sozinha

878 Words
Ponto de Vista de Letícia Eu estava em casa. Sozinha. O silêncio daquele apartamento parecia maior naquela manhã. Sentada na beirada da cama, fiquei olhando para o vazio durante alguns minutos, tentando entender como a minha vida havia conseguido virar de cabeça para baixo em tão pouco tempo. Carlos não tinha voltado naquela noite. Na verdade, eu nem sabia se ele tinha percebido que eu havia saído. Talvez não. Talvez ele simplesmente não tivesse se importado. Desde o momento em que nos encontramos no escritório dele, desde o instante em que abri aquela porta e vi meu marido nos braços de outra mulher, alguma coisa havia terminado. Eu tinha saído de lá destruída. Ele, aparentemente, tinha continuado a noite como se nada tivesse acontecido. Com a amante. Enquanto eu estava ali. Sozinha. Culpada. Olhei para minhas mãos. Meu casamento tinha acabado. Eu sabia disso. Mas, de alguma maneira, a pessoa que estava carregando toda a culpa era eu. Fechei os olhos. As lembranças da noite anterior voltaram. A casa luxuosa. As máscaras. Helena. Os dois homens lindos. A bebida. Os beijos quentes como fogo. Aquela sensação de ter deixado de ser a mulher que eu sempre fui. Abri os olhos novamente. Levantei-me e caminhei até o banheiro. Parei diante do espelho. Por alguns segundos, simplesmente fiquei olhando para o meu próprio reflexo. Eu parecia diferente. Meus cabelos estavam bagunçados. Meu rosto estava cansado. Havia olheiras sob meus olhos. E meu corpo carregava marcas da noite anterior. Passei os dedos delicadamente sobre uma delas e imediatamente desviei o olhar. — Meu Deus... Eu ainda não conseguia acreditar. De onde tinha saído aquela mulher? Quem era aquela pessoa que havia tomado conta de mim durante algumas horas? Eu nunca tinha imaginado que existisse uma mulher assim dentro de mim. Uma mulher capaz de se libertar daquela maneira. Uma mulher que tinha deixado o medo de lado. Uma mulher que tinha desejado. Uma mulher que havia permitido que dois homens possuísse seu corpo ao mesmo tempo. Eu havia passado anos acreditando que conhecia a mim mesma. Mas talvez não conhecesse. Talvez eu tivesse passado tempo demais tentando ser exatamente aquilo que Carlos esperava. A esposa perfeita. A mulher comportada. A dona de casa. A mulher que esperava. A mulher que nunca reclamava. A mulher que aceitava todas as desculpas. E agora eu olhava para meu reflexo e enxergava alguém completamente diferente. Alguém que eu mesma não reconhecia. — Você ficou louca, Letícia. Minha voz saiu baixa. Sentei-me na tampa fechada do vaso e escondi o rosto entre as mãos. Uma parte de mim queria chorar. Outra queria gritar. E havia uma terceira parte, a mais assustadora de todas, que lembrava daquela noite com uma espécie de desejo de repetir de novo. Eu não queria admitir. Mas tinha gostado de ser desejada. Tinha gostado de esquecer Carlos. Tinha gostado de não precisar ser a mulher perfeita. E aquilo me assustava. Levantei-me. Tomei um banho demorado, tentando apagar da pele não apenas as marcas, mas também as lembranças. Quando saí, escolhi uma roupa comportada. Uma saia longa. Uma blusa discreta. Prendi os cabelos. Olhei novamente para o espelho. Ali estava a antiga Letícia. Ou pelo menos a versão dela que eu conhecia. Desci para a cozinha. Preparei café. O cheiro familiar tomou conta do ambiente. Por um instante, tudo parecia normal. Como se eu ainda fosse aquela mulher que acordava cedo para preparar o café do marido. Como se Carlos fosse aparecer a qualquer momento. Como se nosso casamento não estivesse destruído. Coloquei uma xícara sobre a mesa. Depois outra. Parei. Olhei para a segunda xícara. Não precisava dela. Carlos não estava ali. Peguei-a e guardei novamente no armário. Sentei-me. Tomei meu café sozinha. Cada gole parecia amargo. Peguei o celular. Fiquei olhando para o nome de Carlos na tela. Meu dedo pairou sobre o botão de chamada. Eu já havia tentado ligar antes. Ele não tinha atendido. Talvez estivesse ocupado. Talvez estivesse com ela. Talvez simplesmente não quisesse falar comigo. Respirei fundo. Liguei novamente. Chamou uma vez. Duas. Três. Quase desliguei. Então ele atendeu. — O que você quer essa hora, Letícia? A voz dele estava sonolenta. Meu coração apertou. Olhei para o relógio. Talvez ele realmente estivesse dormindo. Na casa dela. A ideia me causou uma pontada de raiva. — Carlos, precisamos conversar. Ele suspirou. — Agora? — Sim. — Sobre o quê? Olhei para a aliança no meu dedo. Por alguns segundos, fiquei em silêncio. Então tirei-a. Coloquei sobre a mesa. — Sobre o divórcio. Do outro lado, houve silêncio. Então ouvi uma risada. Uma risada curta. Sem qualquer preocupação. — Você tem certeza? Franzi a testa. — Tenho. — Pra onde você vai? Minha expressão mudou. — Como assim, para onde eu vou? — Você ouviu. — Esse é meu apartamento, Carlos. Ele soltou outra risada. — Seu? — Sim. — Letícia, nada aí é seu. Fiquei completamente imóvel. — Como assim? — Você ouviu. — Eu não estou entendendo. Minha voz começou a tremer. — Esse apartamento é minha casa. — Não vamos discutir isso agora. — Carlos, eu quero entender. — Depois conversamos. — Não. Espera. — Estou cansado. — Carlos! Mas ele desligou. Fiquei olhando para a tela do celular. Atônita. Completamente atônita. — Como assim?
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