Domada no Papel

1560 Words
Giulia manteve os olhos fixos no papel, os dedos pressionando a borda da folha com força suficiente para amassá-la, e conforme lia cada nova cláusula, sentia como se estivesse sendo empurrada para dentro de uma cela invisível, sem grades, mas com paredes feitas de humilhação. “A esposa deverá se vestir de acordo com os desejos e preferências de Vicenzo Moretti, inclusive em eventos privados e públicos.” “Deverá acompanhá-lo a clubes, festas e encontros de cunho s****l, incluindo ambientes de b**m, sempre que solicitado, e participar de qualquer atividade proposta por ele, sem direito a recusa.” “Deverá manter postura educada, prestativa e respeitosa com qualquer acompanhante ou amante que Vicenzo venha a manter durante o casamento.” “Não poderá exigir exclusividade, afeto ou reciprocidade.” “Qualquer desobediência será punida conforme o julgamento exclusivo de Vicenzo Moretti.” A mão dela tremeu de raiva, o maxilar travado, os olhos ainda fixos no papel como se pudesse queimar aquelas palavras com o olhar, e por um segundo, ela imaginou enfiar aquele contrato inteiro na boca de Vicenzo, forçando-o a engolir cada linha nojenta que ele mandou redigir, cada ordem disfarçada de cláusula, cada humilhação escrita com frieza e prazer. Ela cresceu sendo tratada como realeza, cercada por homens que a protegiam, que obedeciam, que a temiam, e nunca precisou se curvar para ninguém, nunca aceitou ser mandada, nunca foi moldada para obedecer, e agora estava diante de um papel que exigia exatamente isso — que ela fosse submissa, silenciosa, decorativa, uma sombra obediente ao lado de um homem que a odiava. Ela respirou fundo, os ombros tensos, os olhos piscando devagar enquanto tentava conter o impulso de jogar tudo para o alto, mas então o nome de Luca veio como um soco seco no estômago, e ela se lembrou do motivo de estar ali, do motivo de ainda não ter virado as costas e ido embora, do motivo de ainda suportar tudo aquilo — era por ele, por justiça, por verdade, e se o preço fosse assinar aquele papel, então que fosse, porque assinar não significava obedecer, e ela não era o tipo de mulher que se dobrava só porque alguém achava que podia mandá-la. Ela ergueu o rosto, encontrou os olhos de Vicenzo, e sorriu, não um sorriso doce ou resignado, mas um sorriso frio, carregado de veneno, um aviso claro de que ele podia até achar que estava vencendo, mas não fazia ideia do que tinha acabado de provocar. — Cadê a caneta? Vou assinar. Por dentro, a promessa era simples e afiada: Vicenzo Moretti vai descobrir que eu sou chucra demais pra ser domada. O sorriso dela incomodou, e Vicenzo percebeu isso no mesmo instante em que o canto da boca dela se curvou, porque ele esperava hesitação, esperava medo, esperava que ela chorasse ou implorasse, mas ali estava Giulia Salvatore, olhando para ele como se estivesse no controle, como se aquele contrato fosse só mais uma peça no jogo dela, e isso o irritou mais do que ele gostaria de admitir. Ele manteve o rosto impassível, mas o olhar endureceu, e sem dizer nada, tirou a caneta do bolso do paletó e a estendeu para ela, os dedos firmes, o gesto controlado, como se estivesse entregando uma arma carregada. Giulia pegou a caneta com firmeza, os olhos ainda nos dele, e assinou, letra por letra, nome por nome, sem hesitar, sem desviar o olhar, como quem sabe exatamente o que está fazendo, como quem não tem medo de guerra, e quando terminou, soltou a caneta sobre a mesa com um estalo seco, os ombros relaxando como se tivesse acabado de cravar uma estaca no peito do inimigo. Estava feito. Mas ela não era dele. E ele ainda não fazia ideia do que tinha acabado de comprar. Vicenzo observava em silêncio enquanto Giulia assinava o contrato. Ele não se mexia, não dizia nada, apenas acompanhava cada traço da caneta com o olhar fixo, como se estivesse esperando que ela hesitasse, que recuasse, que quebrasse. Mas ela não hesitou. Quando terminou, largou a caneta sobre a mesa e se levantou. Ele pegou o papel com calma, dobrou e guardou no bolso do paletó. Só então falou, sem olhar para ela por mais de um segundo. — Bem-vinda ao inferno, Giulia. Um inferno que você mesma criou. Ela não respondeu. — Temos uma coletiva de imprensa com as três. Alguém vai vir te arrumar. Não me cause problemas. Ele saiu do quarto sem esperar reação. A porta se fechou com força, e o silêncio que ficou não era novidade para ela. Giulia