CAPÍTULO 4
MANUELA NARRANDO
Eu jurava que já tinha vivido muita coisa nessa vida. Viagem pra fora, festa chique, evento fechado, música eletrônica com DJ que cobra o valor de um carro popular pra trabalhar duas horas. Achava que conhecia tudo.
Achava.
Até entrar naquele morro.
A rua parecia outra realidade. O som batia no peito como se quisesse alinhar o meu coração ao ritmo da música. A luz colorida refletia nas paredes das casas, e as pessoas… ah, as pessoas dançavam como se estivessem vivas de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
— Relaxa, Manu — a Diana disse, segurando minha mão com firmeza, quase arrastando meu corpo inteiro. — Tu tá comigo. Aqui você não precisa se preocupar, cê é de casa.
De casa.
Eu não era dali.
Mas, por algum motivo que eu não conseguia explicar, eu me sentia exatamente assim: confortável. Viva. Respirando de verdade.
Confiando nela.
Enquanto subíamos o beco que levava ao baile, meu coração batia cada vez mais rápido — mas não era medo. Era adrenalina, era expectativa, era aquela sensação de que alguma coisa grande estava prestes a acontecer… e eu finalmente estava pronta pra deixar acontecer.
Quando chegamos no local, onde o baile rolava, eu simplesmente parei, chocada com tudo aquilo.
Era bonito. De um jeito caótico, vibrante, quente.
A rua estava lotada, mas não sufocante. Cada canto tinha gente dançando, rindo, se pegando, vivendo sem pedir licença. A música batia tão forte que eu senti meus pés vibrarem antes mesmo de entrar no ritmo.
Diana olhou pra mim, toda animada.
— E aí? O que achou?
Eu sorri, grande demais, sincera demais.
— Amei.
E ela riu, vitoriosa, como se já soubesse.
— A gente vai rebolar muito a raba hoje.– ela fala se empolgando e começa a dançar.
A gente começou a dançar ali mesmo, no meio de todo mundo. A Diana rebolava como se tivesse nascido naquele som, e eu tentava acompanhar, mas estava mais ocupada tentando absorver tudo. O cheiro de cerveja, perfume barato, fumaça doce no ar… a sensação de liberdade.
Diana aproximou o rosto do meu ouvido:
— Hoje tu vai esquecer tudo. Hoje tu vai viver.
Eu nem sabia o quanto precisava ouvir aquilo.
Fechei os olhos, deixei a batida me guiar, mexi o corpo sem pensar.
E quando percebi, estava rindo.
Rindo de verdade.
— Aí sim, ruiva! — ela gritava enquanto puxava minha mão pra cima, me rodando.
E eu rodava mesmo.
Rodava e esquecia tudo lá fora — casa, regras, expectativas, gente olhando pra mim como se eu fosse uma boneca de porcelana.
No morro, eu era só mais uma garota dançando.
E isso era libertador.
Fomos caminhando pela multidão seguindo em direção ao bar para podermos pegar uma bebida. Eu só conseguia pensar que a Diana já estava animada daquela forma sobria, imagina quando começar realmente beber a forma que não ficaria.
Pedi ao garçom um whisky com gelo de coco e energético, Diana pegou um gim cheio de frutas, e voltamos pro local onde estávamos dançando a minutos atrás. Confesso que estou me divertindo muito e olha que a noite só começou.
Tava rindo da forma que a Diana dançava, fazendo palhaçada, até que alguém esbarrou no meu ombro com força suficiente pra me fazer dar um passo pra trás.
— Eita! — eu soltei.
O homem também se desequilibrou um pouco. Alto, pele morena dourada, cabelo jogado pra trás com aquele descuido proposital, camisa preta e vermelha do flamengo colada no corpo… e um sorriso que parecia perigoso e bonito na mesma medida.
— Foi m*l, princesa… — ele disse, virando o rosto pra mim.
E aí ele me viu.
Eu senti quando ele me viu.
O riso dele sumiu.
O olhar dele prendeu no meu.
E ele abriu a boca como se tivesse esquecido respirar.
— Cärälho… — ele murmurou, muito baixo, quase sem som. — Tu é linda pra pørra.
