Fernando Mendez
Sinto mãozinhas em meu rosto, mas a preguiça está tanta que nem me mexo, apenas fico ali, mas logo as mãozinhas estão cutucando meu nariz como se fosse uma importante descoberta, pulo na cama, me mexendo inteiro e logo escuto o riso alto de Ana e ela joga seu corpinho sobre o meu. Um sorriso se abre em meus lábios, adorando esse som gostoso.
Abro meus olhos e volto a deitar minha princesa na cama, vendo os vários travesseiros do outro lado que coloquei ontem para que ela não caísse.
- Bom dia minha menina. - Viro de frente para ela, enchendo suas bochechas de beijos. E ela rir gostoso.
Mas logo meu sorriso some ao sentir o fedor.
- Não princesa, logo agora?
Pergunto em lamento, mas ela apenas rir.
- Mida. - Fala me olhando e mordendo seus dedinhos.
- Era para estar com bastante fome mesmo. Botou tudo para fora. Acho até que tem coisas aqui que você nem comeu.
- Mida, Mida. Mida. - Fala fazendo carinha de choro.
- Já entendi Ana, vamos tomar um banho antes.
Desço da cama e a coloco no chão, ela logo vai para o grande tapete macio que tem no meio do meu quarto, onde tem uns brinquedos espalhados dela.
Entro no banheiro e coloco a banheira para encher. Foi difícil nos primeiros dias me acostumar em dar banho, trocar a fralda, ou até mesmo da a comidinha dela. Eu era acostumado a passar não mais do que algumas horas com ela, não sempre. Mas no fim deu tudo certo, já estou até pegando o jeito. Dou uma espiada pela porta e vejo ela ainda no tapete. A banheira enche até a metade e coloco uns patinhos de borracha e um Olaf dentro, pego o shampoo, condicionador e o sabonete, deixando tudo ao meu alcance ao lado da banheira.
Tiro minha camisa enquanto sigo até Ana.
- Tomar banho Ana...- Antes que eu chegue e a pague ela sai correndo pelo quarto, suas perninhas curtas dando passos vacilantes. - Todo dia isso Ana Júlia?
Ela rir e tenta fugir de mim, mas como sou muito mais rápido, ela não vai longe, dando um gritinho quando a pego em meu colo, beijando sua barriguinha.
- Papa. Papa.
Rio com seu desespero, falar em banho ela sai correndo, mas só entrar na água que esquece tudo e não quer mais sair de lá.
A coloco no trocador que tem no banheiro, tiro sua fralda suja de cocô e a limpo com os lencinhos umedecidos, jogo a fralda no lixo e a coloco na banheira, a água está morninha e cobre quase toda a sua barriga, ela começa a bater as mãos na água, espalhando tudo e molhando meu peito, por isso sempre tiro a camisa antes de dar banho nela.
Minutos depois, ela já está cheirosa, a troco, visto um short e uma camisa de manga, e calço seus pés, penteio seus cabelos loiros os deixando soltos, pego sua mão e sigo para a cozinha, nas escadas desisto e a pego no colo.
Faço café, esquento pão com manteiga, e pego algumas frutas pinicadas na geladeira para Ana.
Ela está sentada em sua cadeirinha, e vou colocando os pedaços das frutas em sua boca, enquanto vou comendo meu pão e bebendo meu café.
Depois de estamos com a barriga cheia, vou para a sala e deixo Ana brincando no tapete com seus vários brinquedos, me sento no chão também com o notebook nas pernas e fico ali editando mais algumas fotos. Meu celular vibra e vejo ser uma mensagem de Julho. Meu amigo desde a faculdade.
“Vamos aquele parque perto da sua casa? Quero ver minha sobrinha linda, e Clara não para de me encher o saco, porque tem muito tempo que não nós vemos.”
Rio com meu amigo, nem tem tanto tempo assim, e Clara é sua irmã gêmea, não são tão parecidos, apenas os cabelos loiros e olhos verdes, mas de resto são muito diferentes, eu nem diria que são irmãos, Clara fez faculdade com a gente também, mas enquanto eu e Julho fazíamos fotografia ela fazia medicina. Somos melhores amigos desde então.
“Ela sabe que isso é mentira, nos vimos semana passada.”
“Para ela não importa, assim como para mim também, só quero ver minha bebê.”
“Sua não Julho, minha bebê. Encontro vocês lá daqui meia hora.”
Desligo o celular e olho para onde Ana está, a vendo brincar com umas peças de montar, odeio esses negócios, só servem para ela pisar em cima e se machucar, mas a médica dela disse que faz bem para o desenvolvimento dela, não podia ser brinquedos que não tivesse nenhum risco de machucar minha filha?
- Ana querida, vamos ver o Tio Julho, e a Tia Clara? Hein? O que acha?
- Tio, tio.
- É, e a Tia Clara também.
- Tia.
Com seus pequenos pés ela vem até mim, e a pego no colo, subo para seu quarto para vestir uma roupa mais quente, já que parece estar um pouco frio lá fora. Depois de Ana vestida, a deixo no chão do meu quarto com as coisas dela que tinha ali e visto uma calça e camisa de manga comprida preta.
