POV Luna
Eu nunca fui boa com silêncios.
Os silêncios da minha casa antiga eram sempre cheios de vida. Eram pausas entre risadas, entre o som das panelas e da televisão ligada no volume baixo. Eram silêncios seguros, de quem sabe que logo vem um abraço, ou uma voz familiar chamando da cozinha. Aqui... o silêncio era outro. Tenso. Estranho. Quase hostil.
A primeira noite na casa dos Moreira foi um amontoado de sensações desconfortáveis. Eu me sentia como um quadro fora do lugar, pendurado torto em uma parede que não me pertencia. E, por mais que Helena tentasse me acolher com palavras doces e um sorriso que tremia nos cantos, havia algo naquele lar que gritava que eu era apenas... temporária.
Minha nova cama era grande demais. O quarto cheirava a amaciante e lavanda, diferente do cheiro de sabão de coco e perfume floral que costumava impregnar minhas coisas. Tudo era limpo, bonito, arrumado — e, ainda assim, me senti como se estivesse num quarto de hospital. Fria. Sozinha. Vazia.
Tirei os sapatos devagar e sentei na beirada do colchão. Estava escuro, mas eu não tinha vontade de acender nenhuma luz. Talvez porque, no escuro, eu não precisava encarar nada. Nem o teto estranho. Nem as paredes que não conhecia. Nem a ausência que me engolia aos poucos.
Tirei da mochila uma camiseta antiga do meu pai. Ainda cheirava a ele. Um pouco de suor, um pouco de café, um pouco de tempo. Apertei contra o rosto. E foi só então que chorei pela primeira vez desde a notícia.
Chorei baixinho, como se tivesse vergonha da dor. Como se chorar demais fosse desrespeitar a casa que me recebeu. Mas o luto não tem modos. Ele vem com tudo. Ele quebra a gente por dentro e espera que a gente continue em pé.
Do lado de fora da janela, escutei passos. Me levantei devagar, puxei a cortina só um pouquinho.
Noah estava lá.
Sentado no chão da varanda, com os fones enfiados nos ouvidos, a cabeça encostada no corrimão e os olhos perdidos em algum lugar que eu não podia alcançar. Ele parecia tranquilo por fora. Mas eu sabia. Eu sabia que aquilo era um tipo de armadura.
Eu conhecia Noah desde os meus sete anos. E mesmo pequena, eu já tinha me encantado com aquele jeito meio fechado, meio arredio, como se ele fosse feito de sombra e mistério. Ele sempre me viu como a pirralha que não calava a boca, que se enfiava nas rodas dos mais velhos e tentava participar da conversa. Ele me ignorava, claro. Às vezes me lançava um olhar preguiçoso, às vezes revirava os olhos. Mas nunca me viu de verdade.
Mas agora... agora éramos só nós dois.
Dividindo o mesmo teto. A mesma dor. O mesmo silêncio.
Tive vontade de sair do quarto. De ir até ele. De perguntar se ele também sentia o peso daquela noite insuportável. Mas fiquei parada, com a testa encostada no vidro, observando ele como quem observa uma estrela cadente — bonita, rápida, distante demais pra alcançar.
Voltei para a cama.
Me enrolei nos lençóis como quem procura um abraço. Apertei os olhos e pedi aos céus, em pensamento, que aquilo fosse um sonho r**m. Que meus pais voltassem, que nada daquilo tivesse acontecido, que eu pudesse ouvir a risada do meu pai e o cantarolar descompassado da minha mãe na cozinha. Mas o vazio não respondia.
E o silêncio seguia doendo como nunca.
Helena bateu à porta mais tarde. Me trouxe um copo de leite morno com dois pequenos biscoitos, e disse que, se eu quisesse conversar, ela estaria acordada. Assenti com a cabeça. Agradeci. Sorri sem mostrar os dentes. Não consegui beber, não consegui comer. O copo ficou na cabeceira até amanhecer.
Ali, deitada em uma cama estranha, em uma casa que não era minha, percebi uma verdade dolorosa: minha vida como eu conhecia havia acabado. E ninguém sabia o que fazer comigo agora.
Nem eu.
Principalmente eu.
Acordei no meio da madrugada com o som de alguma porta sendo fechada. O coração disparou. Meus olhos correram pelo quarto escuro. Por um momento, não reconheci onde estava. A mente me pregando peças. Tentei respirar fundo, lembrar de que não estava mais na minha casa, de que tudo havia mudado.
Coloquei os pés no chão frio e fui até a janela de novo.
Noah ainda estava na varanda.
Dessa vez de pé, fumando. A fumaça subia em espirais lentas, e os olhos dele estavam semicerrados, como se estivesse tentando ler alguma coisa nas estrelas.
Havia tanta dor naquele garoto.
Mas ele escondia bem.
Talvez por isso eu sempre tenha me sentido atraída por ele, mesmo pequena. Ele era feito de um silêncio que eu queria entender. De uma tristeza que me chamava. E, naquela noite, no meio da minha própria escuridão, senti vontade de sentar ali ao lado dele. Só pra não me sentir tão sozinha. Só pra dividir a dor com alguém.
Mas eu sabia que ele não deixaria.
Noah era feito de distâncias. E eu… eu ainda era só uma estranha na casa dele.
Deitei de novo. Apertei a camiseta do meu pai contra o rosto. E sussurrei baixinho para ninguém ouvir:
— Eu não quero estar aqui...
As lágrimas vieram de novo, salgadas, teimosas. O travesseiro absorvia tudo, como se fosse cúmplice do meu luto.
E mesmo cercada de paredes, de móveis, de uma nova família... eu nunca me senti tão invisível.
Tão desabrigada. Tão perdida.
Chorei muito durante a noite, agarrei a camisa do meu pai, com força, como se isso fosse traze-lo de volta, deixei que as lágrimas caíssem silenciosamente.
Pensei em me distrair, imaginando os momentos bons que passamos, aprendo a andar de bicicleta, a primeira queda, os joelhos ralados, os cuidados excessivos da minha mãe - dei um sorriso involuntário nesse pensamento - minha mãe era realmente muito protetora até demais.
Meu pai era mais tranquilo, apenas sorria e pedia para eu levantar, dizia ele que as quedas da vida eram piores.
Agora eu imagino o que ele quis dizer.