POV Noah
A presença dela era barulhenta, mesmo em silêncio.
O tipo de silêncio que grita. Que pesa.
Desde o momento em que minha mãe abriu a porta e Luna entrou com aquela mochila nas costas e o olhar de quem já tinha perdido tudo, a casa ficou... diferente. Como se o ar mudasse. Como se o som do mundo inteiro diminuísse só pra destacar a respiração dela ali dentro.
Não era a primeira vez que ela vinha aqui. Longe disso. Luna fazia parte da minha rotina desde que éramos crianças. Ela era aquela figurinha que aparecia com os joelhos ralados, as trancinhas bagunçadas e os olhos cheios de histórias — mesmo quando ninguém pedia por elas. Era irritante. E, de algum jeito, essencial.
Mas agora ela estava em silêncio.
E isso me incomodava de um jeito que eu não tava preparado.
Não porque eu sentia falta do falatório – embora talvez sentisse, mas eu nunca admitiria isso em voz alta nem sob tortura. Me incomodava porque aquele silêncio era o mesmo que eu carregava há anos. Um silêncio pesado, que não nasce da paz, mas da dor. Da perda. Do vazio.
Naquela noite, depois que minha mãe foi dormir, eu fiquei na varanda. A música no volume máximo, como sempre. O cigarro entre os dedos. Só uma desculpa pra não entrar. Pra não sentir demais. Eu fazia isso sempre. O barulho me ajudava a abafar o que grita aqui dentro.
Foi quando vi a cortina do quarto de hóspedes se mover.
Instinto. Olhei.
Luna me observava.
Por um segundo, nossos olhos se cruzaram. Um segundo longo. Denso.
Ela logo se escondeu de novo, como se eu não tivesse percebido.
Mas percebi.
Claro que percebi.
E aquilo me atingiu de um jeito estranho, desconfortável. Como se alguém tivesse enfiado a mão dentro do meu peito e apertado.
Ela sempre me olhou como se eu fosse alguma coisa especial. Mesmo quando era só uma pirralha metida. Mas agora, aquele olhar era outro. Um que eu não sabia decifrar. Era tristeza? Medo? Esperança?
Era tudo isso e talvez mais um pouco.
Era o olhar de quem perdeu o chão, mas ainda quer se agarrar a alguma coisa.
Voltei pro meu quarto antes de perder o controle. Antes de fazer alguma besteira.
Deitei na cama e fiquei encarando o teto.
Pensando nela.
Naquele olhar.
No jeito como ela andava pela casa com os ombros encolhidos, tentando desaparecer.
Na forma como segurava a camiseta velha do pai — vi isso mais cedo, quando ela deixou a porta meio aberta por descuido.
Ela a apertava como se aquilo fosse a única coisa que ainda a mantinha inteira.
E talvez fosse mesmo.
Me virei na cama. Me virei de novo.
Nada de sono.
A imagem dela naquela janela, o cabelo bagunçado, o rosto meio escondido pela sombra... não saía da minha cabeça.
Ela parecia tão pequena.
Tão frágil.
Mas já não era.
Eu sabia disso.
E é aí que começa o meu problema.
Na manhã seguinte, desci antes de todo mundo.
A cozinha estava silenciosa, como sempre.
Peguei uma maçã, fui até o sofá, liguei a TV no mudo. Era só ruído visual. Algo pra ocupar a visão enquanto a mente gritava — porque gritar por dentro é rotina por aqui.
Luna apareceu logo depois.
De moletom largo, olhos inchados, pés descalços.
Sentou à mesa sem falar nada.
E eu, pela primeira vez em anos, quis dizer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas as palavras travaram na garganta. Eu não sabia o que se diz a alguém que perdeu os pais.
Ainda mais quando eu próprio nunca soube como lidar com os meus.
Minha mãe chegou na cozinha com aquele olhar de “vamos tentar agir normalmente”. Ela começou a preparar o café como se fosse só mais um dia. Como se fosse possível ignorar a presença do luto ali na sala. Como se a dor não tivesse estacionado no meio da casa feito um elefante.
— Dormiu bem, Luna? — ela perguntou.
Luna assentiu. Um aceno quase invisível, mas carregado.
E eu, i****a como sempre, fui até a janela fingindo que não escutava. Mas escutei.
Cada palavra não dita.
Cada silêncio carregado.
É impressionante o quanto o silêncio pode fazer barulho quando você já tá quebrado.
Mais tarde, quando Luna subiu pro quarto, passei pelo corredor e vi a porta aberta.
Ela estava sentada no chão, organizando algumas fotos.
De costas pra mim, concentrada.
Um dos álbuns era dos nossos churrascos de domingo.
Eu lembrava daquilo.
Do jeito que ela corria atrás do cachorro com as trancinhas voando.
Dos meus amigos zombando da “menininha apaixonada”.
Sim. A gente percebia.
Eu percebia.
Ela me olhava diferente desde sempre.
Mas naquela época era fácil ignorar.
Ela era criança.
Eu era adolescente.
Era fácil colocar tudo isso numa caixa, trancar e fingir que não existia.
Agora...
Agora ela era só três anos mais nova.
E aqueles olhos continuavam os mesmos, mas tinham ganhado uma profundidade que não existia antes.
Como se cada lágrima que ela segurou tivesse cavado mais fundo o espaço dentro dela.
E isso me assombrava.
De verdade.
Porque ver alguém quebrado de um jeito que se parece tanto com o seu... mexe com você.
No fim da tarde, cruzamos no corredor.
Ela vinha com uma toalha no ombro, provavelmente do banho.
Quase esbarrou em mim.
E pela primeira vez, desde que chegou, ela falou comigo.
— Oi, Noah.
Era só isso. Um “oi” murcho, mas cheio de coisa.
Um “oi” que doeu mais do que qualquer grito.
Respondi com um aceno curto, tentando não encarar demais.
Mas encarei.
Vi o jeito que os olhos dela procuravam alguma coisa em mim.
Apoio? Consolo? Familiaridade?
Não sei.
Só sei que eu não sabia dar nada daquilo.
Mas senti.
Por dentro, alguma coisa apertou.
Ela me passou, e por um segundo, senti o perfume dela.
Suave. Quase doce. Quase... caseiro.
E o cheiro me lembrou de outra época.
De quando ela corria desajeitada com os cadarços soltos e dizia que ia se casar comigo quando crescesse.
Cresceu.
E agora a pergunta era outra: o que eu faço com essa menina crescida que carrega os pedaços da infância perdida no peito?
Mais tarde, minha mãe comentou comigo:
— Ela vai precisar de você, Noah.
Fingi que não entendi.
Dei de ombros.
Fui pro quarto.
Mas aquela frase ficou.
Martelando.
Rasgando.
Vai precisar de você.
O problema é: e se eu também precisar dela?