Então...
Antes que você vá
Havia algo que eu poderia ter dito para fazer seu coração bater melhor?
Lewis Capaldi - Before you go
Fernando Mendez
Vejo minha pequena dormindo tranquila, seu peito sobe e desce calmamente, meus olhos enchendo de lágrimas.
Um mês se passou desde que Karla morreu e Felipe me deixou.
Dois dias depois que ele veio até mim, a polícia chegou na minha porta, encontraram o corpo do meu irmão em sua casa, submerso na água da banheira. Ele tinha tomado vários remédios e acabou com a própria vida. E eu não pude fazer nada.
No mesmo dia que ele deixou Ana aqui, fui em sua casa, mas ele não estava lá, tentei falar com alguns amigos dele, mas ninguém sabia de nada, não sei onde ele foi parar naquele dia, mas no dia seguinte ele estava em casa, só que morto.
Dou graças a Deus que não fui eu a achar ele naquela situação.
Naquela mesma manhã procurei a polícia e informei tudo o que tinha acontecido, então como era caso de vida ou morte, eles procuraram por ele, só não chegamos a tempo, ele já tinha acabado com tudo. Ter que preparar tudo para seu enterro um dia depois de perder minha cunhada me deixou sem chão. Eu perdi meu irmão, meu amigo, ele nunca mais iria voltar.
A vida deu uma virada e tanto, impressionante como num dia pode está tudo bem, e no outro, pessoas que você ama, pode estar morta.
Tento levar isso, pois só sobrou eu para cuidar de Ana, e não posso deixá-la sozinha. Ela precisa de mim assim como preciso dela para poder continuar. Ela aos poucos está tirando toda a dor em meu coração.
Tão pequena, mas com tantas tragédias acontecendo ao seu redor. Quero manter ela longe de tudo isso o tempo que eu puder. Ela vai ter tudo de bom que há em mim, nada de tristeza em sua frente, ela não merece passar por toda essa merda, Ana Júlia, minha pequena menina tem que crescer bem e saudável.
Saio do seu quarto, que montei todo para ela, deixando seu pequeno corpo descansar no berço azul bebê, as paredes pintadas de branco com desenhos de todos os tipos de animais espalhados. Mas antes que eu saia, deixo um beijo em seus cabelos que estão mais cheios.
Vou para meu quarto, e tomo um banho quente, fazendo meus músculos relaxarem. Visto meu pijama e vejo ser dez da noite, daqui a uma hora tenho que dar a mamadeira de Ana, então como ainda estou sem sono, sigo para o escritório, começo a editar algumas fotos.
Está um pouco difícil conciliar o trabalho e cuidar de Ana, na maioria das vezes eu trabalho de casa, e nas vezes que precisei ir para tirar fotos tive que levar ela comigo. Mas minha menina precisa de atenção o tempo todo, por isso estou pensando em contratar uma babá, para cuidar dela quando eu precisar sair para tirar as fotos e também para brincar com ela enquanto eu estiver em casa editando as fotos.
Mas posso deixar isso para depois, agora preciso terminar essas fotos desses modelos, pois semana que vem tenho que ir fotografar uma peça de balé no teatro, e acho que vou ter que levar Ana comigo.
Suspiro, não sei como, nem porque, mas parece que o acaso gosta mesmo de brincar com minha vida, fui de tio a pai em menos de algumas horas.
Antes de fazer a loucura que fez, Felipe deixou a guarda de Ana para mim, agora é apenas meu nome que está em sua certidão de nascimento, não sei porque ele fez isso, não sei porque a vida está fazendo isso comigo, não era para terminar assim, a vida deles dois não era para terminar assim, tão de repente e ainda deixando um ser pequeno e inocente para trás.
Ainda estou tentando me acostumar com tudo, em ser pai. Em estar sozinho.
Era meu sonho ter um filho, mas nunca imaginei que seria assim, que Ana seria minha filha de uma forma tão trágica e horrível. Dói saber que não tenho mais meu irmão comigo, que a única família que eu tinha está morta. Posso sentir meus olhos arderem, mas não posso me dar ao luxo de me sentir triste, como falei antes, Ana Júlia terá apenas o melhor de mim.
Vendo que falta pouco para as onze, saio do escritório e sigo para a cozinha, esquento o leite e vejo se está na temperatura adequada, não demora muito, estou subindo as escadas para o quarto da minha filha, foi difícil, mas quando vi, a estava chamando assim, minha filha.
Não vou dizer que sou milionário, mas tenho um bom dinheiro, daria para me viver tranquilo sem alguns anos trabalhando, mas a metade desse dinheiro é de Ana, e sem falar que gosto de trabalhar, minha casa não é uma mansão, mas é bem espaçosa e com um lindo quintal atrás, gosto bastante de ficar algumas tardes lá com Ana, vendo ela dar seus passos vacilantes pela grama enquanto penso em meu irmão e edito fotos.
