CAPÍTULO 04 — AMÉLIE PASCOLI

1241 Words
Disse a Isa que volto logo, que Dominic se ofereceu para me apresentar a boate. E então, eu o sigo escadaria abaixo. Ele vai na frente, as pessoas abrindo caminho quando ele passa, sua mão segurando a minha com uma firmeza que me lembra de não me afastar dele. Novamente passamos pela pista de dança, agora dando a volta no palco e indo em direção a uma outra escadaria. Os degraus também revertidos de camurça, largos mas não tão compridos, a escada circular com um corrimão que eu não preciso utilizar porque tenho algo bem mais seguro para me apoiar – Dominic. Eu não tenho certeza se fiz a escolha certa, se devo continuar com isso de ir para a cama com um homem que eu nem conheço. Mas sempre me lembro de Xavier, do tempo perdido, no prazer que nunca conheci. Acho que é hora de ligar o fo.da-se pela primeira vez na minha vida. Fo.de-se o Xavier. Fo.da-se os princípios alheios. Fo.da-se tudo. Dominic abre a porta vermelha, e entra primeiro, ligando a luz e estendendo a mão para mim. Eu o encaro, meus lábios meio trêmulos, meus pés demorando de me responder. Engulo seco, soltando o ar devagar. É a primeira vez que estou sozinha com outro homem. — Eu não mordo, Amélie. — Brinca, um sorrisinho travesso nos lábios. — Não muito. Aceno para ele, tentando esconder meu nervosismo e entro. O quarto tem paredes em um vermelho escuro, como se vinho tivesse sido derramado nas paredes – e eu julgo ser proposital. A cama redonda com tecidos braços e visivelmente macios chama minha atenção, passo um tempo parada encarando-a, pensando novamente se é uma boa ideia. O cheiro do quarto é de um lugar quase histórico, mas não uma história antiga, como se transmitisse promessas da história que escreveremos essa noite. E isso me deixa ainda mais confusa. Que sensação é essa? Ouço um barulho suave vindo de cima e finalmente olho para cima, o teto vai abrindo sobre nossas cabeças como se fosse um teto solar de carro. Meus olhos crescem a medida que as estrelas se tornam visíveis para nós. Separo involuntariamente meus lábios em um perfeito “O”. — Está tentando me impressionar? — Digo eu, já impressionada. — Não, Amélie, se eu quisesse impressionar você, eu não precisaria estar usando roupas para isso. — Sinto-o atrás de mim, parado. Sua presença é quase que divina. A voz dele me faz sentir fraca. — Mas espero que tenha gostado do quarto. — É maravilhoso, admito. — Eu nunca vi algo assim. Tudo pode parecer chamativo, talvez eu desse risada se me contassem sobre paredes vermelhas e cama redonda, ainda um teto de vidro, mas tudo parece detalhadamente planejado e encaixado daqui. Tudo simboliza poder e riqueza. — Você parece tensa, venha comigo. — Ele segura novamente minha mão, entrelaçando os dedos nos meus e me levando até o lado oposto da cama, onde há uma pequena mesa também redonda. Dominic me guia até uma das cadeiras e se afasta. — Gosta de vinho? — Eu... Acho que sim. — Acha? — Sorri. Dominic vai até um balcão de madeira, e de dentro dele, tira uma garrafa de um tipo que nunca vi na vida, mas entendo perfeitamente quando vejo. A garrafa é feita de um vidro escuro, com laterais ligeiramente elevadas. O nome Aeterna está cravado em destaque no centro, em alto relevo, feita em ouro envelhecido. O brasão acima do nome é de dois leões com rabos pontiagudos, eles seguram um escudo também com um rosto de leão e ramos de videira, e uma coroa acima de suas cabeças, deixando claro a família que é praticamente a nossa realeza. Ao redor do gargalo está um selo vermelho colado a mão, o selo da família Navarro, preso em um fio de couro trançado. Olhando para ela é como se eu nunca tivesse visto uma garrafa de vinho na vida, e como essa, realmente. — Quer experimentar? — Continua. — Sim, com certeza. — Quando mais eu terei essa oportunidade? Dominic pega duas taças para nós, e depois, abre o vinho. Assistir Dominic Navarro abrindo um vinho diante dos meus olhos é como assistir Picasso criando uma de suas obras. Ele tira o lacre e depois a rolha de madeira, antes de servir o vinho nas taças. — Especialmente para você. — Me entrega uma das taças de cristal. — Escolhi essa garrafa porque tem notas de trufas com frutas vermelhas, além de que essa uva tem um sabor mais adocicado. — Ele caminha até mim, dando a volta e parando atrás. A mão dele cobre a minha e me ajuda a balançar o vinho corretamente dentro da taça. — Feche os olhos, cheire, e me diga o que sente. — Aproxima a taça do meu nariz logo após me ajudar a fazer o buquê. — Sinto... Flores... Cerejeira. — De olhos fechados eu aspiro o aroma complexo, as duas mãos segurando a taça e ele com uma ao redor das minhas. Posso sentir sua respiração contra meu pescoço, seu corpo. O álcool está presente, a fermentação. — Sinto... Morangos. — Bom. — A voz rouca no meu ouvido me deixa mais bêbada que o cheiro do álcool. Ele conduz a taça até a minha boca. — Agora prove. Ainda de olhos fechados, eu obedeço, provando o que não parece ser só um vinho, parece ser o suco dos deuses. É uma mistura de tudo que ele me prometeu, o dulçor, as frutas , de requinte, de história, é uma explosão de sabores e sentimentos que desce amaciando minha língua e garganta a ponto de me distrair e eu nem perceber quando ele tirou a mão das minhas e se movimentou até minha frente. Só percebo quando junto com o vinho eu sinto seus lábios nos meus. Meu coração salta no meu pe.ito. Perco as forças, soltando lentamente a taça e sentindo a mão dele segurando o cristal antes que eu soltasse totalmente. Minha boca nunca me pareceu algo que pudesse tremer, mas meu lábio inferior treme, queima, ardendo por ele. Minhas mãos encontram os ombros largos, fortes, sentindo os músculos rígidos mesmo através do tecido caro. O cheiro de perigo dele começa a fazer sentido e eu abro espaço, deixando sua lín.gua encontrar a minha. O doce do vinho se mistura com o gosto um tanto picante dele, que vai lentamente brincando com a minha língua, acariciando-a. É delicioso. Quente, apaixonado, molhado e íntimo. Suas mãos se prendem na minha cintura e me levantam sem dificuldade, me obrigando a agarra-lo com minhas pernas. Dominic mantém uma mão apenas me apoiando, rodeando meu corpo e agarra os cabelos da minha nuca, segurando com uma combinação de firmeza e jeito e puxando. Eu me sinto tão... entregue. E eu me deixo ser totalmente conduzida por ele, suas mãos puxando os fios de meu cabelo, seus dedos envolvendo minha cintura, sua língua experiente deixando a minha apenas acompanhando seus movimentos de um jeito tão sexy que eu não sabia que um beijo podia ser. — Dominic... — Gemo baixinho, buscando o ar. — Você quer isso, não quer? — Abro os olhos, encontrando os dele, quase hipnóticos. Ele espera uma confirmação minha e eu aceno com a cabeça, concordando, meio tonta. Ele sorri, o polegar deslizando até meu lábio inferior e fazendo um caminho por ele. — Diga. — Eu quero. Eu quero isso.
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