Jéssica narrando
Perder os pais muda tudo. Não é só a dor. Não é só o vazio. É o jeito que o mundo passa a te enxergar… e o jeito que você precisa se reinventar pra continuar de pé.
Eu lembro de tudo daquele dia. Do barulho. Do desespero. Do cheiro de pólvora no ar. E depois… do silêncio. Um silêncio pesado, sufocante… como se o mundo tivesse parado só pra deixar claro que nada ali ia ser como antes.
Eu e o João. Sozinhos. Dois corpos em pé… tentando fingir que ainda tinham estrutura. Mas a verdade é que a gente se quebrou naquele dia. Só que ele… ele não teve o direito de demonstrar. Enquanto eu ainda chorava, enquanto eu ainda tentava entender o que tinha acontecido… ele já tava mudando. Endurecendo. Virando outra pessoa. Virando o Metralha.
Meu irmão sempre foi forte. Mas depois daquilo… ele virou outra coisa. Mais frio. Mais calculista. Mais perigoso. E ao mesmo tempo… mais protetor.
Ele assumiu tudo. A casa. O morro. A responsabilidade. Ele virou homem na marra. E eu vi isso de perto. Eu vi cada passo. Cada escolha difícil. Cada noite em claro.
E por muito tempo… a gente deu certo. Era só nós dois. Eu e ele. E o Borges, que sempre esteve ali também, como se fosse parte da gente. A casa era leve. Mesmo com tudo. Mesmo com a dor. Ainda tinha paz.
Até ela chegar. Karla.
Desde o começo… eu não fui com a cara dela. E não foi implicância. Não foi ciúme. Foi instinto. Tem gente que a gente bate o olho e sabe. E eu sou muito boa nisso.
Ela entrou aqui como quem não quer nada. Jeito doce. Olhar baixo. Fala mansa. Toda certinha. Mas eu vi. Eu sempre vi. A forma como ela media as palavras. Como ela se fazia de frágil na frente do meu irmão. Como ela manipulava situações pequenas pra sair por cima.
Mas na época… eu relevei. Porque ela era a mulher dele. E ele… ele tava feliz. E isso, pra mim, sempre foi prioridade. Se ele tava bem… eu engolia. Ficava quieta. Me afastava quando precisava. Respirava fundo e deixava passar.
Só que agora… agora não dá mais.
Ultimamente tá insuportável. Qualquer coisa vira motivo. Ela olha torto. Ela provoca. Ela fala nas entrelinhas. E sempre com aquele ar de santa. De vítima. De "eu não fiz nada". Mas eu sei. Eu vejo.
Ela acha que é dona da casa. A rainha. Como se tivesse chegado primeiro. Como se tivesse construído alguma coisa aqui. E isso me tira do sério. Porque quem tava aqui desde o começo… fui eu. Quem segurou essa casa junto com o João… fui eu.
E agora tenho que aguentar essa mulher querendo mandar em tudo? Não dá. Eu tô chegando no meu limite. E eu sei como isso termina. m*l. Muito m*l.
Porque eu não sou de baixar a cabeça. Nunca fui. E se eu continuar aqui… uma hora eu vou explodir. E quando isso acontecer… não vai ter volta.
Por isso eu decidi. Eu vou sair. Não conversei com o João ainda. Mas eu vou. Hoje.
Era hoje. Eu já tava com isso na cabeça desde cedo. Só esperando ele chegar pra falar. Porque eu sei como ele é. Ele nunca vai colocar ela pra fora. Nunca. Ela é a mulher dele. E ele protege quem tá com ele. Sempre foi assim.
Então não tem muito o que discutir. O velho ditado nunca fez tanto sentido: os incomodados que se retirem. E no caso… sou eu.
Eu não vou ficar aqui me desgastando. Me diminuindo. Engolindo coisa que não desce. Não por causa dela. Nunca.
Mas aí… veio a invasão.
O barulho começou de repente. Tiro. Grito. Correria. Fogos estourando no céu. E eu já sabia. A polícia tava subindo.
Meu coração acelerou na hora. Porque uma coisa é ouvir falar. Outra é sentir acontecendo. Aqui. Na nossa porta. Já passei por isso várias vezes, mais nunca me acostumo com isso.
