De volta a realidade

1158 Words
Ponto de Vista de Letícia Por algum motivo, senti uma pontada estranha no peito. Eu deveria estar aliviada. Era isso que queria. Sair dali antes que acordassem. Antes que me perguntassem qualquer coisa. Antes que eu tivesse de encarar aqueles olhos novamente. Mas, mesmo assim, uma parte de mim queria ficar. Queria saber seus nomes. Queria ouvir suas vozes sem o efeito da bebida. Queria descobrir se aquela conexão que eu havia sentido tinha sido real ou apenas uma consequência da dor e da impulsividade. Balancei a cabeça. Não. Eu não podia continuar ali. Abri a porta e saí quase correndo. O corredor estava mais silencioso do que antes. Algumas pessoas ainda circulavam pelo salão, mas ninguém parecia prestar atenção em mim. Eu mantive a cabeça baixa. A máscara de gatinha estava ainda estava no meu rosto. Passei a mão nela. Aquela pequena máscara havia transformado minha vida em uma única noite. Ou talvez tivesse apenas revelado algo que eu vinha tentando esconder. Segui pelo corredor até encontrar Helena. Ela estava sentada em uma poltrona, conversando com um homem. Parecia tranquila, elegante e completamente à vontade naquele ambiente. Quando me viu, abriu um sorriso. — Gatinha! Parei diante dela. — Vamos embora. Helena percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada. Seu sorriso desapareceu. — Aconteceu alguma coisa? — Não. Minha resposta saiu rápida demais. Ela inclinou a cabeça. — Tem certeza? — Estou bem. Helena olhou para minhas roupas desalinhadas, para meus cabelos bagunçados e para a expressão no meu rosto. — Você não parece bem. Desviei o olhar. — Estou com vergonha. Ela ficou alguns segundos me observando. Depois se levantou. — Vergonha de se divertir? Não respondi. O homem que estava com ela se afastou discretamente, entendendo que aquela conversa era importante. Helena pegou a própria bolsa. — Vamos. Caminhamos para fora do lugar em silêncio. Assim que o ar frio da madrugada tocou meu rosto, respirei fundo. Eu precisava sair dali. Precisava me afastar daquela casa, daquela noite e das lembranças que pareciam grudadas na minha pele. Entramos no carro. Helena assumiu o volante, enquanto eu me sentei no banco do passageiro e fiquei olhando pela janela. As ruas estavam quase vazias. As luzes dos postes passavam pelo vidro, iluminando meu rosto por alguns segundos antes de desaparecerem. Helena ligou o carro, mas não arrancou imediatamente. — Letícia… Meu corpo ficou tenso. Eu não havia contado o meu nome para ela ainda no bar. Eu nem conseguia lembrar direito. — Não fique com vergonha — ela disse. Abaixei os olhos. — É fácil falar. — Não, não é. Ela ligou o motor. — Mas eu aprendi uma coisa há muito tempo: vergonha não pode ser maior do que a nossa vontade de viver. Fiquei em silêncio. — Aqui ninguém vai saber quem você é — continuou. — Ninguém sabe seu nome verdadeiro. Ninguém sabe onde você mora. Ninguém sabe o que aconteceu na sua vida. Ela apontou para meu rosto. — A máscara… — Exatamente. A máscara protege sua identidade. Engoli em seco. — Mas eu fiz uma coisa louca. Helena me lançou um olhar rápido. — O que você considera loucura? — Eu… — Minha voz falhou. — Eu fiz sexo com outro homem que não fosse meu marido. Helena voltou a atenção para a estrada. — Seu marido traiu você primeiro, não foi? Assenti lentamente. — Foi. — Então não entendo por que você está carregando toda essa culpa sozinha. — Não é tão simples. — Eu sei que não é. Ela fez uma pausa. — Mas você não traiu um casamento feliz. Você descobriu que estava vivendo uma mentira. Aquelas palavras me atingiram com força. Olhei para as minhas mãos. — Mesmo assim, eu nunca imaginei que faria algo assim. — E se tivesse imaginado? — Teria dito que aquela mulher era uma pessoa horrível. Helena sorriu de leve. — Talvez você precise parar de julgar tanto as outras mulheres. — Eu não julgo. Ela me encarou por um instante. — Julga, sim. Só não percebe. Fiquei quieta. O carro avançou pelas ruas. Eu tentava organizar tudo o que estava sentindo, mas era impossível. Havia vergonha, culpa, medo e, escondido no meio de tudo, uma sensação que eu não queria admitir. Eu tinha gostado. Não apenas da atenção. Não apenas de ser desejada. Eu tinha gostado de esquecer quem era. Por algumas horas, eu não fui a esposa traída. Não fui a dona de casa ignorada. Não fui a mulher que chorou no estacionamento de uma empresa. Fui apenas Letícia. Uma mulher que desejava sentir alguma coisa. — Mas eu fiz sexo com dois homens ao mesmo tempo — confessei. Helena ficou em silêncio por alguns segundos. Eu esperava que ela me julgasse. Que dissesse que eu havia passado dos limites. Que perguntasse como pude fazer aquilo. Mas ela apenas respirou fundo. — E foi consensual? Olhei para ela. — Foi. — Você se sentiu obrigada? — Não. — Se arrepende de ter feito porque não queria ou porque está com medo do que isso significa? A pergunta me deixou sem resposta. Helena continuou dirigindo. — Pense nisso. Passei a língua pelos lábios secos. — Eu não sei. — Tudo bem não saber agora. Olhei novamente pela janela. — Eles eram tão diferentes de tudo que eu conheço. — Diferentes como? — Parecia que tinha saído de um romance erótico. — Eles era perigosos. Helena arqueou uma sobrancelha. — Perigosos? — Não sei explicar. Eles tinham uma presença… forte. Como se esteve num filme de ação. Ela sorriu de maneira misteriosa. — Você que dizer no filme pornô Helena começou a rir e eu também. — Você sabe quem eles são? Helena não respondeu imediatamente. — Eu conheço muitas pessoas que frequentam aquele lugar. — Helena. — Mas aqueles homens eu não sei quem é? — Eu quero saber. Ela me lançou um olhar. — Tem certeza? Pensei nos dois homens dormindo naquela cama. Pensei no beijo. Na intensidade daquele momento. No calor que havia tomado conta de mim. Na maneira como meu coração havia disparado. — Não — respondi, quase num sussurro. Helena assentiu. — Então não se torture esta noite. Encostei a cabeça no banco. Mas, apesar de suas palavras, eu sabia que seria impossível não pensar neles. Eu não sabia seus nomes. Não sabia suas histórias. Não sabia se os encontraria novamente. Talvez fosse melhor assim. Talvez aquela noite devesse permanecer como um segredo. Um segredo escondido atrás de uma máscara de gatinha. Mas, enquanto o carro seguia pela estrada escura, uma pergunta continuava se repetindo na minha cabeça: E se aquela não tivesse sido apenas uma noite? E se aqueles dois homens mascarados ainda estivessem pensando em mim? Fechei os olhos. Meu coração apertou. Eu havia saído daquele lugar tentando fugir da vergonha. Mas começava a perceber que o verdadeiro problema não era o que tinha acontecido. Era o fato de que uma parte de mim desejava voltar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD