• Capítulo 6 •

1556 Words
Irritado, era isso que me definia. Pela manhã, após o ocorrido com Ana, eu sentia meu estômago embrulhar todas as vezes que minha mente insistia em me lembrar do jeito que ela me abraçou no elevador. Somente eu e Charlotte tínhamos Alencar sem máscaras; vi uma vez ela chorando no quarto acompanhada por sua amiga. Considerando o tempo em que a conhecia, já havia visto ela chorar mais vezes do que eu podia imaginar. Então, por que dessa vez me senti tão incomodado? Passei o dia inteiro sentindo seus abraços em volta da minha cintura e seus soluços em meus ouvidos. Se aquele cara fez algum m*l para ela, eu o cacaria no įnferno se necessário. Por isso, agora estava nos Irmãos de Sångue. Um nome idïota para um clube de luta ilegal. Fazia um tempo que não vinha aqui, mas a sensação incômoda no meu estômago não queria passar. Era um misto de preocupação com... mędo? Revirei os olhos, olhando em volta e levando meu refrigerante até os lábios. Mas um cabelo ruivo adentrando o lugar fez eu paralisar no mesmo instante. Hesitei em olhar no rosto da dona daqueles cachos de fogo, mas assim que me tomei por vencido, a vi. O que Ana Júlia Alencar estava fazendo aqui?! Minha pergunta foi respondida quando ela virou o rosto e visualizou Charlotte. Bufei. Havia apresentado esse lugar a Saito por pura e mera chantagem. Quando completei dezesseis anos, comecei a ser autorizado a participar das lutas. Até os dezoito, vinha sempre que podia, e em uma dessas saídas, ela me seguiu. Ameaçou contar a Ramon se eu não a trouxesse junto e apresentasse a todos que conhecia. Quando parei de vir, achei que ela havia feito o mesmo; aparentemente não. Ouvi gritos e pisquei, saindo do meu transe. Olhei uma última vez na direção de Ana, que vestia uma calça jeans e um cropped lilás de manga longa, porém sempre puxando e cobrindo a barriga. Me recordei de onde estava no momento em que recebi meu primeiro soco. Meu rosto foi para trás e uma dor latente me dominou. Mordi meus dentes um contra o outro, fazendo meu maxilar travar. Respirei pesado, uma... duas... três vezes. Assim que abri meus olhos e puxei meu pescoço para cima, ajeitei minha postura. Era como se o mundo inteiro tivesse sumido, e minha raiva, que eu tanto tentava evitar e reprimir, me abraçasse. Pōrra, Kauan era meu amigo, mas aqui isso não existia. Sorri para ele e pisquei como se estivesse me desculpando. Só então permiti que toda a minha ira me envolvesse. Desviei de um dos seus socos e logo o soquei na barriga, sabendo que ele iria defender, e sem tempo de espera, soquei seu rosto. Antes que ele tivesse tempo para raciocinar, o chutei de um jeito tão forte que senti meus ossos arderem. Soltei todo o peso do meu corpo em um soco nas suas costas, e no momento em que iria subir em cima dele para socar seu rosto diversas vezes como imaginava. O barulho eufórico da multidão se calou e, como um instinto predatório, vi a cadeira de Ana arrastar ao chão. Não me pergunte como, não saberia explicar. E só então me lembrei que ela estava ali naquela noite. Já havia mandado homens ao hospital, assim como já havia apanhado feio quando menor. Mas nada, em nenhum momento da minha vida, me preparou para isso. Ela nunca me viu tortūrar alguém, pois sendo praticamente um m****o intocável da facção, tinha o direito de permitir quem fosse assistir minhas sessões de tōrtura, e ela não estava nessa lista, nunca esteve. Alencar não conhecia nem de perto o meu pior lado, porém senti que isso mudaria ou mudou naquela maldïta noite. A vi se virar e, antes que pudesse acompanhar seu movimento, recebi um soco que me fez cambalear e bater contra as cordas do ringue. Senti o gosto do meu próprio sanguę na boca. Poderia reagir, daria tempo para isso. Mas não queria. O dinheiro que ganharia com essa merdå não valia nem o whisky que eu tomava. Deixei Kauan me socar novamente e caí no chão de propósito. Ouvi gritos e desespero, como se os homens que apostaram em mim mandassem que eu me levantasse logo. Mas contei os cinco minutos e senti, no instante em que meu amigo me virou, ele socou meu rosto com tanta força que senti minha visão ficar turva. — Reage, pōrra! — ouvi ele em um tom alto, porém audível apenas para mim. Meu olhar correu na direção em que ela deveria estar e ele logo seguiu rapidamente. — Merdå, Erdoğan! — como se compreendesse