Karla apareceu na sala já alterada.
— O que tá acontecendo?!
Revirei os olhos.
— Tu mora aqui e não sabe?
— Não enche, Jéssica!
— Então para de fazer pergunta i****a.
Ela bufou, andando de um lado pro outro.
— Cadê o João?
— Na rua. Onde mais ele estaria numa hora dessas?
Ela não respondeu. Mas o olhar… o olhar já mostrava o desespero crescendo.
Ela ligou pra ele, porque parece uma louca com ciumes, e a ordem foi clara: ir pro cofre. Na hora. Sem discussão.
Olhei pra ela. Ela olhou pra mim. E o silêncio que se instalou ali… foi pesado.
— Eu não vou ficar trancada contigo — ela soltou.
Soltei uma risada sem humor.
— Engraçado… porque eu também não quero. Mas se tiver afim de morrer, o problema é seu.
— Então sai.
— Se liga, ta achando que vou pra onde ?.
A gente ficou se encarando por alguns segundos. Se fosse outro momento… talvez a gente já tivesse se pegado ali mesmo. Mas o barulho de tiro lá fora trouxe a realidade de volta.
— Anda logo — falei, já virando. — Eu não vou morrer por tua causa.
Entramos. Cada uma no seu canto. Sem se olhar. Sem se falar.
O tempo lá dentro parecia mais lento. Mais pesado. O barulho lá fora não parava. Helicóptero. Tiro. Gente gritando.
Meu coração apertava a cada segundo. Porque eu sabia. O João tava lá. No meio disso tudo. E por mais que eu confie nele… eu tenho medo. Sempre tenho.
O tempo passou… não sei quanto. Minutos. Horas. Talvez mais. Até que finalmente… a trava do cofre fez um barulho. A porta abriu.
E quem tava do outro lado… era o Borges.
Na hora, meu corpo relaxou um pouco. Porque se ele tava ali… era porque ainda tinha controle.
Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa… Karla saiu praticamente atropelando ele.
— Cadê o João?! — ela disparou, já alterada. — Por que ele não veio?!
Revirei os olhos.
— Vai começar…
— Aposto que ele tá com alguma vagabünda pelo morro! — ela continuou, completamente fora de si.
Eu cheguei a dar um passo à frente.
— Tu tá maluca?
Mas foi o Borges que respondeu. Seco. Direto.
— Ele tá no posto.
Ela travou por um segundo.
— Como assim?
— Foi atingido.
Silêncio. Pesado. Denso. Meu coração gelou.
— O quê? — minha voz saiu mais baixa.
Mas Karla… ela não reagiu como alguém normal reagiria. Ela riu. Uma risada desacreditada.
— Ah, claro… — ela balançou a cabeça. — Agora essa também.
Foi aí que eu perdi a paciência.
— Tu é simplesmente louca.
Ela virou pra mim na hora.
— Vai se föder.
E me mostrou o dedo. Assim. Na cara. Depois virou as costas e saiu da casa como se nada tivesse acontecido.
Fiquei parada por um segundo. Respirando fundo. Contando até dez. Porque naquele momento… eu tive vontade de voar no pescoço dela. Sem pensar. Sem medir.
Mas eu me segurei. Por ele. Sempre por ele.
Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.
— Eu não suporto mais essa mulher… — Minha voz saiu baixa, mas carregada. — Deus me livre…
Balancei a cabeça, andando pela sala.
— Eu tô no meu limite, Borges.
Ele não falou nada. Só ficou ali. Me olhando. Como sempre faz. Observando.
— Antes que aconteça alguma merda aqui dentro… — continuei. — Eu vou falar com o João. — Parei, encarando ele. — Eu vou sair dessa casa.
Silêncio. Pesado. Ele continuou me olhando. Como se quisesse falar alguma coisa. Mas não falava.
E eu conheço aquele olhar. Conheço bem demais.
— Fala, Borges — cruzei os braços.
Ele respirou fundo. Mas ainda assim… demorou.
Porque ele é assim. Sempre foi.
E eu já tava cansada de silêncio.