1 - Italiano gostoso
Rio de Janeiro, 2017
Michelle Rangel
Entrei no bar com um plano muito bem definido: pegar um lanche com nome de banda de rock e algumas garrafas de cerveja para me deliciar no meu quarto de hotel. Olhei meu reflexo no espelho no fundo do bar, satisfeita com a minha própria imagem. O lugar também era bonito e aconchegante do lado de dentro, tinha cara de noite, mesmo que lá fora o sol ainda não tivesse se escondido de vez. O relógio marcava sete da noite.
Bandeirinhas de diversos países forravam o teto, e quadros com uma aura retrô enchiam as paredes, misturando-se com camisetas de time, nacionais, e mais quadros de carros antigos, mulheres pin-up e exaltações à cerveja e outros drinks. Um quadro específico me prendeu a atenção: "Cerveja, ajudando homens a conseguirem sexo". Se serve aos homens, certamente também funciona para as mulheres.
— O que a senhorita vai querer? Posso lhe arrumar uma mesa?
— Uma Budweiser e um Metallica. Ficarei aqui no balcão mesmo. — Olho de soslaio em volta. O bar não está cheio, certamente eu poderia achar uma mesa sozinha.
Fiz uma careta para mim mesma. Que amargurada, Srta. Rangel, não é dia para isso. Coloque um sorriso no rosto e faça o que precisa ser feito.
— Ciao, bella ragazza!
Italiano, claro. O estilo rebuscado o entregava: pele muito bronzeada, aproximadamente 1,85 m de altura, e eu lamentei não estar usando salto alto. Cabelos castanhos cobriam a nuca, com algumas mechas caindo pelo rosto. Era forte, dava para ver os músculos espremidos dentro da camisa social branca, impecável, com três botões abertos, revelando um peitoral coberto por uma camada fina de pelos. Másculo. As mangas foram dobradas com exímio um pouco abaixo do cotovelo. Mãos grandes. Uma deslizava pelo próprio cabelo, um convite silencioso para que as minhas próprias mãos explorassem aquela cabeleira.
— Olá. — Respondi, constrangida, seguindo com a minha inspeção. A calça social azul-bebê abraçava suas coxas de um jeito que eu mesma gostaria de fazer, e o sapato preto lustrado trazia refinamento e tradicionalismo à composição geral.
— Sua cerveja, senhorita... — o garçom interveio.
— Heineken para mim! — O italiano gostoso pediu, sendo atendido de pronto.
Ele me mediu de cima a baixo, mordendo o lábio inferior, estendeu a garrafa em minha direção e fizemos um brinde.
— Saúde! A propósito, eu sou Michelle Rangel.
— Nome bonito para uma mulher bonita. Aliás, acho que te conheço de algum lugar...
— Todo homem acha que conhece uma mulher bonita!
— Me pegou. Cigarro?
Ele me abriu espaço para que eu seguisse para a área externa, com simpáticas mesas bistrô. O lugar era muito agradável, a noite estava quente, e eu senti uma vontade desesperada de prender o meu longo cabelo. Nunca imaginei que iria me orgulhar tanto das minhas madeixas compridas, apesar das ondulações.
Vesti-me despretensiosamente: uma blusinha branca de alça com detalhes delicados, bastante romântica ao meu ver, uma calça jeans azul-claro e um tênis básico branco. Apesar disso, o meu 1,65 m de altura, emoldurado por um cabelo castanho-claro excessivamente cuidado, que ultrapassava a linha da cintura, e 60 quilos distribuídos de forma delicada e firme — s***s médios, b***a ressaltada, e olhos verdes destacados por um caprichado delineado — me convenciam de que eu jamais passaria despercebida por onde fosse.
— A propósito, me chamo Alecsandro Ferrari. Nasci na Itália, mas o Brasil é o meu lar.
Meu lar... Penso sobre o que seria o meu lar. O meu país de origem? Qualquer pedaço de terra dentro dele seria o meu lar? A casa amaldiçoada dos meus pais? Os lugares em que vivi por longos cinco anos? Um orfanato?
— Eu gostaria de conhecer a Itália — falei enquanto dava batidinhas no cigarro para descartar as cinzas.
— A Itália é, sem dúvida, um lugar para amar... Mas, o que faz uma garota linda, sozinha, em um bar, em uma noite de sexta-feira?
— Vim pela comida. Me disseram que o Metallica deles é insano!
Ele ergueu uma sobrancelha, parecendo confuso.
— Hein?
— Os lanches têm nome de banda de rock — expliquei.
— Faz sentido. Rock é bom, e hambúrguer também. Eu tenho uma banda.
— É a sua banda que vai tocar aqui hoje?
— Sim. — Ele sorriu, exibindo todos os seus dentes brancos perfeitos.
— Estou impressionada!
— Sua vez, me impressione... — Ele se aproximou, encurtando a distância entre nós, e a proximidade dele fez o meu corpo aquecer. Uma mecha de cabelo caiu no seu rosto quadrado, os olhos azuis profundos, o cheiro amadeirado com menta me envolveu e me fez querer senti-lo com muita i********e.
