Quando se tem tudo premeditado, nada te surpreende, poucas coisas fazem sentir o gosto da vida, é como dirigir um carro automático, você coloca no D, segue o trilho à alta velocidade, pode trazer ventania, se serão boas ou ruins, depende muito da sua força física e mental.
Nas horas vagas que tive estudei como falar, interagir, ser simpática, profissional. Grande parte disso fiz por Luiza, que incluía obrigações estéticas todo santo dia, a outra parte vem da fobia que tenho de decepcionar pessoas, mesmo às sem importâncias, aquelas de pouco contato, luto para que meu nome e decepção nunca estejam juntos em uma frase só.
Ser namorada de um cara bonito te faz ter seguidores em redes sociais, você se torna uma ditadora da moda, copiam suas frases, músicas, fotos, manias... As pessoas passam a ser repetitivas, é tudo igual, mesmo assunto, mesmas palavras, mesmos costumes. Exaustivo, enjoativo. Ninguém em sã consciência aguenta viver por aparência. Eu quem o diga.
Interagir com Thor Telles era assim, automático, fácil, até agradável, Teodoro calculava cada passo seu, estar hoje aqui com esses dois TESÕES gigantes da sociedade... Espera! Não esse tipo de t***o, aquele que vai além do nosso controle, sobe por nossas partes intimas, bagunça todos os instintos, que a falta ou excesso dele podem deixar qualquer ser humano louco. Paixão, desejo, tentação, não essas coisas por favor, não me confunda com uma ninfomaníaca, existem um milhão de formas de sentir t***o, alguns subconscientes pervertidos ligam automaticamente ao s**o, entretanto à outros meios, por exemplo, dormir, músicas, comidas, afirmo que isso me dá um t***o daqueles.
No entanto minha tese aqui é um pouco diferente, puxada pro lado da piadinha, me refiro aos grandes T'S como a letra do nosso alfabeto T de Thor e Teodoro, nunca sentiria t***o por um " quase" m****o da família, se bem que por Thor talvez eu sentisse um pouco. Qual é? Quem nunca? Que atire a primeira pedra. Uma musica bem antiga vem a tona em uma memória, escutei na infância e ficou no sub consciente, "sou casado mais não sou cego" pode vim a calhar nessa situação, estou só olhando, homens fazem isso todo o tempo.
– Querida, Mariah teve um problema com motorista, preciso... – Teodoro inicia, minha cara de desaprovação denúncia a tristeza súbita, são poucas as oportunidades de comer doce, então que julguem infantil, mas poxa vida, não queria ir embora na hora da sobremesa. Ele ri, Thor analisa nossa conversa visual – prometo que peço pra Talita fazer uma torta holandesa pra você. Lógico se Mariah e Luiza deixarem... – Alguns anos de convivência, e pronto, meu sogro sabe que sou uma formiga, entretanto não a rainha do formigueiro.
– Com todo respeito à sua cozinheira Austin, acho que nada se compara ao fundi de maçãs e caramelo que estamos prestes a comer - Thor tenta persuadi-lo, persuade a mim – posso levar sua pupila em casa, após a sobremesa. – Travo, Teodoro me encara. "Diga que não dá, diga que temos planos." Não me deixe sozinha com esse deus mitológico, suplico silenciosamente. Com apenas um exame rápido e falho acaba concluindo:
– Tudo bem pra você? –Logicamente não!
Imagina como o d***o loiro do seu filho ficaria se soubesse? Agora já não é mais um almoço de trabalho sem sua ilustre presença, sogro, por favor, o senhor é tão dono de si, invente uma resposta negativa que tirasse sua nora desse momento constrangedor.
Por um momento chego a pensar que você queira despertar o interesse desse grande bilionário por mim – pesado demais até como uma suposição – sou prometida ao seu filho há sete anos. Lógico, o afeto por Rafael não somaria jamais nas suas decisões, tendo em vista que simplesmente não existe.
Queria ter qualquer desculpa pronta concreta, mas o relógio está jogando noutro time, segundos se passaram os dois fitam a mim, aguardando apenas tal resposta, penso no lado bom, doce, sobremesa. Sei bem o quanto é raro no meu vocabulário, uma tristeza súbita me atinge. Doce, Rafael me presenteou com esse apelido. Doce. É inevitável sorrir somente por lembrar-se do carinho com que pronúncia essas quatros letras. Convenço-me. Negócios cativar um cliente... Afinal Thor é quase como uma cliente de saia, mentir pra si é a mentira menos realista que se pode inventar, acontece nos momentos de crise com frequência.
_Sem problemas senhor Austin. – m***a. Vai dar m***a. Se for surpresa, orgulho, decepção, não sei, decifrar sua feição tem sido péssimo, nos últimos dias.
