3- DIANA

1266 Words
CAPÍTULO 3 DIANA NARRANDO Tem gente que olha pra mim e acha que eu sou só isso aqui: riso fácil, energia lá em cima, boca grande e coragem de sobra pra arrastar a ruivinha pro morro pela primeira vez. Mas ninguém sabe quem eu sou de verdade. A não ser o Deco. Meu irmão. Meu único irmão. E a única família que eu tenho no mundo. Eu nasci e cresci no morro. A vista sempre foi bonita, mas a vida nunca foi. Quando eu tinha oito anos, minha mãe morreu de uma pneumonia que o posto demorou demais pra tratar. Antigamente não tínhamos o mesmo atendimento que temos hoje. A gente só conseguia o atendimento básico do básico, e infelizmente foi uma fatalidade tudo isso que aconteceu. Três meses depois, mataram meu pai numa troca de tiro que nem era pra ele estar no meio. Mas a verdade é que ele já nem era mais o mesmo de antes, ele vivia triste pelos cantos bebendo, porque sentia falta da nossa mãe. E foi assim que, de um dia pro outro, só sobramos eu e ele. Deco. O nome dele é Vinícius, mas ninguém ousa chamar assim há muito tempo. Pra todos ali, ele é o dono do morro — o homem que manda, protege, decide, e que nunca treme diante de ninguém. Mas pra mim… Ele é o menino de quinze anos que vendeu o próprio videogame pra comprar meu material escolar. O garoto que trabalhava de servente de pedreiro de dia e de entregador à noite pra garantir que eu fizesse as melhores escolas. O moleque magro, de olhar duro demais pro próprio tamanho, que apontou o dedo na minha cara e disse: — Você não vai se perder aqui. Você vai estudar, Diana. Acha que eu vou te deixar no mesmo destino que várias por aqui seguem? Nem ferrando. Eu não tinha escolha. E, ao mesmo tempo… eu tinha todas. Porque ele me deu. As pessoas gostam de apontar o dedo e dizer que o dono do morro é bandido, criminoso, perigo ambulante. Ninguém sabe quantas noites o Deco deixou de comer pra pagar minha mensalidade. Ninguém viu quando ele dormiu sentado na recepção do colégio pra garantir que eu não fosse confundida com “a menina da favela”. Ninguém sabe que, quando eu formei no ensino médio, ele chorou escondido na moto, jurando que eu seria a primeira da família a pisar numa faculdade. E eu vou. Eu prometi. Ele nem sempre foi o dono do Morro, mas acabou conquistando isso e eu gosto de pensar que apesar da vida perigosa que ele leva, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para os moradores. Porque ele se importa, tá sempre pensando na melhoria do Morro, inclusive o posto que já não é mais como antigamente. Só que tem uma coisa sobre crescer ao lado do homem mais temido do morro: você aprende a guardar segredo E o maior deles é esse: Eu sou a irmã do Deco. E ninguém — absolutamente ninguém — sabe disso na zona sul. Nem a Manuela. Talvez porque ela mereça ser minha amiga por quem eu sou, não pelo sangue que eu carrego. Talvez porque eu sempre tive medo do nome do meu irmão carregar peso demais nas minhas costas. Ou talvez porque, lá no fundo, eu tenha medo de perder a única amizade verdadeira que eu já tive. Quando eu conheci a Manu na escola, eu tava na sétima série. Saia impecável, mochila cara, aquela cara de garota que vivia tudo que eu nunca tive. Mas ela sorriu pra mim como se eu fosse igual. Igual, Diana. Como se eu não tivesse chegado de ônibus depois de subir morro a pé. E naquele dia eu decidi: Se existe alguém que vai ser minha amiga sem precisar mentir quem eu sou… É ela. O problema é que eu menti, né? Não com palavras. Com silêncio. Ela nunca perguntou muito sobre minha vida. Talvez porque soubesse que eu mudava de assunto, talvez porque não quisesse invadir. Mas o fato é que, durante todos esses anos, nunca tive coragem de dizer: — Aquele morro que você tem medo? Meu irmão que comanda. — Aquela contenção cheia de cara armado? Eles me chamam de “a irmã do chefe”. — Aquele baile que você vai hoje comigo? Eu só piso lá porque todos eles sabem que, se encostar um dedo em mim, o morro inteiro cai. Mas eu preferia mil vezes que ela achasse que eu sou só… Diana. A amiga louca, divertida, teimosa. Não a princesa intocável do território mais complicado do Rio de janeiro. A verdade é simples: Eu sou do morro. Mas o meu futuro está fora dele. E o Deco fez de tudo — TUDO — pra isso. Ele foi pra vida errada? Foi. Mas foi porque não existia mais ninguém pra cuidar de mim. E eu nunca vou julgar. Ele me deu estudo, segurança, casa, comida, oportunidade. Me deu o que pai e mãe não puderam. E agora ele quer me ver voando. Quer que eu tenha uma vida que ele nunca pôde ter. Quer que eu seja livre. E parte dessa liberdade… é estar com a Manu. A única pessoa no mundo que me faz sentir que eu posso ser só eu. Hoje tem baile aqui e eu tô bastante animada, porém não queria ir sozinha então liguei para a única pessoa que eu sei que toparia as minhas loucuras. Quando a Manu atendeu o telefone e disse que não estava fazendo nada, eu senti um estalo no peito. Eu sabia que era arriscado levar a ruivinha no baile. Sabia que o Deco ia me matar se descobrisse. Ele sempre foi superprotetor, e não gosta que estranhos entre aqui. Mas a Manu tava tão presa naquele apartamento branco que quase não respirava. Eu conheço bem esse tipo de prisão — mesmo tendo crescido longe do luxo, eu sei como é sentir que sua vida não é sua. E ela merecia uma noite pra viver. Uma noite pra ser dona do próprio corpo, do próprio desejo, da própria liberdade. E eu queria ser a pessoa a dar isso pra ela. — Cê vai amar o baile — eu disse pra ela no telefone. Mas o que eu pensei de verdade foi: “Cê vai conhecer o lugar que fez de mim quem eu sou. E pela primeira vez, eu vou deixar você chegar perto da minha história.” Por isso, quando eu entrei no carro e liguei o som alto, sentindo a batida subir, eu tava nervosa. Não por mim. Por ela. Enquanto eu dirigia ouvindo ela respirar fundo no banco do passageiro, eu pensei em contar a verdade. Pensei MESMO. Mas olhei pra ela, com aquele cabelo ruivo brilhando no reflexo da rua, os olhos verdes arregalados, toda empolgada e nervosa ao mesmo tempo… E não consegui. Porque naquele exato momento, ela confiava em mim como ninguém nunca confiou. E eu queria que ela tivesse uma noite leve, não carregada de um segredo pesado demais pra quem nunca viu o mundo lá de baixo. Respirei fundo. — Cê tá pronta? — perguntei, rindo, mesmo sabendo que ela não tava. Ela sorriu de volta. — Acho que sim. Eu também achei que sim. Mas eu não fazia ideia de como a vida dela — e a minha — ia virar de cabeça pra baixo depois daquela noite. E, muito menos, de como meu irmão… O dono do morro… Ia reagir quando soubesse que eu mesma levei a ruivinha até lá. Continua.....
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