continuou sentada, imóvel, com os olhos fixos no chão, sem pressa de se mover. O contrato estava assinado, mas o peso que sentia no peito não era sobre isso. Era outra coisa. Era antiga. Era pessoal. Ela se perguntou, pela milésima vez, por que Vicenzo a odiava tanto. A lembrança veio sem esforço. Ela ainda se lembrava do dia em que Luca a levou para conhecer os amigos. Estavam em um restaurante sofisticado, daqueles com luz baixa e garçons discretos. Ela estava nervosa, mas animada. Queria causar uma boa impressão. Queria que gostassem dela. Queria, mais do que tudo, que Vicenzo gostasse dela. Luca a apresentou com um sorriso leve, quase orgulhoso. — Essa é a Giulia. Ela estendeu a mão, educada, tentando manter a postura. Vicenzo a olhou por um segundo, virou as costas e saiu sem dizer uma palavra. Não lhe deu sequer a chance de se apresentar. Não voltou. Ela ficou ali, com a mão suspensa por tempo demais, e quando finalmente a baixou, tentou disfarçar o constrangimento com um sorriso fraco. Nunca tinha querido tanto agradar alguém como queria agradar os amigos de Luca. E nunca tinha se sentido tão rejeitada com tão pouco. Ela sabia o quanto Vicenzo era importante para Luca. Sabia que a opinião dele pesava. E mesmo assim, ele a tratou como se ela fosse um erro. Luca sorriu para ela, tentando manter o clima leve. — Fica aqui. Eu já volto. Rafael, o outro amigo, a encarou como se ela fosse um problema. Não foi simpático, mas também não saiu. Apenas disse, com a voz baixa e seca: — Eles vão se resolver. Não se preocupe. Mas Luca voltou sozinho. O restante da noite foi tenso. As conversas arrastadas, os sorrisos forçados. E quando ela perguntou, já no carro, por que Vicenzo não gostava dela, Luca respondeu sem olhar para ela: — Ele é assim mesmo. Tem os motivos dele. Uma batida mais forte na porta a tirou dos pensamentos. Ela se levantou devagar, foi até a porta e abriu. Como já imaginava, era a mulher encarregada de prepará-la para a coletiva. Giulia não se arrumava fazia tempo. Não protestou. Sentou-se e deixou que lavassem seu cabelo, escovassem, penteassem. A maquiagem foi feita com cuidado, sem exageros. Quando terminaram, mostraram a ela um vestido branco, estilo tubinho, sexy e elegante. Disseram que era a roupa escolhida por Vicenzo. Ela assentiu com um movimento leve de cabeça. — Eu me visto sozinha. A mulher hesitou. — Ele pediu que eu te levasse pronta para o salão de imprensa. Giulia sorriu. Um daqueles sorrisos que sabia usar desde pequena, o tipo de sorriso que abria portas, desfazia ordens e convencia qualquer um de qualquer coisa. — Eu prometo que desço pronta. Só preciso de um minuto. A mulher cedeu. Saiu sem insistir. Assim que a porta se fechou, Giulia caminhou até a mala, abriu o zíper e puxou um vestido preto. Curto, justo, provocante. Um vestido que dizia exatamente o que ela queria dizer sem precisar abrir a boca. Vestida para matar. Ela se olhou no espelho, satisfeita com aquele pequeno gesto de rebeldia. Respirou fundo, ajeitou o cabelo com os dedos e, só então, saiu do quarto em direção ao salão de imprensa. A coletiva era dele. Mas o show seria dela. ✍️ Nota da Autora Esse capítulo me doeu escrever. Não pela dor da Giulia — mas pela força que ela precisou esconder para não quebrar. A cena do contrato não é só sobre obediência. É sobre controle, sobre humilhação disfarçada de formalidade, sobre uma mulher que decide engolir o veneno de cabeça erguida porque tem um propósito maior. E talvez você, que está lendo agora, também já tenha engolido algo assim. Um “engole isso e sorri”. Um “assina aqui e cala a boca”. Um “seja boazinha, seja bonita, seja menos”. Se alguma frase da Giulia te atravessou, me conta. Posta nos seus stories, nos seus status, no grupo com aquela amiga que você sabe que vai sentir o mesmo. Escolhe uma frase — aquela que parece que foi escrita pra você — e compartilha com o mundo. E se quiser me marcar, eu vou amar ver. E se quiser me contar o que sentiu, eu vou ler com o coração aberto. E, por favor, deixe um comentário aqui no capítulo — me diz o que sentiu, o que pensou, se já odeia Vicenzo ou se entendem ele. Seu comentário me ajuda a continuar escrevendo. Ah, e se tiver uma amiga que ama histórias com mulheres que não se dobram fácil… Convida ela pra ler com você. Giulia não vai enfrentar esse inferno sozinha — e você também não precisa. Com carinho, Lêh 🖤
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