Ponto de Vista de Letícia
Dois dias.
Dois dias inteiros haviam passado desde aquela ligação com Carlos.
E ele não tinha aparecido.
Nem uma mensagem.
Nem uma ligação.
Nada.
Eu já não sabia se estava com mais raiva dele ou de mim mesma.
Andava de um lado para o outro pela sala, segurando o celular com tanta força que meus dedos doíam.
Eu havia ligado algumas vezes.
Ele não atendia.
Quando mandei mensagens, visualizou algumas e ignorou outras.
Era como se tivesse decidido simplesmente desaparecer depois que mencionei a palavra divórcio.
Mas eu não desistiria.
Não dessa vez.
Eu queria o divórcio.
Queria sair daquele casamento.
Queria recuperar minha vida.
Só que havia um problema muito maior.
O apartamento.
Quanto mais eu pensava naquela conversa, mais estranha tudo parecia.
Carlos tinha dito que nada naquela casa era meu.
Aquilo não fazia sentido.
Aquele apartamento havia sido comprado logo depois do nosso casamento.
Eu tinha recebido uma herança da minha avó.
Uma quantia significativa.
Foi o dinheiro que usamos para comprar o imóvel.
Eu lembrava disso.
Ou pelo menos achava que lembrava.
O problema era que eu não encontrava os documentos.
E Carlos sabia disso.
Talvez soubesse muito mais do que eu.
Sentei-me no sofá e passei as mãos pelo rosto.
— O que você fez, Carlos?
A pergunta ficou perdida na sala vazia.
Eu estava começando a perceber que talvez meu marido tivesse mentido para mim durante muito mais tempo do que eu imaginava.
E aquilo me deixava furiosa.
Não apenas pela traição.
Mas pela sensação de que eu tinha sido completamente enganada.
Foi então que ouvi um carro parar em frente ao prédio.
Poucos minutos depois, a porta do apartamento se abriu.
Ergui a cabeça.
Teresa.
Minha sogra.
Ela havia passado alguns dias viajando e, aparentemente, tinha decidido voltar sem sequer avisar.
Entrou carregando uma mala enorme.
Não me cumprimentou.
Não perguntou como eu estava.
Simplesmente jogou a mala no meio da sala.
— Guarde minhas roupas.
Fiquei olhando para ela.
— O quê?
Ela tirou os óculos escuros lentamente.
— Você ouviu.
— Estou ocupada agora.
Teresa me encarou como se eu tivesse cometido um crime.
— Ocupada?
— Sim.
— Fazendo o quê?
— Tentando resolver minha vida.
Ela soltou uma risada debochada.
— Sua vida?
Colocou as mãos na cintura.
— Eu não sei nem o que você está fazendo aqui, sua inútil.
Meu maxilar se contraiu.
Eu já estava irritada.
Aquela mulher tinha escolhido o pior momento possível para me provocar.
— Teresa...
— Você nunca serviu para o meu filho.
Ela apontou para mim.
— Uma pobretona sem classe.
Respirei fundo.
— Não vou discutir com a senhora.
— Meu filho precisa encontrar alguém à altura dele.
Eu não consegui segurar.
Comecei a rir.
Teresa franziu a testa.
— Do que está rindo?
— É engraçado.
— O que é engraçado?
Olhei diretamente para ela.
— A senhora falando de alguém estar à altura do seu filho.
Ela estreitou os olhos.
— Explique-se.
— Eu já pedi o divórcio para o seu filho.
O silêncio tomou conta da sala.
Por alguns segundos, Teresa simplesmente me encarou.
Então começou a rir.
Uma risada alta e desagradável.
— Ah!
Ela colocou uma mão sobre o peito.
— Eu não acredito.
Continuei parada.
— É verdade.
— Sua sangue-suga...
Ela balançou a cabeça.
— Então o que está fazendo aqui no apartamento dele?
Aquelas palavras me atingiram.
— Este apartamento é minha casa.
— Não é.
— É, sim.
— Vaza.
Ela apontou para a porta.
— Pegue suas coisas e saia daqui.
Meu sangue ferveu.
— Não vou sair.
— Você não tem escolha.
— Tenho.
Apontei para o chão.
— Este apartamento foi comprado com a herança da minha avó.
Teresa deu uma risada curta.
— Você ainda acredita nisso?
Franzi a testa.
— Acredito porque é verdade.
— Esse apartamento nunca foi seu.
— Foi, sim.
— Não, Letícia.
Ela se aproximou.
— Esse apartamento está no meu nome.
Meu coração parou por um instante.
— O quê?
— Você ouviu.
— Como assim está no seu nome?
Teresa pegou a bolsa e começou a caminhar em direção ao corredor.
— Ora, você realmente não sabe de nada.
— Teresa, espere.
Ela parou.
Virou-se lentamente.
— Eu só deixo você morar aqui porque é casada com meu filho.
Meu estômago se contraiu.
— Isso não pode ser verdade.
— Pode.
— Eu não estou entendendo.
— Se você se separar de Carlos, vai para o olho da rua.
Fiquei imóvel.
— Eu o quê?
Teresa deu de ombros.
— Vai embora.
— Mas...
Minha voz falhou.
— Como esse apartamento pode estar no seu nome?
Ela sorriu.
— Porque está.
— Eu usei o dinheiro da minha herança para comprar este apartamento.
— Talvez tenha usado.
— Então por que está no seu nome?
Teresa simplesmente deu de ombros.
— Pergunte ao seu marido.
A resposta me deixou ainda mais nervosa.
— O que Carlos fez?
— Isso não é problema meu.
— Teresa!
Ela ignorou.
Pegou a mala e caminhou para o quarto.
— Tenho coisas para guardar.
— A senhora não pode simplesmente entrar aqui e falar isso!
Ela olhou por cima do ombro.
— Posso.
E desapareceu pelo corredor.
Fiquei parada no meio da sala.
Meu coração batia violentamente.