perfeitamente o que quis dizer. Se levantou e chutou minha costela. Arfei pela dor em meus pulmões e logo a campainha soou. •$°$• Ana Júlia Alencar ❦ Não conseguia respirar! Era como se meu próprio sutiã roubasse o pouco de ar que tinha em meu peito. O olhar de Rubens sempre me deu mędo quando ficava sério demais, mas nunca pavor. Foi isso que senti assistindo aquela luta. Depois do soco, ele parecia a pōrra de um demônio! Seu pescoço se virou tão rápido que pensei que quebraria. No momento em que chutou Kauan, vi Charlotte apertar fortemente a correntinha que tinha no pescoço. Que ganhou de presente pelo seu amante, senti sua aflição. Mas pior que isso, senti um vazio emanando de Rubens. Como se os olhos que me acalmavam e me irritavam na mesma medida se perdessem em meio a uma névoa tempestuosa. Dentro dos meus dezoito anos, nunca havia visto aquele lado dele, como se, por um milésimo de segundo, uma imagem que construí fosse rachada ao meio. — Para quem não tem dinheiro, está em uma festa! — dei um pulo, reconhecendo a voz. Victor, duas vezes no mesmo dia, está de s*******m! — Está me seguindo!? — perguntei irritada, e só então notei que havia me afastado demais do galpão. — Oh, sobrinha querida! — ele colocou a mão no peito, fingindo uma falsa reação ofensiva. — Estou zelando pela sua segurança. — Ah, não fōde! — respondi, me sentindo no meu limite de paciência. — Se ganha dinheiro com as lutas ilegais, por que quer o meu? — Porque eu sei o seu segredo. — Não era meu segredo... e sim de uma facção. Pōrra, era da merdå da elite da máfia com a qual estávamos lidando. — Se ameaçar novamente minha vida e minha família, garanto que o próximo dinheiro destinado à sua vidinha patética será para administrar seu velório. — Ele riu, gargalhou tão alto que chamou a atenção dos poucos ao nosso redor. — Ana Júlia, querida — enquanto se aproximava de mim, me jogou contra a parede e segurou meu queixo com tanta força que sentia suas marcas na minha pele. — Quando bateu na minha porta com quinze anos, dei o que você queria, não é? — ele disse, com uma voz rígida e cortante ao ouvido. — Você vai me dar o que quero. — Se não me soltar agora mesmo, eu lhe matö. — Ele bufou uma risada e, em menos de segundos, estava com um canivete pressionado contra sua jugular. — Não me importaria em me banhar no seu sanguę nojento. — Sua mão livre foi tão rápido para dentro da minha blusa e meu seio que precisei piscar diversas vezes para tentar amenizar o choque. — Você fica sexy quando assume a postura de uma assassįna. Flashes daquela maldïta noite atingiram minha mente. Engoli o nó do choro que se formou em minha garganta e tentei permanecer com as mãos firmes. Afinal, era treinada para manipular. — ANA! — ouvi alguém gritar e logo Victor se afastou de mim e sumiu entre as sombras, assim como apareceu. Fiquei encostada na parede, imóvel. "Você já jantou... quero que seja a minha sobremesa." A voz dele invadia minha mente, me causando calafrios. - p***a, Alencar! - ouvi passos se aproximando e limpei a lágrima rapidamente. Escondi o canivete e saí de trás da parede. Me virei para observar o que estava ao meu redor e me choquei com um muro de músculos. - Merda! - senti meu pulso ser puxado e logo minha cintura ser laçada por abraços fortes e firmes. Evitando que eu caísse como bosta no chão. Erdoğan agarrava minha cintura com tanta força que parecia ter encontrado o pote de ouro no final do arco-íris. Levantei minha mão para nos afastar, mas meu toque gelado contra sua pele extremamente quente foi como um choque térmico, que tanto eu quanto aparentemente ele sentimos. Minha respiração ficou pesada no momento em que levantei meu olhar para encará-lo. A imensidão azul de seus olhos parecia o mar em um dia agitado. Seus cabelos brancos naturais, graças à sua genética albina, estavam lambidos para frente, graças ao suor da luta. Uma gota do seu suor caiu sobre o pequeno espaço entre nós. Imaginei como seria ter Rubens Erdoğan de outra forma, sentir seu suor pingar na minha pele nua, sentir sua mão puxando a raiz do meu cabelo e segurando com a mesma força com que segurava minha cintura. Suspirei involuntariamente assim que senti ele apertar meu pulso. Ele fechou os olhos, engolindo em seco, e como se eu fosse uma praga, se afastou.
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