Patrícia já estava na ilha á quase um mês e Rael ainda não tinha se aproximado dela.
Ele a via entrar e sair do hospital e também caminhando com a filha, Olívia e as vezes com Márcia.
As duas tinham se tornado boas amigas. Com elas Rael a via sorrir.
Mas quando era com ele, Mônica se retraia e ficava mais séria. Ela estava sempre a uma certa distância quando ele falava, e se ele se aproximava, ela dava por instinto um passo para trás.
Por causa destes detalhes, Rael não tentava se aproximar quando falava com ela, e nem sequer se movia daquele lugar.
Mas, ele percebeu uma certa mudança num dia em que a viu comprando pão na Padaria que era a favorita de todos na Ilha.
- Bom dia Patrícia.
- Bom dia Rael. Como estás?
- Muito bem. Vejo que já estás bem adaptada á Ilha.
- Sim. A cada dia eu gosto mais de estar aqui. O clima é maravilhoso e até a Pérola já age como se tivesse nascido aqui. Ela adora a escola, e só fala das aulas de natação.
- Ela me surpreendeu. Para uma menina tão pequena é uma super nadadora. Estou impressionado.
Você a educa muito bem.
- Obrigada. Eu sou tudo para ela.
E ela é tudo para mim. Nós não precisamos de mais nada. Digo, além da Olívia.
- Tudo bem. Eu entendi.
- Preciso ir agora. Ela adora o pão ainda quente. Tchau Rael.
Mônica foi embora e surgiu alguém que Rael conhecia muito bem.
- Parece que ela é imune á você Rael. Que mulher agiria assim diante de um homem como você?
- Uma mulher de verdade. Que não se ilude com aparências e que sabe o que realmente deseja de um homem. Ao contrário de você.
Não é mesmo Maria Fernanda?
- Não precisas de ser tão frio.
Sabes bem o que sinto por você Rael.
- E você sabe que eu não vou corresponder a estes sentimentos.
Então tenha mais amor próprio e pare de insistir. Nunca teremos uma relação amorosa, porque eu não vejo você como mulher.
Rael foi embora e a deixou em pé no lugar e com os olhos húmidos.
Maria Fernanda sabia que ele só tinha sido sincero. Rael nunca lhe deu nenhuma esperança, mas Maria Fernanda não entendia isso.
- Você quer um café Fernanda?
- Quero sim Paula. Obrigada.
- Porque você não o esquece amiga?
Ele não sente nada por você. Pelo menos não do jeito que você deseja que ele sinta.
- Eu sei. Ele faz questão de dizer isso na minha cara sem mudar uma palavra.
- Então porque você continua se humilhando desta maneira?
Olhe para você. Tu és jovem e linda.
Não precisas de mendigar o amor que nunca terás.
Maria Fernanda sabia que a sua amiga estava certa. Ela já tinha feito muitas tentativas para chamar a atenção de Rael, mas ele sempre fazia questão de a rejeitar e dizer que não a via como mulher.
- O que vais fazer amiga?
- Vou desistir dele Paula. Você está certa. Eu tenho que pensar mais em mim. No que eu quero e preciso.
- Isso mesmo. Esqueça o Rael e siga a sua vida. E deixe que ele faça o mesmo. Se ele gosta de outra pessoa, você devia ajudar ele. Essa seria uma forma de demonstrar o seu amor por ele. Se ele só vê você como uma boa amiga, então seja uma amiga para ele.
- Tudo bem. Eu percebi que ele olha para a Patrícia com interesse.
- E ela corresponde?
- Sinceramente não sei. Eu ainda não falei com ela pessoalmente, mas admito que a admiro.
- A sério?
- Sim. Ela é mãe e pai da Pérola que mesmo não estando na minha turma é conhecida por ser uma menina inteligente demais para idade que tem.
- E o Pai dela?
- Ela disse que o Pai foi embora quando era muito pequenina e não passa daí.
- Tudo bem. Com certeza a mãe a orientou para ser discreta. E este assunto não é da nossa conta.
- Tens razão. Eu vou ajudar o Rael a ser feliz. Se ele gosta da Patrícia, então serei o cupido deles.
- Uau! E como vais fazer isso?
- Isso não posso revelar. Mas prometo que será para ver o Rael feliz. Tchau amiga.
Mônica amava o seu trabalho. Já estava acostumada, e também os pacientes e seus pais que sempre a elogiavam.
Na pausa para o café, ela decidiu abrir o seu coração para Márcia.
- Patrícia! Você confia em mim?
- Claro que sim. Você é a pessoa em quem eu mais confio depois da sua mãe. És a minha melhor amiga.
Aliás, a minha nova melhor amiga, pois a que eu deixei não pode nem saber aonde estou por uma questão de segurança.
- Como assim?!
- Eu vou contar. A Olívia sabe de tudo. Ela me salvou das garras de um demónio.
Mônica contou tudo e não evitou as lágrimas. Márcia a escutou e sentiu a dor dela por também ser mulher.
