Conexão Instantânea

1096 Words
POV Luna Naquela noite, o barulho da chuva batendo contra a janela parecia vir de dentro de mim. Eu sempre gostei de chuva. Sempre me acalmou, me fez sentir abraçada pelo mundo, mesmo quando tudo parecia fora do lugar. Mas agora... agora ela só fazia ecoar ainda mais o vazio que eu carregava. Cada gota era como uma lembrança martelando no meu peito. Tentei dormir, mas os olhos não fechavam. A cabeça não parava. E o coração... bom, o coração estava estraçalhado. Levantei da cama, abracei o travesseiro e me sentei no chão, encostada na parede. Fiquei ali, olhando para o teto, para o nada, para dentro. Pensando em tudo e em coisa nenhuma. Foi quando ouvi passos no corredor. Meu corpo ficou tenso. A maçaneta girou devagar. Meu coração disparou, imaginando que fosse Helena vindo ver se eu precisava de algo. Mas não era. Era Noah. Com os cabelos bagunçados, a camiseta preta amassada, os olhos cansados. — Tá tudo bem? — ele perguntou, parado na porta, a voz baixa, quase um sussurro. Assenti. Menti. Claro que menti. Mas ele me olhou por mais um segundo, depois entrou devagar. Fechou a porta atrás de si como se o mundo lá fora não pudesse mais entrar ali com a gente. Sentou no chão ao meu lado, sem dizer nada. E aquilo... aquilo foi tudo. A presença dele era silenciosa, mas de algum jeito, fazia o quarto menos frio. Ficamos assim por um tempo. Apenas respirando no mesmo compasso. E, quando percebi, minha cabeça havia encostado no ombro dele. Ele não se mexeu. Não afastou. Não zombou. Apenas ficou. Então, sem olhar, sem planejar, sem pensar — estendi a mão. E ele pegou. A mão dele era quente. Firme. Real. A primeira coisa real que senti desde o dia em que meus pais se foram. Naquele instante, um laço invisível se criou entre nós. E não era romântico. Não ainda. Era algo mais primitivo, mais essencial. Era um pedido silencioso: "fica comigo, só por hoje". E ele ficou. Dormimos ali mesmo. No chão. De mãos dadas. Como duas crianças tentando enganar a dor. Como dois náufragos se agarrando a um pedaço qualquer de madeira. Na manhã seguinte, ele já tinha ido quando acordei. Mas o calor da mão dele ainda estava na minha. E pela primeira vez em dias... eu senti que talvez, só talvez, eu não estivesse tão sozinha assim. POV Noah Era por volta de duas da manhã quando ouvi passos leves pelo corredor. Não era minha mãe — ela andava arrastando os chinelos. Também não era o vento. A chuva do lado de fora batia forte, mas havia outro som ali, mais sutil. Como um respirar cansado, uma presença tentando não existir. Abri a porta devagar, sem fazer barulho. O corredor estava mergulhado na penumbra, só um facho de luz da rua atravessava a janela. Caminhei até a porta do quarto onde Luna estava. Não sei o que me puxou até ali. Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse aquele aperto no peito que não me largava desde que ela chegou. Girei a maçaneta com cuidado. A porta cedeu sem estalo. Luna estava acordada. Sentada no chão, encolhida junto à parede, com o travesseiro abraçado ao peito e os olhos vermelhos — mas não chorando. Era o tipo de olhar que vem depois das lágrimas. Quando a alma já cansou de gritar. Ela nem se assustou ao me ver. Só ergueu os olhos devagar. E, por um segundo, fiquei paralisado. Aquela não era a menininha das trancinhas. Era alguém que tinha vivido mais em alguns dias do que muitos em anos. — Tá tudo bem? — foi tudo o que consegui dizer. e******o. Claro que não estava tudo bem. Ela assentiu, e aquilo partiu alguma coisa dentro de mim. O jeito que ela mentia com os olhos. Como se estivesse pedindo que eu não insistisse. Mas não consegui ir embora. Fechei a porta atrás de mim e me sentei no chão, ao lado dela. A alguns centímetros de distância. Senti o calor do corpo dela, mesmo sem tocá-la. A presença dela era feita de silêncio, mas era o tipo de silêncio que gritava. Durante alguns minutos, não dissemos nada. Eu a observava de canto de olho, tentando não ser invasivo. Ela segurava o travesseiro como se fosse tudo o que lhe restava. As mãos pequenas apertadas contra o tecido, os ombros tensos, o olhar perdido em algum lugar muito longe dali. E então aconteceu. Ela estendeu a mão. Sem palavras. Sem hesitação. E eu... eu peguei. Não sei por que fiz aquilo. Meus instintos sempre me mandaram afastar. Sempre. Mas algo nela me atravessava. Como se, mesmo sem saber, eu reconhecesse a dor dela como uma extensão da minha. A mão dela era fria, um pouco trêmula. A minha... eu não sei. Eu só segurei. E foi como se, naquele instante, algo finalmente fizesse sentido. Não como um casal. Não como romance. Mas como dois pedaços quebrados tentando não afundar. Ela encostou a cabeça no meu ombro. Fechei os olhos. A respiração dela, no começo, era descompassada. Mas aos poucos foi se acalmando. E a minha também. Estávamos ali, dois estranhos íntimos, sem saber como dar nome àquilo que nascia entre nós. Depois de um tempo, ela dormiu. Eu não consegui. Fiquei ali, com a cabeça encostada na parede, ouvindo o som da chuva e o ritmo da respiração dela. E pensei em como a vida pode ser c***l. Em como uma curva errada pode transformar uma criança sorridente em uma sombra no canto do quarto. Ela ainda era bonita, mesmo assim. Uma beleza triste, delicada, frágil. E eu... eu não queria admitir, mas senti uma vontade irracional de protegê-la. Não como um irmão. Não como um amigo. Só... proteger. Estar ali. Ser abrigo. A madrugada passou devagar. O chão começou a doer nas costas, mas eu não me mexi. Porque ela ainda segurava minha mão. Como se aquilo fosse a única coisa firme no meio do caos. E, por algum motivo que eu não entendia, eu queria continuar sendo isso. Mesmo que só por uma noite. Quando amanheceu, soltei a mão dela com cuidado. Levantei sem fazer barulho. Cobri ela com o edredom antes de sair. E parei por um segundo na porta para olhar uma última vez. Ela parecia em paz. E eu... não sei o que era aquilo que apertava meu peito. Só sabia que aquela menina já não era só a filha da melhor amiga da minha mãe. Ela era parte de alguma coisa que eu ainda não tinha coragem de encarar.
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