_Estará em boa companhia – levanta, aperta à mão de Telles, um gesto positivo com a cabeça se despede de mim, anda em direção à porta, conto seus passos, dezessete pra ser exata, se eu correr ainda dá tempo de alcança-lo. Ordeno a minha mente fértil a trabalhar, arrume uma desculpa cabecinha, preciso de apenas uma desculpa pra não ficar sozinha, com esse t***o (como expliquei acima). DIARREIA. d***a isso seria muito nojento, quem gostaria de fechar negócios com uma pessoa cheia de fezes? Fezes é uma coisa engraçada, todo ser humano no planeta faz, praticamente todos os dias e geralmente pessoas comentam as coisas em comum, mas fezes é um assunto proibido em todas as áreas de relações humanas.
Mão na minha mão, choque de realidade. Abro os olhos da mente, já que os da vida real estão fixos em algum ponto não faço a mínima ideia onde. Minha mão direita está sobre a mesa ao lado do talher, aquela mão grande está tocando-me, como uma forma de reter minha atenção, isso é totalmente profissional, sem neura Layla. Observo seu rosto, um tanto examinador, viajei no tempo, como um segredo peço: Tempo, passe, rápido, por favor.
– Daria um milhão pra saber onde sua mente está nesse momento. – Fez a proposta pra Gianini errado meu amigo, minha mãe me daria por algumas noites por menos que isso.
Não vou falar diarreia, não vou falar diarreia, não vou falar diarreia. Desinteira intestinal?
– Pés de maçãs – puxo minha mão para o guardanapo mais próximo e grande aliado, limpo o canto da boca que já estava limpo, pouso-a mãozinha terrivelmente tocada em meu colo, alinho a coluna o mais elegante possível. Tudo isso pra disfarçar o incomodo de ter sua mão sobre a minha por segundos incontáveis.
– Alguma experiência com maçãs, ou ansiosa pra sobremesa? – Alinhou-se em sua coluna. Seu tom mudou para formal.
Sorri, ao lembrar. Orgulho-me um pouco de mim mesma na infância. As memórias vão saindo em forma de palavras...
– Eu tinha 5 anos, a professora nos deu uma maçã para pintar, dela saia aquelas minhoquinhas bonitinhas, que não retratam a realidade, todos os coleguinhas fascinados com o desenho, colocar papel crepom vermelho, cola e crepom juntos eram sinônimo de festa, com isso comecei a ficar curiosa, por que a maçã que eu comia em casa não era vermelha, eram verdes, de onde elas vinham? – Olhei pra ele, encontrei o enleado. – Ah meu Deus, acredito que o senhor não queira ouvir. – O sangue sobe pras bochechas, corando-me.
– Duas coisas, não me chame de senhor, por favor. – Um sorriso gentil. – Prossiga, estou entusiasmado pra saber o final dessa história.
– Então comecei a ler alguns livros, até a bíblia, queria entender o segredo de um pé de maçã. Aprendi como funcionava, e como cultivar, queria muito, minha mãe achava bobo, nunca comprava as sementes que eu pedia, passei a retirar as sementes das maçãs que comia, estudei formas de fazer com que frutificassem. Era uma cientista de cinco anos, levei praticamente o ano todo pra conseguir germinar uma maçã. Aos seis eu vi germinar a macieira mais linda que alguém poderia ter, por que foi como se tivesse dado certo todo meu esforço, e eu amava bons resultados. – Os sorrisos me incentivam a continuar contando a experiência. – Ela foi crescendo, crescendo, dando folhas, frutos. Minha mãe um pouco protetora, vivia dizendo: Sai de perto dessa macieira Layla. Nunca dei ouvidos. Sabe aqueles frutos difíceis de alcançar Telles?
– Sim... – Assisto-a entonação da sua voz trêmula, olhos semi lacrimejados demonstram que realmente entende, um afeto cru e morno por Thor cresceu nesse instante em meu peito, pouca coisa tinha ouvido falar dele até então, ainda assim consigo enxergar além do CEO, aqui bem na minha frente, vejo apenas um homem comum, com cicatrizes escondidas entre um rosto bonito e um posto importante na sociedade, posso ponderar que sua dor interna, iguale-se a minha.
– Então, eu já tinha 9 anos, aquela macieira estava de um tamanho médio, galhos finos, várias frutas espalhadas de fácil acesso, bem no finalzinho dela apareceu uma maçã vermelhinha. Tive certeza que iria alcançar, a primeira tentativa foi com um cabo de vassoura, adivinha?
– Conseguiu? – sua empolgação estimula a narração da história sem reservas.
–Não – risadas – me machuquei, coisa pouca, como nunca daria o braço a torcer, continuei com as vãs tentativas. Horas depois vi que eram falhas, tentei outro método.
–Qual?
– Promete não rir? – O sorriso bonito, é substituído por uma carranca, sério. Com isso, seu gesto totalmente inesperado, faz o riso ficar preso na garganta, formando minhas bochechas dois balões próximo perto de explodirem.
