Assim que eu abri os meu olhos, uma dor de cabeça infernal me pegou e quando eu me movi ela só latejou mais forte ainda, me paralisando. Isso me fez lembrar mais um motivo para eu odiar festas. Se eu tinha que recorrer ao álcool para não morrer de tédio, eu também tinha que lidar com as consequências da ressaca no dia seguinte.
Naquela manhã, em particular, eu desejava ainda menos do que o habitual sair do meu mundo pacífico. Eu só queria passar o resto do dia embaixo do meu lençol evitando a claridade e cheiros demasiados fortes. Mas era uma droga de uma Segunda-feira e não tinha nenhuma forma de fugir das minhas responsabilidades de estudante. Aceitei o fato, mesmo irritado, e me levantei para ir me ajeitar e encarar mais um dia.
Como sempre, eu fui primeiro ao banheiro e iniciei os meus pequenos rituais. Mas houve algo diferente dessa vez, já que no momento que eu mantinha a minha cabeça dolorida embaixo do chuveiro e tentava organizar os meus pensamentos, tendo meu ar paralisado, alguns flashes da madrugada passada me vieram à cabeça. Depois de algumas imagens e sons, — imagens e sons muito explícitos, diga-se de passagem! — o meu rosto corou intensamente, como se houvesse mais alguém ali comigo. Eu voltei a respirar na hora, percebendo que Jungkook e eu havíamos ido longe demais em um único dia.
No entanto, não era só uma questão de ter ido longe demais ou não, eu não conseguia parar de pensar em como tudo aquilo havia sido incrivelmente delicioso.
Voltei ao meu quarto sem saber se devia ou não abrir a minha janela para o meu vizinho nessa manhã. Eu estava constrangido demais para encará-lo. Afinal de contas, dessa vez eu realmente havia feito um strip tease para ele e ainda havia pedido para que ele me assistisse enquanto eu gozava e eu acabei lhe dando um belo show de mim mesmo tendo um orgasmo anal. Eu acho que nunca mais devia beber e se o garoto desse com a língua nos dentes ou se alguém tivesse nos ouvido? Ah, eu estaria fodido de verdade. Aí sim é que a minha vida ia se tornar uma cagada.
Respirei fundo e tentei me acalmar, pois tudo isso eram águas passadas. Não havia nada que eu pudesse fazer para voltar atrás e agora eu tinha que arcar com as consequências de agir com a mente cheia de álcool e t***o. Abri a minha janela da forma mais corajosa que consegui e lá estava ele, Jungkook, parado com um sorriso enorme, como se estivesse a minha espera há algum tempo.
— Bom dia, Yoongi. Dormiu bem? — aquele sorriso safado não negava que ele lembrava com muito mais detalhes do que eu, o que havia ocorrido naquela varanda há algumas horas atrás.
— B-bom dia, Jungkook. — tentei ser o mais firme possível, ainda assim gaguejei um pouco.
Ele piscou um de seus olhos para mim, em flerte óbvio, e eu não conseguia me enjoar de vê-lo com o seu uniforme escolar — sinal de que eu havia acordado tarde demais para vê-lo se exercitando. Jungkook era sempre pontual, sempre acordava mais cedo do que qualquer estudante comum, diferente de mim que se pudesse nem saia da cama.
— A propósito, Jungkook, eu sou o seu hyung, não esqueça disso. — tentei mostrar que tínhamos que manter a formalidade exigida pela sociedade, apesar da nossa i********e secreta. Apesar dele ter me visto gozando, enquanto eu enfiava três dedos dentro de mim e clamava por seu nome.
— Ah, tudo bem. Não vou esquecer mais, Yoongi... — falou com um tom impertinente e sorriu com deboche antes de completar a sua fala. — ...Hyung. — ele sorriu, traquina como de costume, e me fez perder um pouco da minha pose de cara ais velho, maduro e sensato que exigia respeito. — Aliás, hyung, eu acho que você devia ir se trocar de uma vez ou vai nos atrasar. Minha ficha escolar é impecável, seja mais responsável, por favor. — zombou.
