Seis

1445 Words
Eu estava deitado em minha cama, listando em minha cabeça os motivos para a minha vida ser esse completo desastre, para não falar que era uma merda. A minha casa era um inferno e a minha cabeça estava se tornando um também. Era difícil conviver com os meus pais negligentes, que não faziam nada além de me darem ordens e gritarem um com o outro. Às vezes, a minha cabeça doía com tanto barulho, com as coisas terríveis que eles gritavam despreocupadamente, sem se importar a quem iam ferir, além deles mesmos. Principalmente quando berravam um para o outro como eu era um fardo ou um filho indesejado que só dava desgosto por ser mediano na escola. E eu ainda tinha brecha para pensar que as coisas só não eram piores porque eles ainda nem sabiam que para completar o desprezo que eles sentiam, eu gostava de homens. Eu me sentia cada vez mais perdido e solitário. Talvez eu devesse mesmo ir para a casa do Hoseok hoje e ter um pouco de folga desse ambiente tóxico. Talvez eu devesse me abrir mais com ele e ter um aliado para os momentos em que precisava desabafar toda a preocupação que eu carregava. O problema continuava a ser que eu sentia muito — muito mesmo — medo que meus amigos começassem a me tratar como um germe ou algo parecido e que, no fim, aos poucos, eles acabassem me deixando para trás. O que só faria a minha solidão crescer mais do que nunca. Me levantei da cama e fui até a varanda, respirar um pouco de ar fresco e tentar acalmar a minha mente caótica. Alguns minutos se passaram, até eu perceber que nem todo ar fresco do mundo seria capaz de organizar a minha dor. Eu estava apoiado em minha varanda, quase pronto para sair para a casa do meu melhor amigo — já havia desistido completamente de mudar o meu humor —, quando Jungkook apareceu com o seus lindos olhos redondos e um sorriso fofo que surgiu no momento em que ele me percebeu ali, lhe fazendo companhia. Sempre que ele estava por perto, eu me sentia mais corajoso e confortável. Eu sabia que nós tínhamos aquele lance estranho de observar o outro, sem saber muito do outro. Em outras palavras, Jungkook e eu tínhamos i********e s****l, mas nós dois não éramos amigos. Ainda assim, quando ele ficou me encarando, naquele meu momento vulnerável, eu me aproximei dele como se fôssemos algo mais do que vizinhos que sentiam uma forte atração s****l pelo outro. — Jungkook, posso te perguntar uma coisa? — me arrisquei, porque parecia que ele era o único que podia me dar a resposta que eu precisava. Afinal, ele era o único que sabia o meu segredo mais profundo. Ele me encarou confuso e talvez um tanto curioso, eu estava nervoso demais para definir os sentimentos alheios. Em seguida ele me fez um sinal sutil com a cabeça, indicando que eu podia prosseguir. Naquele momento, eu senti que seja lá o que fosse, parecia que eu podia contar com aquele garoto estranho. — Os seus amigos, eles... Eles sabem que você é... — a palavra era um tabu tão grande em minha vida, que para proferi-la em voz alta, ela quase me engasgou, antes de sair em um tom ameno. — Você sabe, Gay? — limpei a garganta, não conseguindo disfarçar a vergonha e o incomodo de tocar naquele assunto. Aquela atitude me fez sentir como um i****a, sem nenhum pingo de confiança ou maturidade. — Claro — ele respondeu, como se aquilo devesse ser algo super óbvio e para mim não era. Não era a minha realidade, embora eu a desejasse cheio de receios. — Inclusive, dois deles também são gays. — falou cheio de segurança. — Os seus amigos não sabem sobre você, Yoongi hyung? — me encarou parecendo estar mais preocupado do que curioso, de fato. — Você acreditaria se eu te dissesse que você é o único que sabe sobre isso? — ri com um ar melancólico e ele me olhava surpreso com a revelação. De repente, a expressão do Jungkook se tornou pensativa. Ele era muito bonito quando estava sério, então ele voltou a sorrir e o meu coração estremeceu levemente. Eu senti que poderia sorrir junto com ele, mas o