Capitulo 03

1292 Words
Metralha narrando O motor ainda tava quente quando eu virei a última curva antes da barreira. Meu olho já tinha mudado. Não era mais o cara que tava só monitorando de longe. Agora era comando. Era guerra. E guerra… eu conheço bem. Assim que o carro apontou pro início da subida, o primeiro barulho de tiro cortou o ar. Seco. Alto. Próximo. Depois veio outro. E outro. Rajada. Não precisei de confirmação nenhuma. A polícia ainda tava na cola. — Cäralho… — rosnei, apertando o volante. Os caras não só tinham se embolado. Tinham trazido o inferno junto. Quando passei pela barreira, os vapores da contenção já estavam em posição. Olhar atento, corpo tenso, arma na mão. Não precisei falar nada. Eles também já tinham entendido. Mais um disparo ecoou, dessa vez mais perto, estourando contra a parede de uma casa e levantando pó. — É invasão! — alguém gritou. E foi como se o morro inteiro respirasse fundo ao mesmo tempo. No segundo seguinte… os fogos começaram. PÁ! PÁ! PÁ! Explodindo no céu, rasgando o ar, iluminando a tarde. Aviso claro. Sem erro. A polícia tá subindo. E ali… não tinha mais volta. Pisei fundo. O carro subia rasgando a ladeira, o motor berrando, enquanto meu olho corria tudo ao redor. Cada beco, cada viela, cada ponto de risco. O rádio chiava sem parar. Vozes se atropelando. — Tão entrando pelo lado de baixo! — Viatura na principal! — Tem mais vindo! Respirei fundo, tentando organizar o caos na cabeça. — Segura posição! — falei no rádio, firme. — Ninguém faz merda sozinho! Espera comando!.- ouvi a voz do borges no rádio. Mas eu sabia… nem todo mundo espera. Nem todo mundo pensa. E era assim que dava merda. Mais tiros. Mais perto. Mais pesado. Olhei pelo retrovisor e vi o reflexo azul e vermelho piscando lá embaixo. Eles tavam vindo com tudo. — Filhos da püta… — murmurei. Mas uma coisa tava clara. O plano, apesar da merda… tinha dado certo. A grana tava com a gente. E isso mudava tudo. Dinheiro compra tempo. Compra poder. Compra guerra. Mas só se a gente sobreviver pra usar. Virei pro acesso da mata, lá em cima. Pouca gente sobe até ali. Menos ainda conhece o caminho. Joguei o carro pra dentro sem pensar duas vezes. O mato arranhando a lateral, galho batendo no vidro, terreno irregular fazendo o carro quicar. Parei no ponto certo. Desliguei o motor. Silêncio por um segundo. Só minha respiração pesada. Deixei a mochila no banco do passageiro. A grana. Intacta. Segura. Era isso que importava. Saí do carro e fechei a porta sem fazer barulho. Ali eles não chegavam fácil. E mesmo que chegassem… já seria tarde. Porque eu não ia estar mais ali. Ajustei a arma. Conferi munição. E comecei a descer. Correndo. Rápido. Preciso. Meu corpo já tava no automático. Conhecia aquele caminho como conhecia a palma da minha mão. Cada pedra. Cada atalho. Cada buraco. Enquanto descia, o som da guerra só aumentava. Tiro. Grito. Correria. E o barulho do helicóptero começando a cortar o céu. Levantei o olhar por um segundo. Lá tava ele. Rodando. Caçando. — Vem… — murmurei, descendo mais rápido ainda. Passei pela boca. Os moleques já estavam posicionados, tensão estampada na cara. — Munição! — falei, direto. Um deles já me entregou um carregador cheio. — Os caras tão subindo pesado, chefe! — Eu tô vendo. Troquei o carregador com rapidez. Chequei. Tudo certo. — Segura aqui até eu mandar avançar — ordenei. — Ninguém vira herói sozinho! Eles assentiram. Mas o medo tava ali. E com razão. Continuei descendo. Agora mais rápido ainda. — Entra pra dentro! — gritei pra uma senhora na porta. — Fecha tudo! — Polícia! Polícia! — outro gritava mais abaixo. Comércio começando a fechar às pressas. Porta de ferro descendo. Criança sendo puxada pra