Há uma eletricidade palpável entre nós, e tê-lo tão perto é excitante, mas não desconcertante. É mais uma sensação de reconhecimento, como se eu já o conhecesse de outras vidas. Talvez eu não esteja tão errada. Minha racionalidade foi sobreposta pelas minhas emoções, e eu lutei para controlar a tempestade voraz que me inundava: luxúria, vingança, desejo. Busquei dentro de mim mesma o meu bote salva-vidas. Fechei os olhos, erguendo levemente o queixo, o nariz pequeno arrebitado. Inspirei o seu aroma entorpecedor, mas a realidade bateu na minha cara, trazendo-me de volta à superfície.
— Professora... Eu estou viajando a trabalho, vim dar uma palestra sobre comunicação. Estou hospedada no Colina Park, a dois quarteirões daqui.
Ele deslizou o polegar pelo meu rosto, como um verdadeiro predador, mas ele não imaginava o que uma professora era capaz de fazer com a língua. Passei a língua entre os lábios, umedecendo-os.
— Me surpreendeu! — Ele ficou ereto e tirou mais um cigarro do maço.
— Alec! — Uma moça muito alta e muito magra o chamou. — Estão pedindo uma foto com a banda... toda.
Ele fez uma careta, mas voltou para o interior do bar no momento em que o garçom apareceu com o meu lanche.
— Coloque o lanche para viagem, por favor. — O rapaz saiu rapidamente, e eu senti uma vontade imensa de vomitar, o coração acelerando.
Agora não, agora não, agora não... Murmurei mentalmente um recado para o meu cérebro traiçoeiro.
Sigo lentamente para o banheiro, minha cabeça gira, afundada em uma maré constante. A respiração começa a ficar rasa, enquanto o nó dos meus pensamentos aperta em torno do meu pescoço. Uma dor lancinante no peito, e eu sinto o coração implorando para desistir.
Tateio a bolsa em busca do remédio no mesmo instante em que alcanço a maçaneta do banheiro. Fecho a porta atrás de mim com os dedos trêmulos, o medo dominando o meu corpo e a minha mente. Engulo um comprimido e abro a torneira, bebendo um pouco de água para que ele passe pela minha garganta apertada.
Inspiro o mais fundo que consigo. Lágrimas teimosas insistem em brotar, uma após a outra. Me olho no espelho oval acima da pequena pia.
— A dor e a morte são solitárias... — murmuro.
O cheiro amadeirado com menta se foi. A beleza daquele corpo atlético e daquele sorriso despreocupado se foi. A profundidade daqueles olhos azuis se tornou superficial, assim como toda a sensualidade e energia que percorreram as minhas veias minutos antes. Tudo isso se foi, deixando um buraco vazio, solitário, triste, de dor infinita...
— Torneira, pia, vaso sanitário, sabonete, quadro, espelho, papel toalha... — cito os itens que vejo ao meu redor, me forçando a ficar ali, presente, no agora, no hoje, coexistindo no externo.
Aquela maldita onda passa, e eu fico na incerteza de quando virá outra: daqui quinze segundos, minutos, horas, dias... Preciso sair daqui.
Saio do banheiro com um novo plano: pagar a conta com a maior nota que tiver na carteira, recusar o troco, atravessar a rua e caminhar a passos largos até o hotel, subir de escada até o terceiro andar, abrir a porta, fechar a porta. Estarei segura. Fim.
Sinto o olhar de Alecsandro em mim enquanto caminho pelo bar. Sigo para o caixa, determinada. Há um homem na minha frente pagando a conta. Para adiantar, pego a minha carteira. Minha maior nota é de dois reais. Os dedos gelados ainda estão levemente trêmulos. Pego o cartão de crédito, preciso lembrar da senha. Só tenho que ficar calma. Eu a anotei no celular, mas não lembro exatamente onde. Respira, Srta. Rangel...
— Você está bem? — a moça do caixa me pergunta, avaliando-me.
— Crédito. — Estendo o cartão.
Coloco a senha. Transação aprovada. Ela me entrega a sacolinha com o lanche.
Saio do bar sem olhar para trás. Sei que os olhos de Alecsandro ainda estão sobre mim, mas não posso me dar ao luxo de hesitar. Cada passo em direção ao hotel é uma luta contra o turbilhão de pensamentos que me consome. O ar parece pesado, cada inspiração forçada. Eu sei que estou à beira de outra crise, mas não ali, não agora. Eu só preciso chegar ao hotel, onde tudo ficará sob controle... Pelo menos por um tempo.
Atravesso a rua com passos rápidos, tentando manter a mente focada no plano: subir de escada, abrir a porta, trancar a porta, me jogar na cama e esquecer do mundo por algumas horas. O Colina Park aparece à minha frente como uma miragem de alívio, e eu quase consigo respirar com um pouco mais de facilidade.
Entro no lobby e atravesso o espaço vazio com pressa, ignorando o recepcionista que lança um olhar curioso em minha direção. As escadas estão logo à frente, e eu as subo de dois em dois degraus, como se o peso de tudo o que aconteceu estivesse tentando me puxar para trás. Quando finalmente chego ao terceiro andar, estou sem fôlego, não apenas pela subida, mas pela corrida interna que venho travando contra mim mesma.
Abro a porta do quarto e me jogo na cama, ainda com a sacolinha do lanche na mão. O papel amassado faz um ruído suave quando me deixo afundar no colchão.