Adoção

1283 Words
POV Luna Era uma manhã comum quando meus pais saíram para uma entrevista de emprego. Eles disseram que voltariam na sexta-feira, que tudo daria certo e que a nossa vida tomaria outro rumo. Eu estava na escola, sonhando com as mudanças que estavam por vir — uma nova cidade, uma nova casa, novas amizades. Tinha 12 anos, e o futuro parecia ser um campo de possibilidades infinitas. Nunca imaginei que aquele sábado nunca chegaria. O telefone tocou no meio da tarde, e meu coração já sabia o que estava prestes a acontecer. As palavras que vieram em seguida se tornaram uma mistura indistinta de dor e incredulidade. Um acidente de carro. Uma curva escorregadia. Meus pais… foram embora. Para sempre. Não houve velório. Não houve despedidas. Apenas uma notícia fria e impessoal que destruiu o meu mundo. A casa que antes era cheia de risos e abraços agora estava vazia. Eu não sabia o que fazer, não sabia como lidar com aquilo. Minha vida virou ruínas e o único lugar que restava para me abrigar era a casa de Helena, a melhor amiga da minha mãe. Ela tentou ser gentil, fez promessas de que tudo ficaria bem, mas como poderia ficar? Como alguém pode se acostumar com a perda? Quando cheguei à casa dela, senti que era um lugar estranho. Um lugar onde não pertencia. A única coisa que me conectava a aquele lugar era o fato de que meus pais estavam agora em algum lugar distante, sem volta. Helena me mostrou o quarto que seria meu, me disse que poderia ficar à vontade, mas eu sentia que as paredes estavam me observando. Não havia como preencher o vazio que meus pais haviam deixado, e nada naquela casa parecia me acolher da maneira que eu precisava. Eu estava fora de lugar. Eu estava sozinha. Enquanto me deitava na cama, tentando ignorar o peso no peito, vi Noah. Ele estava do lado de fora, mexendo com algo no jardim, os fones de ouvido sempre nos ouvidos, o olhar distante, como sempre. Ele nunca me olhou como algo além de uma criança, sempre me tratou como a "pirralha tagarela" das festas de domingo. Para ele, eu era uma distração, uma presença que ele precisava tolerar. Eu o observei por um momento, mas ele nem me notou. Para Noah, eu era uma intrusa, e ele não sabia o quanto isso me doía. POV Noah Aquela situação era desconfortável. Não que eu fosse algum especialista em lidar com a dor, mas, no fundo, sabia que tudo o que estava acontecendo estava mexendo comigo de um jeito que eu não queria admitir. Luna tinha vindo para a nossa casa. Ela não pediu, mas sua presença estava ali, no meio do meu espaço, naquele lugar que sempre foi só meu. Luna era a filha da melhor amiga de minha mãe, a garota que sempre invadia as festas de domingo, fazendo perguntas e tentando se enturmar. Ela tinha 12 anos, e sempre a vi como uma criança. Mas agora… ela estava aqui, vivendo sob o mesmo teto que eu, forçada pela vida a ocupar o lugar de uma filha que não a havia pedido. Não sabia lidar com isso. Fiquei no jardim, tentando me afastar de tudo. O som dos fones de ouvido me ajudava a bloquear os pensamentos. Não queria ser c***l, mas não sabia como lidar com a situação. Eu sabia o que ela estava sentindo. A dor da perda, a confusão, o vazio. Mas o problema era que eu também estava perdido. Não queria me envolver, não queria mostrar fraqueza, não queria ser o tipo de pessoa que ela precisaria. Eu não sabia lidar com ninguém. Nem com ela, nem comigo mesmo. Quando me virei, olhei em direção à janela do quarto de hóspedes. Ela estava lá, deitada, provavelmente perdida em seus próprios pensamentos. Eu queria acreditar que ela estava forte, que ela não precisaria de mim. Mas a verdade era que ninguém naquele lugar estava realmente forte. Estávamos todos tentando entender o que aconteceu, tentando encaixar as peças do quebra-cabeça da vida que se desfizeram. Me afastei da janela e entrei na casa, afastando de mim os sentimentos que estavam começando a crescer, algo que eu não queria enfrentar. Tudo o que eu queria era fugir disso, voltar para o meu casulo de silêncio. Não sabia como ser o irmão mais velho, o protetor. Eu não sabia como ser nada. POV Luna Naquela noite, deitei na cama, sentindo um frio estranho no peito. O silêncio da casa de Helena era pesado. Não importava quantas vezes eu me virasse, não conseguia encontrar conforto. Eu sentia uma saudade que não podia ser preenchida. Meu corpo se encolhia sob as cobertas, mas a dor era insuportável. Como seguir em frente quando o meu mundo tinha sido arrancado de mim sem aviso? Era estranho estar naquela casa. Eu sabia que eles queriam me ajudar, mas não podia ignorar a sensação de ser uma intrusa. O calor da casa não era o mesmo que eu sentia na casa dos meus pais. O cheiro, os sons, até mesmo a maneira como as pessoas se moviam parecia diferente. Olhei para a janela e vi Noah novamente, agora do lado de fora, sentado na varanda. Seus fones de ouvido estavam lá, mais uma vez, e ele estava distante, como sempre. Ele nunca falava muito, mas eu sabia que ele sentia a dor que eu sentia. Apenas ele não sabia como lidar com ela. E talvez, em algum lugar dentro de mim, eu sabia que ele também não queria saber. Mas havia algo mais que me incomodava. A cada olhar que trocávamos, eu sentia que havia uma barreira invisível entre nós, uma distância que não podia ser superada. Ele não me via como alguém com quem pudesse compartilhar suas dores. Eu não sabia se isso me fazia sentir ainda mais sozinha ou se era simplesmente a realidade que eu tinha que aprender a aceitar. POV Noah Eu estava em um lugar sem saída. Naquela noite, não consegui fugir de meus próprios pensamentos. Luna estava na casa, e eu não sabia o que fazer com ela. Eu queria fingir que não importava, queria seguir com a minha vida como se nada tivesse mudado. Mas tudo estava diferente agora. E, no fundo, eu sabia que minha vida não seria mais a mesma. Quando olhei para o lado e vi Luna observando pela janela, algo estranho mexeu dentro de mim. Ela estava perdida, mas eu não conseguia me aproximar. Não podia. A dor dela, a dor que ela carregava, era uma coisa que me tocava profundamente. Eu não queria me envolver, mas, ao mesmo tempo, sabia que não podia deixá-la sozinha. Mas o que eu faria por ela? O que eu poderia fazer? A resposta me parecia óbvia: nada. Não estava preparado para me abrir com ninguém. Nem mesmo com ela. Olhei para o céu e senti uma leve brisa tocando meu rosto. Tentei me concentrar no que eu podia controlar, mas percebi que nada estava realmente sob meu controle. Nem mesmo o que eu sentia. POV Luna O tempo parecia parar e, ao mesmo tempo, acelerar. Eu não sabia mais o que fazer com a dor que carregava. Os dias passavam e, mesmo na presença de todos, eu me sentia isolada. A casa de Helena não era um lar, e Noah, mesmo ali perto, parecia mais distante do que nunca. A única coisa que me restava era tentar seguir em frente, mesmo sem saber como. Talvez, um dia, as coisas se ajeitassem. Talvez eu fosse capaz de encontrar algum tipo de paz. Mas, por enquanto, eu estava perdida. E isso parecia ser tudo o que eu sabia.
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