Eu devo agradecer a Isa por me tirar da cama e me trazer para cá. O lugar é lindo, cheira a luxo, as cores mesmo escuras passam uma sensação de intensidade e força. Nunca estive em um lugar assim, muito menos me senti assim, tão livre.
Quando a música acaba, eu ainda estou parada, encarando o balcão escuro acima de mim. Eu não consigo ver os rostos de ninguém aqui, a boate está escura ao redor do holofote no palco. Tudo que eu vejo é um homem alto, uma silhueta enorme, ombros e braços largos, e sinto sua presença como se fosse um imã, me chamando.
Fico uns segundos encarando-o, tentando ver mais, sentindo meu coração pulsando forte em meu pei.to. Eu relembro que estou viva.
— Ficou maluca, Amie? — Até que Isadora, embaixo do palco, praticamente me puxa para baixo. Ela me esperou terminar de performar e agarra o meu braço assim que desço. — E você disse que não chamaríamos a atenção...
— Acha que eu chamei a atenção? — Dou de ombros, nós duas olhando ao redor.
— Não, eu acho que não. — Responde, claramente sendo irônica. Todos os olhares estão em nossa direção, os homens parecem querer me engolir como lobos, e as mulheres não parecem muito felizes. Nós duas gargalhamos. — Quer saber? Fo.da-se. Viemos nos divertir e é isso que vamos fazer. Essa noite é sua, pode fazer o que quiser.
— Eu mandei bem, não mandei? — Me aproximo do ouvido dela, sussurrando como se alguém pudesse nos ouvir.
— Você foi incrível! — Sorrio ao ouvir. — Agora vamos pegar mais uma bebida.
Aceito o convite e vamos de volta andando em direção ao bar, mas antes que pudéssemos chegar lá, um homem nos intercepta. Ele é alto, magro e com uma aparência séria, parando bem no nosso caminho. Eu o encaro, confusa.
— Olá, senhoritas. — Ele nos cumprimenta educadamente, mas sempre mantendo a postura perfeita.
— Olá. — É Isa que responde.
— Meu nome é Leo, eu estou aqui para fazer um convite para a moça de vermelho. Qual o seu nome, senhorita? — Para mim? Franzo o cenho.
— Amélie, Amélie Pascoli. — Respondo desconfiada. — Convite?
— Sim, Srta. Pascoli . O que acha de conhecer a nossa área vip?
— Por que? — Estranho, mesmo sentindo a euforia de Isadora do meu lado. É estranho um desconhecido chegando assim, nos convidando para uma área privada e escura. No jornal há várias que ficaram de exemplo.
— Há alguém que quer conhece-la. — Ele fala como se fosse algo simples, como se eu tivesse acabado de perguntar algo sobre uma bebida que não conheço.
Olho para cima, em direção ao balcão novamente. Essa frase me faz lembrar do homem de pé, o homem enorme que me encarava sem nem se mover, o homem que fez meu coração tremer e minhas pernas pararem de funcionar alguns segundos. Será ele que quer me conhecer?
Engulo seco.
— Amélie... — Isa fala como um aviso, ou melhor, como um pedido. Eu a encaro alguns segundos enquanto penso.
Revejo a imagem dele em minha cabeça.
Lembro de tudo que passei e lembro do porque estou aqui, fazer o que eu quero pela primeira vez na minha vida.
— Se minha amiga puder me acompanhar, eu irei. — Peço. Leo fica em silêncio alguns segundos, pensando.
— Tudo bem, podem me acompanhar. — Ele simplesmente dá as costas e começa a mostrar o caminho.
Isadora e eu nos entreolhamos, ela sorri largo e comemora com uns pulinhos empolgados.
Sorrio, começando a caminhar logo atrás de Leo. Nós vamos mais devagar, a cada passo eu vou ficando mais nervosa. Não sei quem esse homem é, o que quer, e sim, eu sei que foi ele quem mandou mensagem chamar. Só não sei o porquê ele me quer na tal área vip.
Tudo é novo para mim, desconhecido.
Sinto minhas veias pulsando, os batimentos espalhados por cada terminação nervosa. Que sensação é essa?
Seguro o corrimão de aço, gelado, deslizando os dedos enquanto subo degrau por degrau. A escadaria é toda coberta de camurça, uma luz clareando as pontas dos degraus largos para identificar onde começam. Começo a me arrepender a cada segundo que passa, a cada degrau. Minha vontade é sair correndo daqui.
— Venha, o Sr. Navarro a espera. — Leo estende a mão do topo da escada.
— Você disse Navarro? — Me choco.
O sobrenome Navarro é conhecido em cada canto desse país, o dono da Aeterna, a empresa de vinhos que precisa de lista de espera para conseguir uma única garrafa e com a vinícola mais antiga da Itália. A direção da empresa e cuidados com a vinícola passa de pai para filho há décadas. Mas quando Dominic Navarro assumiu foi quando ele conseguiu chegar num nível ainda maior, ele uniu tradição com a modernidade atual.
Eu já vi fotos dele, nunca pessoalmente, e o homem é o exemplo perfeito da beleza italiana.
Por que ele iria querer me conhecer?
Leo não responde nada, apenas sorri e mantém a mão esticada como um reforço do convite. Paralisada e sem mais tanta certeza se devo subir os últimos degraus, Isa ainda atrás de mim, esperando, eu o vejo no topo da escadaria.
