Borges narrando
Meu nome não importa muito. Aqui no morro, ninguém chama pelo nome de batismo mesmo. Nome de verdade é o que você constrói com o tempo, com atitude… e com o que você aguenta carregar.
Mas se quiser saber, me chamam de Borges, até porque é o único nome que eu conheço. E diferente de muita gente aqui, eu não nasci no meio disso tudo já sabendo o caminho. Eu fui empurrado. A vida tem dessas. Ou você entra… ou você é engolido. No meu caso, eu entrei.
Cresci sem referência. Sem pai, sem mãe, sem ninguém pra ensinar o certo ou o errado. O mundo foi meu professor. E ele não dá aula leve. Aprendi cedo a me virar sozinho. A confiar pouco. A observar muito. Porque quando você não tem ninguém… qualquer erro custa caro.
Comecei pequeno. Correria aqui, entrega ali, favores que ninguém quer fazer, mas alguém precisa. Dinheiro rápido, fácil… e perigoso. Mas na época, o perigo nem parecia tão grande assim. Pior era passar fome. Pior era não ter pra onde voltar.
Então fui ficando. Quando percebi… já tava dentro. Mas nunca fui de agir no impulso. Nunca fui de querer aparecer. Sempre gostei de entender o jogo antes de jogar. E foi isso que me manteve vivo.
Até eu cruzar o caminho dele. Metralha. Na época, ele ainda era só o João. Mas já dava pra ver. Tinha algo diferente. Não era só coragem. Era presença. Olhar firme, postura de quem não abaixa a cabeça… mesmo sem ainda ter tudo que tem hoje.
A gente se trombou numa situação qualquer, dessas que a vida joga pra ver o que acontece. E aconteceu. A gente se entendeu. Sem muita conversa, sem muita explicação. Só aconteceu.
E desde então… nunca mais se separou. Viramos dupla. Parceiros. Depois… irmãos. Porque é isso que a gente é hoje. Irmão não é só sangue. É quem fica. E eu fiquei.
Vi ele crescer. Vi ele aprender. Vi ele cair também. Porque ninguém chega onde ele chegou sem cair algumas vezes.
Mas teve um dia… que mudou tudo. O dia em que ele perdeu os pais. Eu lembro como se fosse hoje. O jeito que ele ficou. O olhar vazio. A raiva engolindo tudo. Ali… eu achei que ele ia se perder. De verdade. Porque aquilo ali não era dor simples. Era destruição.
Mas ele não caiu. Ou melhor… ele caiu, sim. Mas levantou. E levantou diferente. Mais duro. Mais frio. Mais forte. E com uma responsabilidade nas costas que não era pra idade dele.
Assumir o morro não foi escolha. Foi necessidade. E eu tava lá. Desde o começo. Lado a lado. Principalmente porque eu sou mais velho. Alguém precisava segurar quando ele quisesse explodir. Alguém precisava pensar quando ele só queria agir.
E eu sempre fui esse cara. Não porque eu sou melhor. Mas porque eu sei o peso das decisões. E ele também sabe. Por isso ele me colocou como sub. Não foi só confiança. Foi leitura. Ele me conhece. Tão bem quanto eu conheço ele.
A gente não precisa falar muito. Só de olhar… já entende. E tem coisa que ele percebeu em mim antes mesmo de eu aceitar.
Jéssica. A irmã dele. Desde o começo… foi diferente. Ela não é só "a irmã do chefe". Nunca foi. Ela é… ela. Forte. Direta. Daquelas que não aceita qualquer coisa. E foi isso que me pegou.
Mas eu nunca deixei claro. Nunca fui bom com isso. Sentimento não é minha área. Nunca foi. E também… eu sempre soube. A vida que eu levo não é pra ela. Não é justa com ela. Não é segura. Então eu escolhi por ela. Mesmo sabendo que talvez não fosse meu direito.
E o Metralha vive jogando isso na minha cara.
— Tu tá errado, Borges — ele já falou mais de uma vez. — Quem tem que decidir isso é ela.
E eu sempre respondo a mesma coisa.
— Não é vida pra ela.
— E quem é tu pra decidir isso?
Eu nunca tenho resposta. Só silêncio. Porque no fundo… eu sei. Ele tá certo. Mas tem coisa que não dá pra mudar fácil. Ainda mais quando você passou a vida inteira sendo sozinho.
Eu não tive família. Nunca tive alguém pra me esperar. Nunca tive alguém pra me cobrar. Até eles. Até o Metralha. Até a Jéssica. Eles foram os primeiros.
E talvez por isso… eu tenha medo de estragar. De perder. De colocar ela num mundo que não é pra ela. Então eu fico na minha. Observando. Sentindo… mas calado. Como sempre fui.
Só que naquele dia… não teve tempo pra pensar nisso. Porque a merda veio grande.
O assalto era pra ser simples. Rápido. Limpo. Tudo planejado. Mas os moleques… fizeram merda. Das grandes. Além de se embolarem na saída… ainda inventaram de sequestrar uma mina.
Quando eu soube… já senti. Aquilo ali ia dar r**m. E deu.
A polícia veio pesada. Subiu com tudo. Mas a gente não recuou. Nunca recua. A gente segurou. Na raça. Na estratégia. Na força. Fizemos eles recuarem.
Por um momento… parecia que tinha acabado. Os fogos estouraram no céu. Aviso de vitória. Mas eu sabia. Não era fim. Era pausa. Porque depois de um assalto desses… eles voltariam, ainda mais porque tem uma refém. E voltam pior.
Fiquei rodando pelo morro, organizando os pontos, reposicionando a galera, garantindo que ninguém baixasse a guarda. Tudo ainda tava em alerta. Tenso. Pesado. O tipo de silêncio que antecede outra pancada.
Foi quando o rádio chiou.
— Borges…
A voz dele. Mais baixa. Mais pesada. Meu corpo travou na hora.
— Fala, metralha.
Um segundo de silêncio. E aí veio.
— Levei um tiro.
Meu coração desceu seco.
— Onde tu tá?
— Indo pro posto… — a respiração dele tava falhando. — Perdi muito sangue.
Fechei os olhos por um segundo, já me movendo.
— Fica consciente, cäralho.
— Escuta…
O tom mudou. Mais urgente.
— Vai lá em casa.
Na hora eu entendi.
— Tira a Karla e a Jéssica do cofre.
Assenti, mesmo sabendo que ele não tava vendo.
— Já tô indo.
— Vê se tá tudo certo no morro também…
Sempre pensando em tudo. Mesmo baleado.
— Pode deixar.
— E depois cola no posto.
— Tô contigo já já.
Silêncio. Mas eu ainda senti ele ali. Resistindo.
— Aguenta, Metralha.
— Sempre.
O rádio ficou mudo. Mas a tensão… não.
Guardei o aparelho e já acelerei o passo. Agora não era mais só organização. Era pessoal.
Porque se tem uma coisa que eu não deixo acontecer… é ele cair sozinho. Nunca aconteceu. E não vai ser hoje.