Assim que me calo, ele olha para mim novamente, e não há uma gota de surpresa em seus olhos. Há outras emoções que não consigo decifrar.
Porque meus olhos saltam nervosamente dele para aquela horrível seringa esverdeada que ele está segurando.
A perda de controle é perceptível, porque o pânico me envolve ainda mais. E mordo meus lábios novamente. Eu os mordo como um rato faminto em uma espiga de milho.
— Acontece que voçe tem muito medo de injeções, e no carro ela disse outra coisa — afirma.
Pelos seus lábios, isso soa como uma zombaria gigantesca. E se...
Ele está a zombar!
Ele está me despedaçando sem precisar de uma faca!
Porque ao mesmo tempo, o tom de sua voz é tal que parece sussurrar entre as palavras:
— Você não tem escapatória, Bruna! Nenhum!
E também ouço... uma risada aterrorizante.
E ele tem razão! Porque, infelizmente, não posso escapar. Não consigo me mover. Nem vou conseguir rastejar como um verme.
Vou começar a chorar...
— Estou com medo! — Confesso, apertando a colcha com as mãos — Muito. Tanto que minha alma cai aos meus pés!
— Você não precisa ter medo — pare de olhar para mim e aja. Retire a seringa da embalagem— Não dói tanto quanto o medo sugere a você. Você tem que ter medo de outras coisas — para, mas não continua.
— E quais? — Sigo cuidadosamente suas mãos, que não param. Encaixe a agulha na seringa.
— Essa é uma pergunta interessante —vira a cabeça para mim— Que não pode ser respondido imediatamente. Mas você certamente não precisa ter medo do que lhe trará alívio quase instantâneo.
— E do que você tem medo? — Não sei por que pergunto.
Eu não sei... Claro que sei! Eu só quero ganhar tempo. Remova esse horror, porque só de pensar nisso congela tudo dentro de mim.
Talvez seja uma postura infantil...
Quando eu era pequeno, também fazia a mesma coisa: implorava, chorava, para tomar a injeção depois de mais um episódio da minha série de desenho animado favorita sobre esquilos resgatados. Eles eram realmente meus salvadores naquela época.
— Você está tão interessado em saber? — Só agora a surpresa aparece no rosto dele.
— Sim — tiro.
— Bem, eu acho... — ele continua atencioso. Ele permanece em silêncio por cerca de dez segundos, em busca de uma resposta —. Nojo Vovó Frida...
— Não gosta da sua avó? — Pensei que você diria que tem medo de cachorros, cobras ou aranhas.
— Sim — acena com a cabeça— É que então ele olha para mim de certa forma... Esse olhar é como mil palavras que ele poderia dizer ao mesmo tempo.
— Entendido — Eu respondo e Bruna se vira. Sua mão mergulha de volta na bolsa de remédios. Ele tira um frasco, dentro do qual há um líquido curativo. É estranho... Ligeiramente amarelado.
— Você tem um relacionamento muito próximo com ela? — Tento falar com ele.
— Eu não diria isso —examina a bolha e a deixa na mesa de cabeceira — Normal. Como com minha outra avó... Igualmente.
— E você não tem medo de chatear sua outra avó? — Eu prolongo o diálogo, inventando tópicos interessante...
— É impossível chatear a vovó Frida — inclina-se para os medicamentos — A menos que você rejeite a comida deles ou as panquecas de carne. E isso nunca acontece — Ele pega uma garrafa de álcool e a abre.
— Você come todas as panquecas de carne? — Eu pergunto, ainda torturando meu lábio. Meu corpo está tenso. Ele larga o álcool e segura um pacote de discos de algodão.
— Eu gosto mais do que vai me servir — Descubra como abri-lo. Ele vira. Cara.
— E o que você gosta deles? Diga-me... Talvez um dia eu os prepare para você — digo, uma pessoa que odeia cozinhar, e ainda mais massa.
Depois das minhas palavras, que certamente revelam minha insinceridade, ele olha para mim novamente, sorri com os cantos da boca e diz:
— Bruna, não puxe o r**o do gato, isso machuca o peludo. Serão dois segundos e pronto. Livre como o vento no campo. Ou você gosta de se deitar como um toco podre e sofrer?
— Não estou puxando nada...
— Sim, você é — Ele pega um algodão na velocidade da luz e o molha em álcool. Seu cheiro me atinge fortemente no nariz e alimenta ainda mais meu medo. E o que mais o alimenta é o seguinte som: um clique.
O homem quebra a parte superior do frasco e pega a seringa, na qual carrega o medicamento ainda mais rápido.
O medo faz minha cabeça girar. Meu coração dispara, querendo sair da caixa torácica em que ele está docemente sentado há vinte e seis anos. Bem, quase. Mas agora ele está fugindo!
Talvez alguém diga que sou uma tola por ter tanto medo, mas não consigo evitar!
Há pessoas que ficam paralisadas por cães ou cobras... Estas últimas, por exemplo, têm medo de Tina...
Lembro-me que no verão passado, enquanto esperávamos um táxi, uma simples cobra saiu da grama e deslizou sob nossos pés; Ela quase desmaiou. Porque o pequeno animal traçou seu percurso logo acima da sandália.
Ainda me lembro de sua expressão aterrorizada; provavelmente a mesma que tenho agora.
E a injeção está pronta. Ele tirou o ar. Algumas gotas rolam pela agulha fina.
— Não —Balanço a cabeça, nervoso — Eu não quero! Eu não vou usá-lo! Prefiro que você coloque uma pomada em mim! O escaldante do mundo! E até pus emplastros de mostarda por cima! Mas não uma injeção! Não!
Meus olhos se enchem de lágrimas e me parece que não disse essas palavras, mas que as gritei...
— Bruna, isso é terrível... Sua irmã já me avisou que você ia ficar caprichosa, mas eu não esperava tanto — ele responde—Você age como uma garotinha. Se pudesse, você se jogaria no chão e chutaria.
— Eu não quero! — Agarro-me à cama e tento sentar-me para me enrolar como um ouriço. Para que você não possa realizar a manipulação.
Mas a luta só me causa uma dor terrível e um espasmo que desfigura meu rosto.
— Tem que ser feito —Ele está calmo, como uma capivara no meio do apocalipse que eu mesmo estou criando.
— Não! Não! Não!
Isso é quase um grito de porco. Muito forte!
Isso causa uma reação, mas não sei dizer qual, porque as lágrimas turvam minha visão.
No entanto, vejo claramente como ele coloca a tampa na agulha, deixa a seringa na mesa de cabeceira e respira aliviado.
Eu consegui escapar impune?
Mas assim que inspiro, sinto seu perfume... e seus lábios quentes ao lado da minha orelha:
— Bruna, proponho um acordo. Deixaste-o dar-te a injecção com calma, sem gritar como se estivesses a ser morto, e depois receberás uma recompensa por isso. O que você acha?