Acho que vou adotar um cachorro, Ana vai gostar de ter um amiguinho para brincar, sem falar que gosto muito de cachorro, sempre quis um. Sorrio, sempre me pego fazendo planos para mim e minha pequena, acho que não tem mais volta, sinto no fundo do meu coração que Ana agora é minha, minha filha, a qual eu sempre sonhei. Mas não posso deixar de ficar triste de como as coisas aconteceram.
E de me sentir culpado também, por não ter conseguido impedir Felipe.
Entro no quarto que está bem iluminado por um pequeno abajur e sigo até o berço, vendo minha pequena toda largada, muito diferente de como estava a uma hora atrás, deixo a mamadeira ao lado da grande poltrona, em cima do pequeno móvel amarelo ao lado.
Pego o corpinho de Ana, e me acomodo na poltrona macia, faço um carinho em seus cabelos, e logo ela solta um chorinho.
- Mida, mida. - Fala toda manhosa e com sua vozinha de bebê que me derrete inteiro. Pego sua mamadeira e guio até sua boquinha e logo ela começa a tomar o seu leite.
- Pronto princesa. - Fico ali, admirando seus olhos azuis que se abriram conforme ela mamava, ela parece tanto com sua mãe e meu irmão, tem os cabelos loiros, assim como os meus e de Felipe, e os olhinhos azuis como os de Karla. Tão linda minha menina. A amo tanto, um amor inexplicável, parece que a cada dia ele se multiplica. Não deixando espaço para mais nada que não seja esse sentimento bom. Posso sentir meu coração expandir de tanto amor. Não sei explicar, mas parece que a cada dia que tenho ela em meus braços, fica mais forte a sensação de que ela é minha, me sinto sufocado com a sensação, como se faltasse algo, penso ser que me sinto culpado pelo meu irmão, mas já cheguei à conclusão de que não é isso, só posso aceitar esse sentimento, e cuidar da minha filha com minha vida. Pois é isso que ela está se tornando aos poucos, um pedacinho de mim, minha vida. Não vejo mais sentido em nada sem ela ao meu lado. - Vou te amar e proteger sempre minha pequena, eu te amo. - Mas um eu te amo é tão pouco para expressar meu sentimento por ela, o amor que tenho é tão grande, que não tem mesmo palavras que o defina. Só posso sentir e mostrar a ela a cada dia da minha vida.
Aos poucos ela termina sua mamadeira e fecha os olhinhos, fico mais algum tempinho com ela ali, esperando para que ela durma mesmo, faço carinho em seus cabelos, decoro cada cantinho do seu rosto angelical.
Me levanto com cuidado da poltrona, e a deito com cuidado, a enrolo com seu cobertor fofinho, cobrindo seu pijama de borboletas azuis. Deixo um beijo em sua testa, e viro de costas saindo devagar.
Pego a maçaneta da porta e vou fechando com cuidado, levando a babá eletrônica comigo, mas antes que eu feche a porta escuto seu choro baixinho, volto para dentro do quarto e vejo ela de pé, como essa menina se levantou tão rápido?
- Que foi bebê? Papai está aqui. - Falo baixinho me aproximando.
- Papa. - Ela fala chorosa, e paraliso no lugar, meus olhos enchendo de lágrimas, estou virando um bebê chorão, meu Deus. Mas também, foi a sua segunda palavrinha, e c*****o, foi logo papa. Ela me chamou de pai.
- Oh minha menina.
A pego no colo, e saio do seu quarto com ela com sua cabeça em meu pescoço abraçada a mim, no meio do caminho, vou falando baixinho com ela.
- Minha princesa, vai dormi com o papa hoje, ok?
- Mimi, papa. Pincesa. - Ela fala com um sorriso, aparecendo seus pequenos dentinhos, levantando a cabeça do meu pescoço. Rio feliz.
- Minha menina está aprendendo a falar mais palavrinhas. - Falo animado a jogando um pouco para o alto, mas não sem soltar sem corpo.
- Papa. Minina. Mimi, minina. - Ela fala dando gritinhos, e eu solto uma gargalhada, ela deve estar feliz com a descoberta das novas palavrinhas.
Sorrindo, deito em minha cama com ela em meus braços, ela demorou um pouco para dormi, pois ficava apontando tudo parecendo perguntar o nome e eu ia falando e ela tentando falar os nomes, alguns saindo embolados outros ela apenas desistia e soltava gritinhos e mãos babadas em meu rosto, fui dormi vendo seus olhinhos fechados, estava com um sorriso em meus lábios. Vendo minha menina dormi tranquila.
De uma vez por todas, eu teria que aceitar que Felipe e Karla não vão mais voltar.
Que eu e Ana, estamos sozinhos.