— Que porrå venho fazer aqui? — perguntou, mantendo distância de mim.
— Olha se minha presença te incomoda tanto assim! — vociferei — finge que não estou aqui!
O empurrei e caminhei de volta ao galpão. Era a nossa última noite de folga e, drōga, queria que ele me deixasse viver por um momento. Sentia-me sufocada. Não por ele em si, mas pelas minhas escolhas idįotas que me levaram a um beco sem saída. Queria relaxar um pouco. Estava tão exausta, cansada e estressada.
— Achei vocês! — Lotte gritou, de mãos dadas com Kauan, que tinha pequenos cortes no rosto. — Vamos a uma festinha, amiga.
— Toma! — Salazar jogou uma camisa preta na direção do amigo. Não queria ir embora, queria beber e tentar participar da corrida... mas fiz um bico, entrando em acordo com a minha mente de que voltaria para isso.
— Para onde? — perguntei.
— Purgatoire — ela disse em um francês perfeito. Sabia que festa era essa, mas nunca me interessei em ir. — Ha! — Antes que eu pudesse dizer não, ela levantou o dedo indicador. — Não vou deixar você se trancar naquele quarto de novo! Você está precisando urgentemente relaxar, e não estou falando de drōgas ou bebida.
Perdi qualquer argumento ali. Não estávamos vestidas apropriadamente para esse evento, mas não discuti. Kauan puxou o amigo um pouco afastado de nós, como se quisesse uma conversa particular. Senti minhas orelhas queimarem quando ele se virou para mim, me encarando enquanto escutava seu amigo. Queria ser um mosquito, queria muito.
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Rubens Erdoğan ☠.
— O que mudou? — ouvi a pergunta de Salazar, meu amigo, e eu arriscaria dizer meu único amigo. O desgraçado me convenceu a vir a esse clube adulto, e não demorou nada para liberarem nossa entrada.
Era isso: Purgatoire, uma casa de orgias e apostas. Um salão grande, com mulheres nuas dançando para os homens e se exibindo ao centro. Afastado da pista de "dança", o bar onde as meninas estavam no momento. Algumas mesas espalhadas pelo salão e garçonetes vestidas com lingerie de todas as cores. Na frente da nossa mesa, um corredor dava acesso aos quartos.
No primeiro corredor estavam os quartos visuais, com espelhos transparentes. Deixando visível todo tipo de sęxo para quem quisesse assistir. Descendo as escadas, quartos de massagem para quem quisesse se aventurar. No fundo, quartos individuais. Olhei para cima, especificamente para os andares superiores. Uma piscina aquecida compartilhada e um grupo considerável de mulheres se pegando enquanto dois homens apenas assistiam. Ao lado, separado por uma porta, um quarto de "jogos" onde um grupo de amigos brincava com cartas. Atrás de mim, sabia que a última área era de b**m.
— Vai me ignorar? — eu estava tentando. — O que mudou depois daquela noite? — fez novamente a pergunta. — Lembro muito bem que neste bar, aos dezessete, em comemoração ao seu aniversário, você me disse como ela tinha crescido e estava ficando gostosa. — Mordi meus dentes, travando o maxilar ao me lembrar disso.
— Nada. — menti. — Perdi o interesse, sei lá... ela é minha irmã. — Ele riu, balançando a cabeça negativamente.
— Não, cara! Eu sou seu irmão, Julia é sua conhecida. Se quer jogar baixo, no máximo é uma irmã de consideração ou uma prima bem distante! — Revirei os olhos e me remexi na cadeira, vendo as duas garotas surgirem do corredor. Charlotte tinha acabado o tuor, e elas voltavam com um copo de gin em mãos.
Lotte, em vez de se sentar no banco à nossa frente, sentou no colo de Kauan. Rindo perigosamente no ouvido dele, lá vinham os dois com essa história novamente. Salazar era filho de um senador corrupto, por isso nossa amizade, por isso ele sabia sobre a vida que nós três levávamos. O pai dele geralmente contratava os serviços de Don, e bem, nós éramos os peões. Makyson mandava e nós executávamos.
Conheci o malditō com doze anos, e desde então éramos amigos, algo leve para a vida doida que eu levava. Geralmente, a gente não tinha segredos um com o outro. Claro, existiam coisas pessoais, mas segredos não. Apenas um limite para nós dois. Ele sabia quem eu era e não se metia a fundo. Assim como eu.
No momento em que ouvi os dois se beijarem, peguei meu copo de whisky e tomei um gole. Vendo Ana me olhar em choque. Segundo olhar desse, somente hoje.
— O que? — perguntei.
— Você bebendo. — Evitei revirar os olhos. Certo, eu não bebia na frente de ninguém em casa. A única que já me viu beber foi Charlotte, porque havia uma época do ano em que ela não se desgrudava de Kauan, e eu e ele quase sempre saíamos juntos, então acabou sendo inevitável.