Eu acabei corando com a sua confissão, afinal de contas, ele estava deixando mais do que claro que queria assistir enquanto eu me trocava, assim como fazíamos todas as manhãs. Acabei fazendo o que ele me pediu e eu não sabia bem se era porque eu deveria fazer de qualquer forma ou se porque o jeito que ele mostrava interesse, me dava vontade de agradá-lo. Eu voltei para dentro do meu quarto e me livrei da minha toalha molhada que circulava minha cintura. Mais uma vez, aquele vizinho moreno tinha a vista completa das minhas costas e enquanto eu me vestia, peça por peça, os seus olhos acompanhavam cada movimento meu. Mesmo sem olhar, eu os sentia em mim e quando eu o encarei de relance, percebi que dessa vez o seu olhar era muito diferente do habitual.
— Agora eu me sinto pronto para mais um dia desgastante de aula. — ele disse, se despedindo de mim com um aceno breve e um sorriso. — Até mais, Yoongi hyung. — e embora ele estivesse mesmo usando o honorifico, eu sentia um tom de deboche cada vez que ele o pronunciava, ainda assim isso me deixava de bom humor.
No entanto, havia uma coisa que nem flertar com o Jungkook de manhã era capaz de segurar o meu humor e isso era o café-da-manhã obrigatório com os meus pais. Eu confesso que até mesmo eu acho que reclamo demais às vezes, mas eu estou preso a mais um clichê ambulante. Sendo gay e tendo pais homofóbicos. Honestamente, esse deve ser o pior de todos eles. Eu bem que podia estar naquelas poucas famílias que aceitam as pessoas como são, não que ficam todo maldito dia xingando os "veadinhos" na mesa do café da manhã, sem saber que o próprio filho é um. Eu já estava cansado das palavras pejorativas e dos comentários infelizes do meu pai, assim como estava farto de ter a minha mãe concordando com tudo. p***a, esse era o único tópico que eles concordavam. Quanto azar eu tinha?
Essas conversas na mesa do café, me tiravam totalmente o apetite e eu preferia deixar a comida quase toda no prato e ouvir minha mãe reclamando até a minha ida até a porta, do que suportar mais um minuto de toda aquela conversa tóxica sobre pessoas que nada tinham a ver com a gente, mas que se tornavam motivo de ódio por sua sexualidade. Me deixava frustrado imaginar como eu seria tratado dentro da minha própria casa, pelas pessoas que me colocaram no mundo, no momento que elas descobrissem que eu também era — como eles diziam sempre — "uma aberração", "uma bichinha imunda". Dava para montar um livro com todos os piores termos que eles usavam.
— Eu estou saindo, não quero chegar atrasado e levar alguma advertência. — informei sem muita emoção na voz ou na face.
Não esperei uma permissão, não esperei nem mesmo o sermão, peguei a minha mochila e disparei para a rua. Andei o mais rápido possível para o meu ponto de encontro com o Hoseok e nem eu tinha ideia da cara que eu fazia, até encontrar com o meu amigo e ele cochichar para mim:
— Que cara azeda, Yoongi. O que é que ta rolando, cara? — me perguntou.
Nós sempre íamos ao colégio juntos, os quatro. Jin, Namjoon, Hoseok e eu. Cada um esperava em uma esquina diferente Mas quando nos reuníamos Hoseok era o único com um pingo de sensibilidade para perguntar algo quando via que eu não estava muito legal. Era isso ou os outros dois tinham medo, por causa da vez que eu acabei estourando minhas frustrações em cima do Jin hyung. O que confesso ter sido um dos meus piores erros. Sinceramente, eu fiquei muito arrependido depois, porque, apesar do Jin ser muito calmo e divertido, quando ele resolve bancar o hyung, ele se torna alguém realmente assustador.
— Meus pais, eu já estou de saco cheio de tudo. — me limitei a falar, não queria estender o assunto e nem podia, porque ele ia chegar naquele que eu não estava pronto para tocar ainda.
Eu não podia dizer mais do que isso ao meu amigo preocupado, porém estava começando a se tornar muito incomoda as pequenas coisas que eu estava guardando só para mim.
— Se você quiser pode ir dormir na minha casa hoje. Você vai poder respirar um pouco longe deles. — sorriu de forma reconfortante e apertou os meus ombros.
Me senti levemente culpado com o seu gesto de carinho. Afinal de contas, Hoseok era o melhor amigo que eu podia ter, então eu me sentia um tremendo filho da p**a com ele, por não confiar o suficiente em nossa amizade. Por não ter certeza se ele continuaria sendo o mesmo comigo depois que eu lhe contasse que eram os homens que atraiam.