- Minha querida. Eu não posso nem imaginar a dor que você sente no coração. Mas saiba que eu vou te proteger contra qualquer pessoa.
E nunca mais ninguém vai te fazer tanto m*l.
- Obrigada. Eu prometi a mim mesma que a Pérola jamais vai saber como foi concebida. Eu a amo demais, e ela nunca terá nada daquele homem.
- Isso mesmo. E no que depender de mim ele não vai se aproximar de vocês nunca mais.
- É claro que não. Se ele tentar vai se arrepender de ter nascido. Eu não sou mais a menina ingénua de quem ele abusou tanto. Eu agora sou uma mulher capaz de me defender. E se ele ousar se aproximar da minha filha, eu o mando para o inferno.
- E não farás isso sozinha.
Todos aqui nesta ilha vão te defender. Ninguém precisa de saber os detalhes. Nós não suportamos nenhum tipo de violência. E para defender um de nós somos capazes de qualquer coisa.
- Obrigada. Tem mais uma coisa.
- O que é?
- O Rael. Ele tem tentado se aproximar de mim, mas eu não deixo. É difícil demais para mim reagir sem defesa quando ele fala comigo.
- Eu entendo. As tuas defesas se ativam automaticamente porque ele é homem?
- Sim. Mas eu não sei por quanto tempo vou resistir. Eu não sou cega Márcia. Ele é lindo e muito atraente. Tem uma presença que faz o meu coração acelerar. Mas, não sei se suportaria que ele tocasse na minha mão. O meu corpo se retraia porque apenas recebeu toques dolorosos.
- Minha querida. Nenhuma mulher devia sofrer tanto. Mas, eu acho que o teu coração está a dar sinais positivos sobre o Rael. Se ele acelera sempre que se encontram, é porque você é sim capaz de amar de verdade.
- Você acha que devo dar a ele uma oportunidade de se aproximar?
- Isso só você pode decidir. Mas, como amiga eu acho que sim. Faça uma tentativa. Se não der certo, eu mesma garanto que ele se mantenha afastado de você.
- Combinado. É melhor voltarmos ao trabalho.
Mônica trabalhou com maior disposição. Daria para Rael a oportunidade de se aproximar dela. Primeiro como amigo e o resto deixaria o tempo dizer.
Olívia foi pegar Pérola na escola e as duas foram até á Clínica para lhe fazer uma surpresa.
Mônica saiu de sua sala e as viu esperando.
- Surpresa Mamã.
- Nossa! Que surpresa maravilhosa.
Eu amei.
- Que bom querida. Nós também queremos saber se você aceita jantar pizza hoje. Afinal é sexta-feira.
- Ótima ideia. Mas tem que ser caseira. Assim podemos cozinhar juntas como uma família.
- Pode ser caseira Vovó Olívia?
- Claro que sim. Vamos comprar os ingredientes necessários.
Sabes Patrícia. Eu pensei em fazermos um churrasco no final de semana. Os meus filhos adoram.
E as crianças vão poder brincar na piscina. Faremos hambúrgueres e tudo o que elas gostam.
- Eu estou de acordo.
Depois das compras foram para casa.
- Filha! Faça o seu dever e depois vai para o banho. Eu e a Olívia vamos começar a preparar tudo.
- Está bem Mamã.
Olívia e Mônica prepararam tudo.
A Pizza já cheirava bem e ela aproveitou para ir ver a filha.
A pequena tinha acabado de terminar o banho e estava a vestir - se.
- Já terminou filha?
- Sim Mamãe. E coloquei tudo no lugar. Não deixei nada desarrumado.
- Muito bem. Terminei de se vestir e desça para podermos comer.
Mas quando desceu, Mônica teve uma surpresa ao ver Rael falando com Olívia.
- Rael? O que você faz aqui?
- Oi Patrícia. Me desculpe. Eu vim á convite da Olívia.
- Sério? Porque a Senhora não me disse Tia?
- Porque deixaria de ser surpresa.
Anda! Vamos comer. A pizza quente é ainda melhor.
Foram á mesa e Pérola contou como eram divertidas as suas aulas.
Rael ria de tudo e também contava muitas coisas fazendo Mônica rir muito.
Fazia tempo que ela não se divertiu tanto.
Mais tarde e com Pérola já deitada, sentaram para tomar um café.
Olívia estava a arrumar a cozinha.
- Patrícia! Me permites fazer uma pergunta pessoal?
- Claro. O que é?
- Onde está o Pai da Pérola?
- Morto. Ele nunca fez parte da nossa vida. E não passa de uma lembrança infeliz.
- Me desculpe. Não te quis aborrecer.
- Tudo bem. É apenas um assunto difícil. A Pérola não precisa dele.
- Entendo. Bem! Vou para casa agora. A pizza estava ótima.
Muito Obrigado.
- Por nada. Teremos churrasco no final de semana com o resto da família. Estás convidado. Traga a tua mãe.
- Assim será. Até sábado.
- Boa não Rael.
Mônica o acompanhou até á porta.
Já estava menos tensa na presença dele.
Seria este um sinal de que poderia confiar em Rael?