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1112 Words
O relógio marcava quase seis da tarde quando Naila finalmente desligou o computador. Seu primeiro dia na Castellari Global havia passado mais rápido do que imaginava, mas o cansaço agora começava a se instalar em seus ombros. Não era apenas o trabalho. Era a tensão constante de estar em um lugar onde tudo parecia maior, mais sofisticado e mais exigente do que qualquer ambiente que ela já havia conhecido. Ela organizou cuidadosamente as pastas sobre a mesa, salvou os últimos arquivos e guardou o crachá na bolsa. — Primeiro dia concluído. A voz veio ao lado. Naila levantou os olhos. Júlia estava encostada na divisória da mesa com um sorriso leve. — Sobreviveu — brincou. Naila riu discretamente. — Acho que sim. — Isso já é uma vitória. Júlia pegou sua bolsa e sentou-se na borda da mesa de Naila. — Então… o que achou? Naila pensou por um momento. — É… grande. — Essa é uma boa palavra. — E um pouco assustador. — Também é uma boa palavra. Elas riram. Pela primeira vez desde que chegara, Naila sentiu que havia alguém ali que não estava apenas observando ou julgando. Júlia parecia genuinamente simpática. — Se precisar de ajuda com qualquer coisa — disse Júlia — pode falar comigo. — Obrigada. — Eu também fui estagiária aqui. Naila pareceu surpresa. — Sério? — Cinco anos atrás. — E ficou? — Fiquei. Ela deu de ombros. — Nem todos conseguem. Naila engoliu em seco. Aquela frase trouxe de volta o peso da realidade. Ela precisava conseguir. Não havia opção. Júlia percebeu a mudança no rosto dela. — Ei — disse suavemente. — Não estou tentando te assustar. — Eu sei. — Você parece competente. — Espero que o resto das pessoas pense o mesmo. Júlia inclinou a cabeça. — Algumas já pensam. Naila franziu levemente a testa. — Como assim? Júlia olhou discretamente ao redor. — As pessoas são curiosas aqui. — Eu percebi. — Nova estagiária, nova energia… todo mundo repara. Naila suspirou. — Eu só quero fazer meu trabalho. — Continue assim. Júlia levantou-se. — E ignore os olhares. — Fácil falar. — Com o tempo você se acostuma. Elas caminharam juntas até o elevador. — Você mora longe? — perguntou Júlia. — Um pouco. — Eu passo perto do centro. Se algum dia precisar de carona… Naila sorriu. — Obrigada. — Estou falando sério. O elevador chegou. Quando as portas se abriram no térreo, o movimento do prédio era intenso. Funcionários saíam em grupos, conversando sobre trabalho ou planos para a noite. Mas Naila tinha apenas um destino. O hospital. Ela despediu-se de Júlia na entrada do prédio. — Até amanhã — disse Júlia. — Até amanhã. Assim que saiu para a rua, Naila pegou o celular. Nenhuma chamada. Nenhuma mensagem. Mesmo assim, um aperto tomou conta do peito. Ela chamou um táxi. Durante o trajeto, olhou pela janela enquanto a cidade passava em movimento. O céu já estava tingido de tons alaranjados do entardecer. Pessoas caminhavam pelas calçadas, algumas rindo, outras apressadas. Era estranho como o mundo continuava normal enquanto a vida dela parecia suspensa entre esperança e medo. O hospital apareceu alguns minutos depois. Grande. Cinza. Frio. Naila pagou o motorista e entrou rapidamente. O cheiro familiar de desinfetante imediatamente invadiu suas narinas. Ela caminhou pelo corredor até o quarto da mãe. Quando abriu a porta, encontrou Dona Rosa sentada na cama. — Filha! O sorriso da mãe era sempre a melhor parte do dia. — Como foi o trabalho? Naila aproximou-se e beijou sua testa. — Foi… bom. — Conta. Naila sentou-se na cadeira ao lado da cama. — O prédio é enorme. Acho que tem mais de vinte andares. — Nossa. — E o escritório é todo de vidro. Dá para ver a cidade inteira. Dona Rosa parecia encantada. — Eu sabia que você conseguiria algo grande. Naila segurou a mão da mãe. — Ainda é só um estágio. — Mas é o começo. Naila não respondeu. Porque naquele momento o médico entrou no quarto. Ele era um homem de meia idade, com expressão calma e olhar profissional. — Boa noite. — Boa noite, doutor — respondeu Naila. Ele abriu a pasta que carregava. — Vim conversar um pouco sobre os exames. Naila sentiu o coração apertar. — Os resultados chegaram? — Sim. O médico puxou uma cadeira. — A condição da sua mãe exige um procedimento cirúrgico. Dona Rosa abaixou os olhos. — Eu imaginava. Naila tentou manter a calma. — A cirurgia é urgente? O médico pensou por um momento. — Não imediatamente… mas não deve ser adiada por muito tempo. — Quanto tempo? — Algumas semanas. O silêncio caiu sobre o quarto. Naila respirou fundo. — E o custo? O médico fechou a pasta lentamente. — A cirurgia, os medicamentos e o período de recuperação… tudo junto fica em torno de… Ele mencionou o valor. E naquele instante o mundo de Naila pareceu parar. Era um número enorme. Muito maior do que qualquer quantia que ela já havia visto. Muito maior do que qualquer dinheiro que ela poderia juntar em pouco tempo. Ela sentiu o corpo ficar frio. — Eu… — sua voz quase falhou. — Eu não tenho esse dinheiro. O médico assentiu com compreensão. — Existem algumas opções de parcelamento, mas… Ele não terminou a frase. Porque todos sabiam que mesmo parcelado ainda seria caro demais. Dona Rosa apertou a mão da filha. — Naila… Mas Naila não conseguia parar de pensar no número. Era como se ele estivesse ecoando dentro da cabeça dela. O médico levantou-se. — Pensem com calma. Mas recomendo que decidam em breve. Ele saiu do quarto. O silêncio voltou. Pesado. Profundo. Naila permaneceu sentada, olhando para o chão. A mãe observava o rosto da filha. — Filha… — A senhora vai fazer essa cirurgia. Dona Rosa suspirou. — Não precisamos nos desesperar. Naila levantou os olhos. Havia determinação neles. — Eu vou dar um jeito. — Não quero que você destrua sua vida por minha causa. — Não diga isso. Naila segurou as duas mãos da mãe. — A senhora cuidou de mim a vida inteira. Seus olhos estavam brilhando. — Agora é a minha vez. Dona Rosa tentou sorrir. Mas havia tristeza naquele sorriso. — Você sempre foi forte demais para alguém tão jovem. Naila respirou fundo. Por dentro, ela estava assustada. Muito assustada. Mas não podia demonstrar. Porque naquele momento havia apenas uma certeza dentro dela. De alguma forma… Ela precisava encontrar aquele dinheiro. E precisava encontrar rápido. Naila apertou novamente a mão da mãe. E ficou ali sentada ao lado da cama enquanto o silêncio da noite começava a envolver o hospital.
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