Briguinhas e Proteção

1068 Words
POV Luna O tempo tem um jeito estranho de deformar as memórias. Às vezes, uma tarde comum vira uma lembrança doce. Outras vezes, uma dor pequena vira um monstro gigante. Mas tem certos momentos que continuam exatamente como foram — como se o coração tivesse tirado uma foto e guardado pra sempre. Esse dia foi um deles. Eu devia ter uns nove anos. Era outono — lembro disso por causa das folhas secas espalhadas pelo pátio da escola, como confetes tristes jogados no chão depois de uma festa que ninguém quis lembrar. O vento passava e fazia elas dançarem, rodopiando ao redor dos nossos pés pequenos, sujos de areia. Aquele dia começou como qualquer outro. Aula de matemática logo cedo, lanche na mochila (um pão com queijo que minha mãe sempre insistia que eu comia frio), e o professor de ciências com aquele jeito de quem achava que a gente era uma espécie alienígena difícil de decifrar. E, como sempre, o grupo de meninas do terceiro ano implicando comigo. “Elas só têm inveja porque você é fofa”, minha mãe dizia. Mas ser chamada de “pirralha esquisita” todos os dias fazia o espelho discordar. Eu me olhava e via só uma menina magricela, com o cabelo preso num r**o de cavalo frouxo, o tênis surrado e os olhos sempre meio assustados. Ser "fofa" parecia uma palavra bonita demais pra mim. Naquela tarde, tudo piorou. Uma das garotas me empurrou perto do bebedouro. Eu caí, claro. Ralei o cotovelo. De novo. Sempre o mesmo cotovelo. E, claro, chorei. Porque era isso que eu fazia naquela época: caía e chorava. Como um disco arranhado da infância. Mas não foi isso que marcou aquele dia. Foi quem apareceu depois. Noah. O Noah do quinto ano. O grandão do cabelo bagunçado, como algumas das meninas chamavam. Sempre com os fones no pescoço, andando como quem tinha nascido cansado do mundo. Ele era diferente. Calado. Meio bravo com tudo. Com os olhos escuros demais pra idade e uma expressão de quem já tinha vivido coisas que criança nenhuma devia conhecer. Eu nem vi ele chegar. Só senti a presença. Como se o ar tivesse mudado. Ele não falou comigo. Não me ajudou de imediato. Só ficou ali, parado, com os olhos fixos na menina que tinha me empurrado. Ela tentou rir, tentou bancar a corajosa... até ele dar um passo à frente. Um só. E bastou. — Encosta nela de novo — ele disse, com a voz baixa, grave — e eu juro que você vai chorar mais que ela. A frase foi curta. Mas entrou como um trovão na cabeça da menina. Ela empalideceu e saiu correndo. As outras seguiram, como um bando de passarinho assustado. E ele... ele apenas me olhou de cima, como se tivesse cumprido uma tarefa da lista. — Para de chorar — disse, estendendo a mão. Eu peguei. Mesmo com o rosto molhado. Mesmo com o orgulho em pedaços. Mesmo com a vontade de sumir. Peguei porque... porque no fundo, naquele gesto rude, tinha algo que eu entendia: ele se importava. Mesmo que nunca fosse dizer isso em voz alta. Depois daquele dia, as meninas nunca mais encostaram em mim. O Noah também nunca mais falou sobre aquilo. Mas, dentro de mim, alguma coisa mudou. Algo se acendeu. Comecei a olhar pra ele de um jeito diferente. Não só como o irmão do meu quase-primo, nem como o garoto fechado dos churrascos de família. Comecei a vê-lo como alguém que enxergava — mesmo quando fingia estar cego. E, sem saber, foi ali que começou. Aquela sensação estranha no peito. Aquela mistura de admiração, gratidão e... alguma coisa que eu não tinha idade pra entender. Talvez amor. Ou o primeiro suspiro dele. Mesmo que ele continuasse me tratando como a garotinha chata que não parava de falar. Mesmo que fingisse que não ligava. Eu sabia. No fundo, ele me via. E, naquela fase da vida, isso bastava. POV Noah Eu a vi no chão antes mesmo de ouvir o choro. Não era alto. Era um som contido, abafado, quase como se ela tivesse vergonha de pedir socorro. O tipo de choro que não implora por consolo — só quer desaparecer. E eu não pensei. Só fui. Não foi por heroísmo. E, sinceramente, nem foi por ela. Foi por mim. Por algum motivo que eu ainda não entendo, ver Luna machucada me tirava do eixo. Ela era irritante, falante, cheia de perguntas bestas que me deixavam com dor de cabeça... Mas também era pequena demais pra esse tipo de maldade. Pequena demais pro mundo real. Quando ameacei a menina, não foi só proteção. Foi raiva. Uma raiva antiga, que surgia toda vez que alguém fazia ela chorar. E quando ela pegou minha mão, com aquele rosto molhado e os olhos arregalados de surpresa... Por um segundo, eu senti paz. Uma coisa boa. Tranquila. Como se tivesse acertado alguma coisa pela primeira vez. E foi por isso que fui embora tão rápido. Porque eu não sabia lidar com paz. Nunca soube. POV Luna Depois daquele dia, as meninas pararam de me chamar de “pirralha esquisita”. Elas não me amaram. Não pediram desculpas. Não mudaram de repente. Só... me deixaram em paz. E isso já era muita coisa. O Noah também nunca tocou no assunto. Pra ele, pareceu só mais uma terça-feira qualquer. Mas dentro de mim, o mundo virou de cabeça pra baixo. A forma como eu o via mudou. A forma como meu coração acelerava quando ele passava pelo corredor da escola com os fones no pescoço, parecendo sempre prestes a sair dali pra algum lugar muito mais importante. Ele virou o meu escudo silencioso. O meu não-herói, que aparecia só quando mais importava. Foi ali, naquele dia cinza de outono, que a sementinha foi plantada. Aquela que, anos depois, cresceria como uma árvore torta — cheia de galhos de caos, folhas de amor e raízes profundas em algo que nem eu sabia nomear. Porque o Noah nunca foi só um garoto. Ele era o barulho que calava minha dor. O silêncio que gritava por mim. O caos que protegia. Mesmo que ele mesmo não soubesse disso. E mesmo que tenha levado anos pra eu entender o que aquilo significava... No fundo, foi naquele momento — naquela tarde fria e cheia de folhas no chão — que meu coração escolheu. Escolheu ele.
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