cinco meses separados

933 Words
Cinco longos meses se passaram. Tempo suficiente para a saudade virar rotina. Para a dor aprender a ficar em silêncio. Para o amor não ir embora. Naquela noite, já passava das onze quando Letícia criou coragem. O dedo tremia sobre a tela do celular. Ela respirou fundo… e ligou. Chamou duas vezes. — Alô… — a voz dele veio baixa. — Oi, linda. Só de ouvir, os olhos dela marejaram. — Mesmo separados… o perigo continua — disse ela, tentando manter a voz firme. Houve um breve silêncio do outro lado da linha. — Eu sei — Juan respondeu. A voz carregava um cansaço antigo, uma dor que ele nunca admitia em voz alta. Ela engoliu o choro. — Eu só queria que você soubesse… que eu tô com saudades. Juan fechou os olhos. Uma lágrima escorreu lentamente pelo rosto dele, silenciosa, pesada. — Vem pra mim, amor — disse, quase num sussurro. — Vem. O coração dela bateu forte. — Amanhã eu vou, tá? Eu prometo. Hoje eu tô fazendo estágio até tarde… vou sair daqui umas três horas da manhã. A preocupação tomou a voz dele imediatamente. — E como você tá fazendo pra ir pra casa essa hora, Letícia? — Vou de carona com uns amigos — respondeu ela. — Eles me deixam mais perto de casa… depois eu ando só uns cinco quilômetros até lá. Do outro lado da linha, o silêncio foi pesado. — Cinco quilômetros… sozinha… três da manhã? — ele disse, tentando se controlar. — Letícia, isso não é seguro. — Eu sei — ela respondeu baixinho. — Mas é o que eu consigo agora. Juan respirou fundo, a mandíbula travada. — Me manda a localização quando sair. Foto de quem estiver com você. Placa do carro. Tudo. — Juan… — Tudo — repetiu, firme. — Mesmo separados, você ainda é importante pra mim. Ela fechou os olhos, sentindo o nó na garganta. — Eu também nunca deixei de me importar com você. — Amanhã — ele disse, com a voz mais suave — você vem. E a gente conversa direito. Sem fugir. Sem medo. — Amanhã — ela confirmou. — Prometo. A ligação terminou, mas nenhum dos dois conseguiu dormir. Porque, mesmo depois de cinco meses, uma coisa permanecia intacta: O amor deles nunca soube como terminar. A madrugada caiu pesada. O estágio terminou às três em ponto. Letícia saiu do prédio cansada, os ombros doendo, a mente cheia. Mandou a localização, como prometido. Foto do carro. Placa. Tudo. Juan já estava em movimento antes mesmo da mensagem chegar completa. Ela entrou no carro com dois colegas. Riram de alguma coisa boba no caminho, mas o coração dela batia estranho. Uma inquietação que não explicava. Quando desceu, exatamente como combinado, ficou sozinha na calçada quase deserta. — Valeu, gente — disse, forçando um sorriso. O carro foi embora. O silêncio tomou conta. Ela ajustou a bolsa no ombro e começou a andar. Passos ecoando. Postes de luz espaçados. O vento frio. O celular vibrou. Juan: Não olha pra trás. Continua andando normal. O estômago dela gelou. Letícia: Por quê? Demorou segundos que pareceram eternos. Juan: Porque tem um carro te seguindo desde a esquina anterior. O sangue fugiu do rosto dela. Ela respirou fundo e continuou andando, como se não tivesse lido nada. O coração batia tão forte que parecia denunciar cada passo. O carro reduziu a velocidade. — Calma… — ela sussurrou pra si mesma. Outro carro surgiu no fim da rua. Faróis apagados. Só o brilho rápido quando virou a esquina. O carro que a seguia acelerou. Em segundos, tudo aconteceu rápido demais. O carro freou bruscamente ao lado dela. A porta abriu. — Ei, gatinha— Antes que a frase terminasse, um impacto violento atingiu o veículo. Outro carro fechou a frente. Portas abriram. Vozes firmes. Armas apontadas. — Sai devagar. Agora. Letícia reconheceu a voz antes mesmo de vê-lo. — Juan… Ele estava ali. Olhar frio. Mandíbula dura. Uma mão estendida pra ela. — Vem. Agora. Ela correu até ele, as pernas tremendo. Juan a puxou contra o peito por um segundo — só um — o suficiente pra sentir que ela estava viva. — Encosta nela de novo — ele disse ao homem, num tom baixo e mortal — e você não sai andando daqui. O homem tentou falar. Não conseguiu. Juan fez um sinal curto. Os seguranças o retiraram. Ele virou pra ela, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu mandei você nunca andar sozinha essa hora. Ela começou a chorar. — Eu achei que dava… eu não queria te envolver… — Você é o que me envolve, Letícia — ele respondeu, a voz carregada. — Você sempre foi. Ele a colocou no carro. O caminho até a casa dele foi silencioso. Ela chorava baixinho. Ele dirigia com uma mão no volante e a outra segurando a dela com força, como se soltasse fosse perdê-la. Quando chegaram, ele nem perguntou nada. Só a levou direto pro quarto, fechou a porta e a abraçou forte. — Nunca mais — ele disse, enterrando o rosto no cabelo dela. — Nunca mais você vai passar por isso sozinha. Ela segurou a camisa dele, como se estivesse se afogando. — Eu tentei me afastar pra te proteger… — E quase se perdeu — ele respondeu. — Isso não é proteção. Ela ergueu o rosto, os olhos vermelhos. — Então o que a gente faz? Juan encostou a testa na dela. — A gente para de fingir que consegue viver separado. O silêncio que veio depois não era vazio. Era decisão.
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