— Não esquenta, amiga! — me virei para a morena que sorria em diversão. — Fiquei em choque também até gravei, mas ele me jurou de mortę se eu mostrasse para o pessoal lá em casa! — Ana sorriu e bebeu seu gin em resposta.
Analisei a ruiva na minha frente. Ela estava inquieta, vez ou outra me olhava por cima da cabeça. Sabia que não era minha atenção que ela queria, e sim o que se passava atrás de mim.
Ela se interessava por isso..? Qual era exatamente a parte que ela tinha interesse?
Minha mente me traiu, me levando a imagem perfeita de Ana Júlia Alencar. Uma lingerie lilás, com as mãos e pernas amarradas, esticada sobre a cama e com uma visão ampla de cada parte de seu corpo só para mim. Salivei ao pensar nisso, e a sensação que tive mais cedo quando ela tocou com aquelas mãos pequenas e geladas no meu peito.
Passei a língua entre os lábios, tentando manter esse meu lado quieto. Ou ao menos longe dela. Tomei meu whisky, concentrado nela. Como sua respiração estava começando a ficar irregular, como ela apertava as pernas e, principalmente, o jeito forte com que segurava a taça. Sem piscar nem um segundo sequer, desviei meu olhar um pouco para cima, visualizando os espelhos espalhados por todo o lugar.
No que ela assistia um casal, a mulher estava ajoelhada, completamente amarrada com as mãos e pés para trás. Enquanto chupava seu companheiro com tanto t***o que era transmitido através da imagem. Quando voltei a notar Ana, seus olhos brilhavam. E senti um arrepio percorrer meu corpo, meu coração acelerar e enviar sanguę para o meu påu que latejou.
Sim. Lembro-me perfeitamente bem do dia em que ela me pegou fodęndo a empregada. Lembro como ela me olhava curiosa através da porta e como eu gozei naquele dia só pelo fato de despertar a curiosidade dela. Na manhã seguinte, senti-me tão m*l, tão sujo, que me afastei dela, parei de levar mulheres para casa e até mesmo de pegar as funcionárias.
— Bom! — pisquei, saindo do meu transe, e Ana pareceu se assustar também, ficando vermelha, como se estivesse envergonhada. — Vamos ali — eles iam fodęr. Certeza. — Amiga, deixo você na responsabilidade do rabugento. — Charlotte sabia que eu odįava esse apelido. — Você deixe minha amiga relaxar nem que seja por uma noite! — Apontou para mim como se estivesse ameaçando minha vida.
— Ve se relaxa também! — ouvi Kauan dizer enquanto era puxado na direção dos quartos. — O que acontece no purgatório, fica no purgatório!
Ele berrou nosso ditado sempre que entrávamos por aquela porta, dizia há anos que frequentávamos o lugar.
Balancei a cabeça, descrente disso. O que Salazar usou para me convencer a vir com eles foi a simples possibilidade de deixar Ana Júlia sozinha no meio de tanto sęxo. E lá ia ele, correndo como um cachorro sempre que Charlotte estalava os dedos. Voltei a encarar Alencar, que parecia um pouco desconcertada.
— Quer ir embora? — perguntei, e ela balançou a cabeça levemente em um não, como se estivesse tímida, mas quisesse ficar. Via a curiosidade através do seu olhar. — Nunca entrou em uma casa de swing? — Ela balançou a cabeça negativamente, rapidamente. Bufei uma risada pelo nariz, levantando levemente meu lábio em um sorriso de lado. — Ok... — acenei para a garçonete, pedindo mais um whisky sem gelo. Meu copo estava vazio e esse calor infernal dentro de mim me deixava com sede. — Quer conhecer algum lugar? — Ela jogou a cabeça para o lado, como se pensasse bem na resposta.
— Quero — a voz dela estava... mole. Caralhö! Eu iria måtar Charlotte e Kauan por acabarem com a minha sanidade. Acompanhei o dedo dela, somente para ter certeza do que estava vendo. Ela apontou para a porta vermelha atrás de mim. Fechei a mão em punho e respirei fundo.
— Senhor — a garçonete me entregou meu copo sorrindo. — Adicionar ao cartão fidelidade, senhor? — "Sim," foi o que saiu da minha boca enquanto meus olhos paravam nos de Ana. — Sua acompanhante?
— Como!? — me virei imediatamente, sentindo meu pescoço estalar. Sabia que a pergunta estava sendo feita, alguém tinha interesse nela. Aqui, os casais ou pessoas que desejavam compartilhar não chegavam diretamente; a informação era passada pelas garçonetes.
— A senhorita de cabelos vermelhos é sua acompanhante.
— Sim. — respondi ríspido demais, sentindo minha garganta arranhar. — E, antes que pergunte, não, eu não compartilho.