Eu não consegui responder.
Meu corpo travou.
Meu coração também.
Ele deu um passo mais perto, o olhar passeando pelo meu rosto como se tentasse decorar tudo.
— Desculpa mesmo, de verdade, foi m*l. Não tinha te visto… quer dizer… agora tô vendo. Bem até demais.
O rosto dele ficou vermelho, mas o sorriso malandro voltou, abrindo espaço entre as covinhas marcadas.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Diana se colocou entre nós:
— Relaxar, Frajola. Tá tudo certo.
Fra… o quê?
Eu pisquei, confusa.
Que tipo de nome era aquele?!
O cara olhou pra ela rápido, como se tentasse decidir se já conhecia a minha amiga de algum lugar — o que, pela reação dele, parecia óbvio.
— Tá suave, Di. Só que, pô… tu não avisou que ia trazer… isso. — ele disse apontando pra mim como se eu fosse algum tipo de obra de arte contrabandeada.
Diana bufou.
— Ela tem nome. Manuela.
Ele repetiu meu nome com o mesmo cuidado de alguém provando açúcar pela primeira vez.
— Manuela…
A forma como ele falou fez alguma coisa dentro de mim se contorcer.
Diana me puxou pra perto dela, rindo:
— Manu, esse aqui é o Frajola.
Eu sorri, meio sem graça.
Porque, sério… Frajola?
Que pai olha pra um bebê e diz “vou chamar de Frajola”?
Eu tava prestes a perguntar se era apelido quando ele deu mais um passo pra perto de mim. A música parecia baixar quando ele se aproximava — ou talvez fosse eu que tivesse ficando meio tonta.
Ele parou tão perto que eu senti a respiração quente dele bater no meu rosto.
— Cê dança? — ele perguntou.
Eu abri a boca pra responder, mas ele não esperou.
Não pensou.
Não pediu.
Não hesitou nem por um segundo.
Ele me beijou.
Simples assim.
No meio do baile, no meio de todo mundo, sem aviso, sem preparação, sem cerimônia.
Um beijo quente, firme, cheio de vontade — como se ele tivesse esperado a vida inteira por aquele momento e só tivesse percebido isso quando olhou pra mim.
Eu levei um segundo pra entender o que estava acontecendo.
Outro segundo pra decidir se eu deveria empurrar ele.
E um terceiro — só um — pra fazer exatamente o contrário.
Eu beijei de volta.
Com gosto.
Com fome.
Com vontade.
A mão dele deslizou pra minha cintura como se já me conhecesse, e minha mão subiu pro pescoço dele sem eu mandar. Eu ouvi a Diana — gritar alguma coisa tipo:
— MEU DEUS, MANU!
Mas eu não tava nem aí.
A vida é curta.
Eu tinha prometido pra mim mesma que ia viver aquela noite.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava fazendo uma coisa só por mim.
Depois de alguns segundos — ou minutos, sei lá — ele se afastou, mas só o suficiente pra olhar meu rosto. Os olhos escuros dele tinham brilho de quem não entende muito bem o que acabou de acontecer.
— Caralhø – ele sussurrou, sem vergonha nenhuma. — Cê beija gostosø pra porrä, ruivinha.
Eu ri. Nem reconheci meu próprio riso.
Diana bateu no braço dele:
— Ô, Frajola! Pega leve, ca.cete!
Ele ergueu as mãos em rendição, mas o olhar não saiu de mim nem por um instante.
— Foi ela que retribuiu, ele disse, dando de ombros. — E eu não tenho culpa se caiu do céu uma gata dessas aqui no baile.
Eu pensei que ele estivesse só se achando… até ver alguns olhares ao redor.
Algumas pessoas inclinando a cabeça pra ver o que acontecia.
Algumas meninas cochichando.
Não faço ideia de quem era aquele tal de Frajola, mais deve ser alguém conhecido por aqui.
E, naquele momento, quando ele se aproximou outra vez e segurou meu rosto como se eu fosse frágil demais pro mundo… eu percebi uma coisa:
Aquela noite ia mudar minha vida.
De um jeito ou de outro.
E pela primeira vez…
Eu estava pronta pra deixar mudar.
Continua.....