Passaram alguns dias em relativa calmaria, até que, numa noite tranquila, Letícia respirou fundo antes de falar:
— Juan… eu vou precisar ficar dez dias fora.
Ele ergueu o olhar devagar.
— Fora como?
— Vou pra um laboratório no Hospital Santiago, em outro estado. É um projeto importante da faculdade, prática pesada mesmo. — Ela mordeu o lábio, apreensiva. — Eu não queria ir agora… mas é obrigatório.
Juan ficou em silêncio por alguns segundos. A mão dele apertou a dela, não com raiva, mas com preocupação.
— Dez dias… — repetiu. — Você vai ficar sozinha?
— Não. Vou ficar num alojamento do hospital, com outros estudantes. Segurança, regras, tudo certinho. — Ela se aproximou mais. — Eu prometo que me cuido. Prometo mesmo.
Ele encostou a testa na dela.
— Não é falta de confiança em você. É medo do mundo. — A voz saiu baixa. — Eu odeio não estar por perto.
— Eu sei. — Ela sorriu de leve. — Mas isso também faz parte de quem eu sou. E… eu preciso que você confie em mim como eu confio em você.
Juan soltou o ar devagar, vencido.
— Tá. Dez dias. — Ele a puxou para um abraço forte. — Liga todo dia. Me manda localização, mensagem, foto do café se for preciso.
Ela riu baixinho, emocionada.
— Todo dia. Toda hora, se você quiser.
Antes de dormir, ele ainda murmurou:
— Dez dias passam. O que não passa é você ser minha.
Letícia fechou os olhos, sentindo aquele misto de saudade antecipada e certeza.
— Eu volto. E volto pra você.
Os dias seguintes passaram rápidos e lentos ao mesmo tempo.
Na véspera da viagem, Juan fez questão de acompanhar Letícia até arrumar a mala. Ele observava cada detalhe em silêncio: os jalecos dobrados, os livros pesados de química, o caderno cheio de anotações e aquela pequena nécessaire que sempre ia com ela.
— Dez dias… — ele repetiu, encostado na porta. — Parece pouco, mas não é.
Letícia fechou a mala e caminhou até ele.
— Vai passar. Eu volto antes do que você imagina.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, como se estivesse memorizando.
— Qualquer coisa estranha, você me liga. Não importa a hora. Não tenta ser forte sozinha.
— Eu prometo.
Na despedida, não houve pressa. Só um abraço longo, daqueles que dizem tudo sem palavras. Quando ela entrou no carro que a levaria ao aeroporto, Juan ficou parado, observando até desaparecer de vista. O aperto no peito era familiar demais.
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No Hospital Santiago, a rotina era brutal.
Letícia acordava antes do sol nascer, passava o dia entre laboratórios, reagentes, relatórios e protocolos rígidos. O ambiente era sério, competitivo, exaustivo. À noite, o corpo pedia descanso, mas a mente insistia em pensar.
Ela ligava para Juan sempre que podia.
— Comeu? — ele perguntava. — Comeu você? — ela devolvia, tentando brincar. — Só depois que você voltar.
Mas, no quinto dia, algo mudou.
Letícia percebeu um homem parado tempo demais perto do portão lateral do hospital. No dia seguinte, o mesmo carro passou devagar quando ela saía com outros estagiários. Nada explícito. Nada concreto. Só aquele incômodo que arrepiava a nuca.
Naquela noite, ela ligou.
— Juan… acho que tem alguém me observando.
O silêncio do outro lado durou menos de um segundo, mas ela sentiu.
— Onde você tá agora?
— No alojamento.
— Tranca a porta. Não sai sozinha. Me manda a localização agora.
Ela obedeceu sem discutir. Minutos depois, o telefone vibrou com uma mensagem curta:
> Confia em mim. Já tô resolvendo.
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Do outro lado, Juan já não dormia.
Ele fez ligações, acionou contatos, cruzou informações. Não era paranoia. O passado dele tinha tentáculos longos, e alguns ainda se moviam no escuro.
— Ninguém toca nela — ele disse, frio, ao homem do outro lado da linha. — Ninguém sequer chega perto.
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No sétimo dia, Letícia encontrou Juan parado na entrada do hospital.
— Você enlouqueceu?! — ela sussurrou, o coração disparado.
— Não. — Ele se aproximou. — Eu te avisei que não ia te deixar sozinha.
Ela respirou fundo, os olhos marejados.
— Eu tentei ser forte.
— E foi. — Ele tocou a mão dela. — Mas agora deixa eu ser forte por nós dois.
Os dez dias terminaram antes do previsto.
Na volta, no carro, Letícia encostou a cabeça no ombro dele.
— Eu achei que ficar longe ia me fazer esquecer um pouco… — ela confessou. — Mas só me fez ter mais certeza.
Juan beijou o topo da cabeça dela.
— De quê?
Ela sorriu, cansada, mas inteira.
— Que não importa o perigo, a distância ou o caos…
— Eu não consigo mais ficar longe de você.