Dominic Navarro.
— Obrigado, Leo. — A voz é trazida para mim através das ondas sonoras, as palavras parecendo cintilar.
Po.rra, a voz dele parece ter um pacto com o vento, um pacto de leva-la direto até estruturas do lugar e fazê-lo tremer.
Leo sorri e acena para ele, entendendo que seu serviço terminou. Ele desce pelos degraus largos, passando ao meu lado e também me cumprimentando apenas com a cabeça, eu não tenho condições de retribuir.
Tudo acontece em segundos, mas parece que o mundo ao nosso redor e a música parou. Tudo fica silencioso enquanto nós dois nos analisamos como se fôssemos competir em um duelo.
A primeira coisa que notei nele, desde quando eu nem conseguia enxerga-lo direito foi os ombros – impossivelmente largos e firmes mesmo através do terno. E depois, agora mais de perto, a cor da sua pele que agora está refletindo com a pouca luz, é dourada como um bom verão italiano. Sua presença pode ser considerada perturbadora de tão grandiosa.
Vendo-o parado em minha frente, não é como se ele entrasse em um lugar como os meros mortais, é como se o reivindicasse.
— Eu estava a sua espera, estou encantado por ter aceitado o meu convite. Seja bem vinda. — E ele me estende a mão, o braço forte e definido ficando mais em evidência quando ele o estica.
É a primeira vez que eu me sinto intimidada, mas também a primeira vez que vejo alguém tão bonito. Mesmo assim, eu engulo seco e me forço a esconder o que ele está causando em mim. Subo os últimos três degraus e seguro em sua mão, sentindo o calor de seu toque. Na hora que nossas mãos se tocam algo acontece em meu corpo, é como eletricidade.
— Eu que estou encantada com o convite, obrigada, Sr. Navarro. — Forço a voz, que sai mais baixa do que eu pretendia.
O corpo grande de aparentemente dois metros de altura parece preencher cada centímetro ao meu redor, roubando o ar. Uma muralha de músculos que me fazem sentir pela primeira vez, pequena.
Mas agora mais de perto, são os olhos dele que me prendem. Azuis, com um brilho quente e profundos como o Mediterrâneo – e igualmente perigosos – emoldurados pelos fios dos cabelos negros que insistem em cair pela sua testa e suavizando a seriedade do seu corte social.
Os olhos dele descem até nossas mãos, ainda grudadas, antes de eu puxar a minha de volta.
— Pelo jeito já sabe quem eu sou. — E quem nesse país não sabe? — E qual o seu nome?
— Amélie. Amélie Pascoli. — Devolvo.
— É um prazer, Amélie. — Dominic sorri largo, causando um rebuliço estranho no meu estômago. — E essa é...? — Ele percebe Isadora um pouco mais de canto.
— Minha irmã, Isadora. — Desde os sete anos fomos criadas como irmãs, então é assim que costumo apresenta-la. — E também a minha incentivadora para estar aqui hoje.
— Então eu devo agradecê-la. — Ele sorri, mostrando que pode fazer o impossível que é ficar ainda mais bonito com essa fileira de dentes perfeitos e brilhantes. Ele estende sua mão para ela e eles apertam as mãos. — Você é bem vinda também.
— Obrigada, é um prazer estar aqui. É mais restrito do que eu pensei. — Ela observa que além de nós três, só há mais uma pessoa, um outro homem, que nos assiste afastado.
— Sim, quando eu venho, não permito reservas ou acessos a área vip além de mim e meu amigo, Henri. — Explica. — Venham.
Dominic vai na frente e nós os seguimos até um dos três sofás redondos de couro n***o daqui, hoje apenas esse ocupado como ele deixou claro. No meio há uma mesa com copos, um balde de gelo e uma garrafa de whisky pela metade.
— Olá, meninas, que bom que vieram. — O tal Henri nos recebe. — Eu precisava de uma companhia mais agradável para embelezar a noite, já estava enlouquecendo aqui.
Isadora sorri.
— Querem algo para beber? — Dominic oferece, gentilmente. — Temos whisky mas pode pedir o que quiser, eles servirão aqui.
— Posso acompanha-lo no whisky. — Aceito.
— Eu também. — Isa apoia.
Dominic serve dois copos de whisky com gelo, entrega um a Isadora primeiro e vem até mim, me entregando o segundo já com o dele na outra mão.
— Obrigada. — Forço um sorriso, tentando parecer calma, mas sei que estou falhando.
Seguro o copo com as duas mãos, meus dedos suando contra o cristal. Ele cerra o maxilar e segura uma das minhas mãos, afastando-a do meu copo, e me leva para longe de Isadora e Henri. — O que está fazendo?
— Sente. — Ordena quando chegamos a outros dos três sofás, esse do lado oposto de onde estão nossos amigos.
Eu penso em contesta-lo, pedir que responda minha pergunta primeiro. Penso em dizer que não vou obedece-lo. Eu nem o conheço, quem ele pensa que é para mandar em mim? Ser Dominic Navarro não o dá o direito. Mas as minhas pernas fraquejam quando ouço o tom de voz firme, e eu não sei o que acontece mas meu corpo parece ser comandado por ele.
Sento.