– De dedinho? – Solto uma gargalhada alta, o resto do restaurante não faz diferença, subitamente estamos em um mundo particular. – Qual é Layla – expressa sua curta e falsa decepção, fazendo com que, enrosque o meu dedo no seu, trocamos olhares cúmplices – pronto está prometido. Agora prossiga. – Recomponho-me, com um pouco de dificuldade.
– Então sentei emburrada, fiquei fitando a maldita maçã, tentei uma tese. Não ri é sério. – Lembro-o – telecine sia – atropelo as sílabas numa confusão de trava língua, impossível de entender.
– O que? – arqueia uma sobrancelha. Acabamos com outro ataque de risadas altas.
– Tentei – comentar entre um ataque de riso é uma missão difícil... – Telecine sia.
– Mentira? – Repentinamente fica sério, e a vergonha me transforma em um tomate falante.
– Qual é uma menina de nove anos acredita em super homem, então tentei mover com o poder da mente a maçã mais não caía... – Sua risada foi alta.
Minha infância não foi boa, mas pequenas partes delas oferecem-me um sabor doce. Como uma pessoa tão grande poderia ser tão leve. Faz algum tempo em que essa alegria de poder ser eu mesma, não era vivenciada...
– E ai você desistiu? – Arqueei minha sobrancelha.
– Me diz você?
– Logicamente não, teimosia é um defeito perceptível em você!
– Acertou – teimosia realmente era um defeito, não importa a casca que as pessoas observam, ou o livro que elas querem ler em você, jamais existirá perfeição num ser humano. Pelo menos em mim é um não obstante.
– Qual foi sua ideia de gênio dessa vez? – Anseia minha resposta, sem pressa alguma.
– Então mesmo sendo fino o pé, escalei.
– Foi grande a queda? – Estendo meu pulso pra que ele possa contemplar, na parte de trás geralmente escondida por acessórios, uma pequena cicatriz, um dia já foi rosada, mais hoje está quase do mesmo tom da minha pele, passando seu polegar, em cada filete de ponto, Thor a conta. – Seis pontos. Resultado?
– Fratura exposta, mamãe louca. Gritaria, ambulância.
– Foi uma aventura e tanto não é mesmo?
– A melhor de todas. E a pior também, seria frustrante, se não tivesse feito! Sabe o que é legal, mesmo no hospital, após a cirurgia e os gritos da minha mãe, todos os sermões.
– O que?
– Eu comi, eu simplesmente, comi a melhor maçã da minha vida. Você entende? Como eu poderia abrir mão, nunca tive medo das coisas difíceis, elas têm um gosto tão intrigante, me fazem querer viver, dão um sentido a tudo, por que se for muito fácil, você não vai ter do que se gabar depois sabe? Sou uma pessoa que gosta muito de bons resultados Thor, não são fáceis, mas eu não desisto, nunca...
– Eu estou começando a entender Layla, e é fascinante...
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– Obrigada pelo almoço Telles, estava perfeito. – Estaciona sua Ranger Rover evoque, assim que chegamos ao endereço indicado pelo seu GPS.
– Que isso, acredito que precisamos repetir a dose. Para variar de vez em quando e te ver rir constrangedoramente num restaurante lotado. – Faço-me de ofendida.
– Foi bem eu que praticamente gritei exibindo minha risada, pra o que? Oitenta? Cem pessoas?
Estendo minha mão, mas Thor, não aceita. Aproxima-se deposita um beijo casto em minha bochecha - amigos? – Estende a mão, aceito, apertamos ambos com sorriso do tamanho de uma banana maçã estampado no rosto.
– Amigos. – Pode funcionar, de alguma forma terá que dar certo, em um dia Telles demonstrou ser o que em 22 anos de vida, encontrei uma ou duas vezes.
Nostálgico, confessa:
– Nem lembro qual foi à última vez, ri tanto Layla.
– Realmente, foi inesperado, nunca imaginei que um CEO risse tão alto. – Estava ficando costumeiros nossos ataques de risos. – Foi muito bom, esqueci-me de agradecer ao chefe pela sobremesa.
– Vamos ter outras oportunidades. – Ofereço um sorriso antes de sair do carro. – Obrigada senhor Telles.
– Disponha senhorita Gianini.
Podia ser natural, poderia só existir espontaneidade, mergulhar em nível mais profundo, se afogar.
Agora, planeje toda sua vida, desenhe detalhes e viva exatamente aquilo, dia após dia. Falta de instantaneidade, pode te levar para um hospício, talvez um caixão, a loucura espera só uma chance de vir á tona, se deixara vir te agarra, leva ao fundo, te afoga, e te torna parte dela, então será seu fim, ou seu começo, tudo depende de quanta insanidade, você pode aguentar.
Se por um instante, pudesse prever o que me aguardava em casa, teria gastado algumas horas a mais no restaurante. Arrependimento.
[♥♠]