dentro. Gente correndo. O morro se transformando em campo de guerra em segundos. E no meio disso tudo… meu celular vibrou. Olhei de relance. Karla. Soltei o ar pelo nariz, irritado, mas atendi. — Fala. — João, o que tá acontecendo? — a voz dela veio tensa. Mais um tiro estourou perto. — Invasão — respondi, curto, sem parar de correr. — Vai pro cofre. Agora. — Sério isso, junto com a Jéssica? — Tá de caô com a minha cara Karla? claro que é junto com a Jéssica. Silêncio do outro lado. Eu já sabia o que vinha. — Eu não vou ficar trancada com ela. Parei por meio segundo, incrédulo. — O quê? — Você sabe como ela é. Aquela garota— — Karla — cortei, já sentindo a irritação subir. — Não é hora disso. — Eu não vou. — KARLA! — minha voz saiu mais alta, pesada, cortando tudo. Do outro lado, silêncio. — Eu não tenho tempo pra essa pørra agora! — falei, andando de novo, rápido. — Vai pro cofre com a Jéssica e acabou! — Mas — AGORA! Respiração pesada. Dos dois lados. — Se vira lá dentro, mas eu não quero vocês duas expostas, entendeu? Mais um silêncio. — Entendi… — ela respondeu, seca. — Ótimo. E desliguei. Sem esperar mais nada. Guardei o celular no bolso, passando a mão pelo rosto. — Cäralho… Até no meio do caos… essa guerra dentro de casa não dava trégua. Mas não dava pra pensar nisso agora. Tinha coisa maior. Muito maior. Enquanto descia mais um beco, uma lembrança atravessou minha mente. A refém. Na salinha. Pørra. Eu tinha esquecido completamente. Meu maxilar travou. Ela ainda tava lá. No meio disso tudo. Respirei fundo. Uma coisa de cada vez. Se eu perdesse o controle agora… aí sim tudo ia pro Cäralho de vez. O helicóptero desceu mais baixo. O barulho ensurdecedor. O vento batendo nas paredes, levantando poeira. Eles tavam cercando. — Avançando! — ouvi alguém gritar mais à frente. Dobrei a esquina já com a arma levantada. E aí… eu vi. Os policiais subindo. Protegidos. Organizados. Arma em punho. Olhar fechado. Não era operação pequena. Era investida séria. E eu senti. Aquilo não era coincidência. Era resposta. — Segura! — gritei pros meus. — Segura a linha! E então… a guerra começou de verdade. Tiro vindo. Tiro indo. O som ensurdecendo tudo. Poeira subindo. Grito se misturando com disparo. Me posicionei atrás de um muro baixo, mirando, calculando. Disparei. Um. Dois. Troca. Reposiciona. O corpo já agindo sozinho. Mas o peso… o peso já tava ali. Porque antes disso tudo… eu já tinha sido atingido. Na correria. Na merda que os moleques fizeram. Na hora eu ignorei. Nem senti direito. Mas agora… agora a dor cobrava. O braço pesava. O sangue escorria quente. Grudando na pele. Molhando a roupa. — Continua… — murmurei pra mim mesmo. Mais tiros. Mais pressão. O helicóptero iluminando. Eles avançando. E a gente segurando. Porque aqui… é nossa casa. E ninguém entra sem pagar preço. Levantei um pouco pra reposicionar. Erro. Um estalo seco. E aí… o impacto. Um tiro. Dessa vez direto. Senti o corpo recuar, o ar sair dos pulmões. — Pørra…! A mão foi instintivamente pro local. Sangue. Muito. Quente. Escorrendo. Minha visão oscilou por um segundo. Mas eu não caí. Não ainda. Apoiei no muro, respirando pesado. — Não agora… — rosnei. Levantei de novo. Mesmo cambaleando. Mesmo sentindo o corpo enfraquecer. E continuei. Porque enquanto eu tiver de pé… essa guerra não acabou. Mas o segundo tiro veio logo depois. Mais um impacto. Mais dor. Mais sangue. E dessa vez… meu corpo sentiu de verdade. A perna falhou. O mundo girou. O som ficou distante. Como se estivesse debaixo d’água. Mas minha mente ainda tava ali. Lúcida. Focada. Resistindo. Porque cair… não era opção. Não ali. Não agora. Não com tudo em jogo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD