POV Noah
Tinha dias que eu me perguntava o que era pior: o silêncio da casa desde que ela chegou ou o barulho que a presença dela fazia dentro de mim.
Luna estava aqui há quase dois meses. No começo, tentei fingir que não fazia diferença. Ela era só uma menina — frágil, retraída, tentando se encaixar onde claramente não pertencia. Um corpo pequeno num espaço que parecia grande demais. Mas com o tempo… ela começou a se misturar nas frestas. A aparecer nos detalhes.
A mochila dela na sala. O rastro de perfume de framboesa no corredor. A risada baixa quando assistia desenhos no fim da tarde. E, principalmente, a maneira como ela andava pela casa como quem pede desculpa por existir.
E aquilo me incomodava.
Me incomodava mais do que deveria.
Eu dizia a mim mesmo que era só convivência. Que ela me atrapalhava. Que eu sentia raiva da invasão. Mas a verdade era outra. A verdade era que ela me desmontava, e eu não sabia como lidar com isso.
O que eu também não sabia era lidar com o que acontecia fora daqui.
Na escola, Luna ainda era a “nova”. A órfã. A garota quieta demais. Eu ouvia os cochichos. Crianças são cruéis — aprendi isso cedo. Mas sempre achei que ela saberia se virar. Que aquele jeito dela de parecer invisível a protegeria.
Mas não.
Era no intervalo que acontecia.
Meninos — idiotas que achavam que bater com a mochila ou roubar o lanche de alguém fazia deles engraçados — passaram a implicar com ela. Primeiro, era só provocação. Um apelido aqui, um esbarrão ali. Eu vi. Eu ouvi. E ignorei. Porque eu achava que não era problema meu.
Só que Luna não reagia. Não batia de volta. Só abaixava os olhos e engolia tudo em silêncio.
Até o dia em que ouvi um deles dizer:
— “Sua mãe não deve ter te amado mesmo, pra morrer e te deixar.”
O sangue ferveu.
Nem pensei.
Atravessei o pátio num impulso. Encontrei o moleque — Felipe, do meu ano, metido a valentão — encostado na árvore com dois amigos. Bati no ombro dele com força e, quando ele virou, acertei o soco antes que qualquer palavra saísse da boca dele.
Foi direto no maxilar.
Os outros dois me empurraram, e a briga estourou ali mesmo, em frente à cantina.
Ouvi gritos. Vi professores correndo. Mas só conseguia enxergar o rosto de Luna, parado ao longe, branco, os olhos arregalados.
Não por medo do que eu estava fazendo.
Mas por medo de mim.
A diretora me suspendeu por três dias. Minha mãe quase teve um infarto. O pai soltou aquele olhar típico de desapontamento silencioso — o mesmo que sempre usava, como se eu fosse só mais um projeto falho da família.
Luna não disse nada naquela noite.
E eu também não.
Mas na manhã seguinte, ela deixou um bilhete no meu travesseiro.
“Obrigada por me defender. Mas não se machuque por minha causa, Noah. Eu não valho uma suspensão. — L.”
Eu reli aquilo pelo menos cinco vezes. Cada vez doía mais.
Ela não entendia.
Não era sobre merecer. Nunca foi.
Era sobre não aguentar mais ver gente quebrando quem já estava em pedaços.
E ela… ela era feita de cacos colados com silêncio.
A partir desse dia, algo mudou em mim.
Não era só Felipe. Era qualquer um que encostasse nela. Qualquer piada. Qualquer olhar torto. Eu estava sempre atento. Sempre perto, mesmo fingindo que não.
As pessoas começaram a falar. “Noah virou o guarda-costas da irmãzinha postiça.”
Outros diziam: “Ele tá apaixonado pela órfã, olha o mico.”
Eu não respondia. Só olhava. E às vezes, bastava o meu olhar pra calar bocas.
Mas por dentro, o caos era constante.
Porque não era amor.
Ou talvez fosse — mas não do tipo que dava pra explicar. Era como uma raiva que queria proteger. Como uma dor que doía nela, mas latejava em mim.
Um dia, a encontrei chorando escondida nos fundos da escola, perto da sala de música. Estava sentada com os joelhos encolhidos, o rosto vermelho, o caderno rasgado no colo.
Alguém havia rabiscado uma página com palavras feias. Palavras que nenhuma menina de onze anos deveria ler sobre si mesma.
Ela tentou esconder o papel, mas eu tirei da mão dela.
Li. Senti o estômago virar.
Luna ficou em silêncio.
— Você contou pra alguém? — perguntei.
Ela balançou a cabeça. Depois disse baixo:
— Ninguém se importa.
Aquilo me destruiu. Mais do que qualquer soco.
— Eu me importo — falei, sem pensar. E talvez fosse a primeira verdade que eu dizia em voz alta desde que ela chegou na minha vida.
Ela ergueu os olhos. E por um segundo, eu quis fugir.
Porque o jeito que ela me olhava… parecia que ela conseguia me ver inteiro. Até as partes que eu escondia de todo mundo.
Ficamos ali, sem falar, por longos minutos.
Depois, rasguei o papel em pedaços e joguei fora.
Ela sorriu de leve.
E aquele sorriso... aquele maldito sorriso... foi o início do meu fim.
Naquela noite, sonhei com ela.
Não era nada explícito. Era só a imagem dela andando à minha frente, rindo, girando com a saia azul voando no vento. Eu seguia atrás, tentando acompanhar. Mas nunca alcançava. E quando ela sumia, o peito doía como se estivesse perdendo tudo de novo.
Acordei suando.
Confuso.
Com raiva de mim.
Porque ela era só uma menina.
E eu… eu não era nada.
Nos dias seguintes, continuei vigiando.
Sem ela saber. Sem ninguém notar.
E toda vez que alguém se aproximava dela por motivos errados, eu estava ali. Uma ameaça muda. Um aviso não verbal.
Ela começou a andar com um pouco mais de confiança. Não muita. Mas já não olhava mais pros pés o tempo todo.
E eu fingia que não percebia.
Mas percebia tudo.
Percebia demais.
E quanto mais percebia… mais me afundava.
Porque ninguém nunca me ensinou a lidar com o que transbordava. Eu aprendi a conter. A engolir. A ignorar.
Mas com ela… era diferente.
Com ela, tudo doía. E tudo queria proteger.
Mesmo que isso custasse o pouco de controle que eu ainda achava ter.