meu humor ainda estava afetado por toda a merda que eu estava vivenciando naquele dia. — Hyung, pode fazer algo por mim? — sua voz doce questionou. Ele mordeu o lábio e eu institivamente afirmei, com um balanço leve de cabeça. — Estenda o seu braço para cá o máximo que você puder, okay? Era um pedido bem estranho, mas eu o obedeci. Eu podia não entender as suas intenções ainda, mas estava cheio de curiosidade para compreender o que aquele rapaz desejava com aquilo. Sem demora, eu estiquei o meu braço na sua direção, o máximo que eu podia. O meu corpo estava totalmente debruçado sobre a grade de proteção e, igual a mim, Jungkook também se esticou sobre a sua varanda, fazendo tudo ficar claro com o seu gesto. Eu pude sentir o toque suave dos seus dedos contra os meus e ele sorriu com um jeito ainda mais gentil do que já costumava fazer. E se antes o meu coração estremeceu de modo suave, agora ele se derreteu por completo, à medida em que eu lhe retribuía aquele sorriso que havia surgido por um ato tão singelo. Embora eu ainda estivesse confuso com o que passava na cabeça do garoto, eu gostava daquela sensação nas pontas dos meus dedos, pela primeira vez eu sentia a textura e o calor da sua pele. Era como se ele tivesse deixado de ser um sonho e se tornado real só com aquilo. Parecia bobo, mas era isso. Jungkook tinha calor, tinha massa e estava me tocando... Eram esses pensamentos bobos que rondavam minha cabeça agora e eles se tornaram mais intensos, quando ele disse: — Essa é a primeira vez que nós dois nos tocamos. Parecia algo tão simples, mas bastou sair dos seus lábios que eu senti — na mesma hora — que tinha perdido o meu coração para aquele garoto. Eu o havia perdido e foi tão fácil que me assustou. Embora eu não tivesse tido muito tempo para me manter naqueles pensamentos. Porque logo, ele me encarou e revelou com a sua voz aveludada mais uma das suas vontades: — Yoongi, eu quero te beijar. — na realidade soou um pouco como um pedido, mas eu ainda não podia lhe dar permissão para aquilo. Nossa, mil borboletas se agitaram em meu estômago, é verdade. Como eu queria beijar aquele garoto também, naquele momento exato, porém eu precisava ir para a casa do Hoseok e, mesmo que tudo com ele parecesse muito com um sonho, a minha mente continuava no lugar, cercada de receios dos quais eu não podia fugir. Afinal de contas, Jungkook e eu não tínhamos uma desculpa plausível para andarmos juntos sem levantar suspeitas por aí. Além de que o modo como agíamos perto um do outro não enganava ninguém. Era claro demais que de alguma forma — fosse sentimental ou sexualmente — nós nos desejávamos. O afeto que sentíamos um pelo outro era palpável e tudo em mim me dizia que eu devia fugir dele enquanto ainda era tempo. Enquanto eu não estava completamente apaixonado e insano. — Jungkook, pode me passar o seu número de celular? — pedi e aquilo era um ato de coragem que eu não costumava ter com a mente limpa. — Claro. Ele me passou o seu número antes que eu partisse para passar uma noite na casa do meu melhor amigo, no intuito de fugir de todas as minhas preocupações. Como isso fosse mesmo possível. Agora nós poderíamos nos contatar e nos conhecermos melhor. — O que tanto olha nesse celular, Yoongi? — fui pego de surpresa por Hoseok que me fez tal pergunta assim que abriu a porta para mim, me fazendo perceber que eu não desgrudara do aparelho o caminho inteiro, esperando que Jungkook fosse o primeiro a me escrever uma mensagem. — Não é nada demais. — menti mais uma vez e entrei na sua casa. Mas era alguma coisa e era a coisa mais confusa que eu estava passando em minha vida. Se apaixonar deveria ser mais fácil. Deveria ser gostoso, como a sensação que eu sentia ainda em meu tato. Mesmo que eu já tivesse saído de perto do meu vizinho há um tempo, eu ainda o sentia em meus dedos. Só que não era apenas isso. Eu sentia coisas demais e aquilo estava me saturando.
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