a protecao dele e linda

794 Words
Passaram alguns dias em relativa calmaria, até que, numa noite tranquila, Letícia respirou fundo antes de falar: — Juan… eu vou precisar ficar dez dias fora. Ele ergueu o olhar devagar. — Fora como? — Vou pra um laboratório no Hospital Santiago, em outro estado. É um projeto importante da faculdade, prática pesada mesmo. — Ela mordeu o lábio, apreensiva. — Eu não queria ir agora… mas é obrigatório. Juan ficou em silêncio por alguns segundos. A mão dele apertou a dela, não com raiva, mas com preocupação. — Dez dias… — repetiu. — Você vai ficar sozinha? — Não. Vou ficar num alojamento do hospital, com outros estudantes. Segurança, regras, tudo certinho. — Ela se aproximou mais. — Eu prometo que me cuido. Prometo mesmo. Ele encostou a testa na dela. — Não é falta de confiança em você. É medo do mundo. — A voz saiu baixa. — Eu odeio não estar por perto. — Eu sei. — Ela sorriu de leve. — Mas isso também faz parte de quem eu sou. E… eu preciso que você confie em mim como eu confio em você. Juan soltou o ar devagar, vencido. — Tá. Dez dias. — Ele a puxou para um abraço forte. — Liga todo dia. Me manda localização, mensagem, foto do café se for preciso. Ela riu baixinho, emocionada. — Todo dia. Toda hora, se você quiser. Antes de dormir, ele ainda murmurou: — Dez dias passam. O que não passa é você ser minha. Letícia fechou os olhos, sentindo aquele misto de saudade antecipada e certeza. — Eu volto. E volto pra você. Os dias seguintes passaram rápidos e lentos ao mesmo tempo. Na véspera da viagem, Juan fez questão de acompanhar Letícia até arrumar a mala. Ele observava cada detalhe em silêncio: os jalecos dobrados, os livros pesados de química, o caderno cheio de anotações e aquela pequena nécessaire que sempre ia com ela. — Dez dias… — ele repetiu, encostado na porta. — Parece pouco, mas não é. Letícia fechou a mala e caminhou até ele. — Vai passar. Eu volto antes do que você imagina. Ele segurou o rosto dela com cuidado, como se estivesse memorizando. — Qualquer coisa estranha, você me liga. Não importa a hora. Não tenta ser forte sozinha. — Eu prometo. Na despedida, não houve pressa. Só um abraço longo, daqueles que dizem tudo sem palavras. Quando ela entrou no carro que a levaria ao aeroporto, Juan ficou parado, observando até desaparecer de vista. O aperto no peito era familiar demais. --- No Hospital Santiago, a rotina era brutal. Letícia acordava antes do sol nascer, passava o dia entre laboratórios, reagentes, relatórios e protocolos rígidos. O ambiente era sério, competitivo, exaustivo. À noite, o corpo pedia descanso, mas a mente insistia em pensar. Ela ligava para Juan sempre que podia. — Comeu? — ele perguntava. — Comeu você? — ela devolvia, tentando brincar. — Só depois que você voltar. Mas, no quinto dia, algo mudou. Letícia percebeu um homem parado tempo demais perto do portão lateral do hospital. No dia seguinte, o mesmo carro passou devagar quando ela saía com outros estagiários. Nada explícito. Nada concreto. Só aquele incômodo que arrepiava a nuca. Naquela noite, ela ligou. — Juan… acho que tem alguém me observando. O silêncio do outro lado durou menos de um segundo, mas ela sentiu. — Onde você tá agora? — No alojamento. — Tranca a porta. Não sai sozinha. Me manda a localização agora. Ela obedeceu sem discutir. Minutos depois, o telefone vibrou com uma mensagem curta: > Confia em mim. Já tô resolvendo. --- Do outro lado, Juan já não dormia. Ele fez ligações, acionou contatos, cruzou informações. Não era paranoia. O passado dele tinha tentáculos longos, e alguns ainda se moviam no escuro. — Ninguém toca nela — ele disse, frio, ao homem do outro lado da linha. — Ninguém sequer chega perto. --- No sétimo dia, Letícia encontrou Juan parado na entrada do hospital. — Você enlouqueceu?! — ela sussurrou, o coração disparado. — Não. — Ele se aproximou. — Eu te avisei que não ia te deixar sozinha. Ela respirou fundo, os olhos marejados. — Eu tentei ser forte. — E foi. — Ele tocou a mão dela. — Mas agora deixa eu ser forte por nós dois. Os dez dias terminaram antes do previsto. Na volta, no carro, Letícia encostou a cabeça no ombro dele. — Eu achei que ficar longe ia me fazer esquecer um pouco… — ela confessou. — Mas só me fez ter mais certeza. Juan beijou o topo da cabeça dela. — De quê? Ela sorriu, cansada, mas inteira. — Que não importa o perigo, a distância ou o caos… — Eu não consigo mais ficar longe de você.
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