Descemos já arrumados, levo uma pequena bolsa com um papa e uns biscoitinhos para Ana comer, assim como água e fraldas, a coloco no carrinho que estava largado na sala, e sigo para fora de casa.
O parque não é muito longe, uns 10 minutos andando e chego lá, me sento em um dos bancos e dou um biscoito para Ana comer a tirando do carrinho.
- Princesa do Tio. - Escuto a voz de Julho e olho em sua direção, vendo-o junto de Clara, eles aproximam.
Ana se anima em meu colo, estendendo seus bracinhos para Julho assim que ele está ao nosso lado, e ele logo a pega, a enchendo de beijos. Dou um abraço em Clara e nos sentamos no banco, Julho continua brincando com Ana em seu colo.
- Então como você está? - Pergunta Clara com seus intensos olhos verdes em minha direção. - E Ana, ela está se adaptando bem com as mudanças? - Solto um longo suspiro, olhando para as outras crianças brincando no escorregador enquanto seus pais estão um pouco longe os observando.
- Estou tentando, na primeira semana que foi difícil, eu praticamente não sabia de nada, e Ana as vezes acordava assustada no meio da noite, acho que de uma forma ou de outra, ela sentia falta dos pais. Mas estamos bem, hoje estamos.
- Acho que isso iria mesmo acontecer, ia demorar mesmo um pouco para vocês se adaptarem. Mas como você disse, hoje vocês estão bem, tenho certeza que não é 100%, mas estão bem.
- Sem contar que estamos aqui para você, não importa a hora ou o problema, vamos está ao seu lado para te ajudar. - Julho fala, e sinto as lágrimas quererem descer. Sinto falta da minha família, do meu irmão, que foi mais como um pai para mim. As lágrimas descem sem controle agora, já não posso mais segurar, a dor que quer sair, não aguento deixar mais esse sentimento de perda dentro de mim.
Ana Júlia parece se assustar com meus soluços sofridos, pois posso escutar seu choro e seu chamado por mim.
- Papa. Papa. - Fala enquanto chora e tenta vir para meu colo. Estendo meus braços a pegando e ela deita sua cabeça na curva do meu pescoço, passo minhas mãos por suas costas a acalmando e sinto seu cheiro gostoso de bebê, fazendo meu próprio choro parar.
Estão agora Clara e Julho cada um do meu lado, me apertando em um forte abraço triplo.
- Faz bem chorar Fernando, não prenda, quando quiser colocar para fora, apenas deixe sair. - Julho fala, agora passando sua mão em minhas costas, depois de nos afastamos do abraço.
- Obrigado gente, vocês são demais.
- Nós sabemos. - Eles dizem juntos, e isso arranca uma risada minha. Noto agora que Ana está dormindo.
- Ela dormiu. - Julho fala. - Ela é então linda e fofa.
- É sim, ela é muito linda. - Clara concorda.
Ficamos mais um tempo ali, jogando conversa fora, eles falam um pouco sobre seus trabalhos e Clara conta que terminou seu namoro com um cara que na minha opinião era um chato e um i****a. Claro que Julho concorda comigo, pois ele não aceitava o namoro desde o início, mas respeitava a decisão da irmã, e olha aí, o cara estava com outra, e Clara ficou sabendo pelas fotos que a mulher mandou para ela sem o i****a saber. E ainda bem que ela está livre do sujeito, quero a felicidade dos meus amigos. Apenas isso.
Julho estava enrolado com uma garota, mas era apenas diversão segundo ele, e que até já não se veem mais há uns meses. Então deixamos o assunto de lado.
Voltei para casa já nove horas da noite, pois depois do parque fomos a um restaurante ali perto, acabamos jantando por lá.
Ana chegou em casa desmaiada na sua cadeirinha de tanto que brincou com os tios hoje. Apenas acordei ela, molhei seu pequeno corpinho na água morna e vesti seu pijama, ela voltou a dormi no segundo seguinte.
Deitei em minha cama, me sentindo um pouco mais leve. Olho para o móvel ao lado da minha cama, e sei que dentro de um cofre escondido ali dentro tem a carta que Felipe deixou para Ana, não vou mentir em dizer que fiquei tentado a abrir, na minha cabeça talvez lá esteja uma explicação para o que ele fez. O porque ele nos deixou, sabendo que eu sofreria com sua perda, assim como Ana quando crescer e souber de sua mãe e sobre ele.
Ele devia saber que eu não iria aguentar mais uma perda.
Mas não abri, ele escreveu para Ana, não se importou com o que eu sentiria. E tudo bem, eu não entendia a dor dele, mas ele não poderia ir assim sem antes pensar nas pessoas que ele deixaria para trás. Isso foi c***l. E muito dolorido para mim.
Antes que eu comece a chorar, tomo um banho e visto meu pijama, me enrolo em meu edredom, e fico ali, daqui a uma hora teria que me levantar para dar o leite de Ana, mas sinto meus olhos pesados, tirar um cochilo antes não faria m*l.
Acabo dormindo, acordando com o choro de Ana na babá eletrônica ao meu lado, levando meio grogue e faço a mamadeira de Ana, depois que ela volta a dormi, me certifico se sua fralda não está muito cheia, e caio na cama de novo, dormindo logo em seguida.