini short.
Os cabelos, ontem perfeitos, presos em um ninho de choque; seus olhos castanhos me analisaram de cima a baixo. Ela me encarava com a colher na boca e o pote de Sucrilhos com Danone na outra mão. A ignorei como geralmente fazia e logo ouvi ela dizer um:
— Bom dia, i****a — e ir em direção ao outro elevador, que dava acesso aos quartos. Abri a geladeira, pegando uma garrafa de água, e só quando a porta do elevador se fechou, respondi.
— Bom dia, anjo — resolvi descer pela escada de emergência, já que não iria ficar parado esperando o elevador voltar.
No momento em que passei pela porta de emergência, vi a porta no final do corredor ser fechada, o quarto dela, com a porta pintada de roxo vivo. Cada porta aqui era decorada de acordo como o morador queria; o único lugar que podíamos mudar era os quartos. A porta de Ana era roxa e com rosas desenhadas a lápis. Me lembrava do dia que ela parou de chorar e finalmente decorou sua porta.
A porta de Silas era vermelha e com chamas, imitando o fogo. Charlotte tinha sua porta em azul, com borboletas por todo lado. Lisa Tales tinha sua porta em amarelo e com um sol desenhado. As únicas portas brancas e comuns eram a frente da minha dos irmãos Sanchez. Falando da minha, era a única toda preta, sem desenho ou enfeites, apenas preta.
No total, éramos três homens e atualmente quatro mulheres. Se não fosse pelo Ramon Aplin, essa casa seria completamente dominada por mulheres. Joguei meu fone na cama já arrumada, tirei meus tênis de corrida, depois as meias, e comecei a caminhar em direção ao banheiro. Precisava de um banho.
Odįava o dia vinte de julho, e poderia facilmente esquecer essa data, mas graças a Makyson não podia. Na realidade, era graças a ele que estava vivo em todo sentido. Meu pai era um drōgado fūdido que batia todas as noites na minha mãe. Aliás, era dela essa genética; ela era alpina e bem, eu puxei algumas ou muitas características dela.
Era pequeno demais, mas mesmo com dois anos minha mente fazia questão de ainda lembrar dos maldįtos gritos da minha mãe. Do jeito que ele a batia todas as noites como se estivesse em um UFC.
Na noite em que ele exagerou na dose, foi na noite que o próprio dïabo foi cobrar. Acredito que minha mãe nunca soube das dívidas do desgraçado. Na noite em que ela mandou eu ir para debaixo da cama, como todas as noites de agressão, foi o dia que o vi.
Pude ver minha mãe sendo mōrta por não aguentar os chutes direcionados ao seu crânio. Seus olhos azuis arregalados para mim embaixo da cama. Depois, meu pai chorando, mandando ela se levantar. Não demorou muito para a porta do meu antigo apartamento ser arrombada, Makyson Mancini entrar, falar que ele era um ser horrível por måtar sua mulher na pancada e atirar mais vezes do que eu pudesse me lembrar. Foi ele que achou estranho minha mãe morręr olhando para debaixo da cama. Foi ele que me achou ali, me trouxe para cá e me fez querer viver.
Não falava quando pisei aqui, odįava contato ou brïgas, mas ele vinha todos os anos no meu aniversário. No começo, me levava sempre para algum lugar: shopping, parque. Depois, começou só a cantar parabéns com um bolo diferente a cada ano. Ele comemorava pela minha vida, enquanto eu só pensava que deveria ter morrïdo naquela noite junto com a minha mãe.
Balancei a cabeça, tirando as memórias que não fazia sentido guardar. No momento em que desliguei o chuveiro, ouvi Silas gritar pelo corredor e bater de porta em porta. Revirei os olhos, rindo, e dei um jeito de colocar a primeira roupa que visse antes que ele derrubasse a minha porta.
— Bora, galera! A praia não fica logo ali, não! — ele gritou novamente e logo peguei meu celular, saindo do quarto. — Viram! Até mesmo a celebridade está pronta!
— Vai tomar no cū antes que eu esqueça — respondi a ele, passando as mãos sobre meu cabelo molhado.
— Hoje somos amigos! — ele disse, vindo em minha direção e pulando no meu ombro. — Não se manda amigos ir tomar no cū.
— Tô pronta! — Charlotte saiu de seu quarto com um biquíni azul e apenas uma canga cobrindo seu corpo.
— Demora muito? — e logo Joyce, a novata, saiu de seu quarto.
— Uma hora! — não demorou muito para seu irmão sair e a responder. — Vou ter que aturar você por uma hora.
Todos entramos no elevador. No instante em que a porta estava se fechando, notei a falta de Ana, mas permaneci quieto no canto do elevador. Minutos antes da porta se fechar, sua mão com a unha grande pintada de preto atrapalhou o processo.
— Vamos, falsos! — ela disse, entrando no elevador, e logo apertou o botão para fechá-lo. Ela usava um vestido branco e longo demais para ir a uma praia.