Bem, ainda tenho que ser grata por não ser um supositório que tenho que usar em algum lugar. Graças a Deus, Marina não pensou nisso.
Enquanto isso, o automóvel para. Levanto a cabeça e vejo uma paisagem familiar: estamos próximas de minha casa.
— Ok? Ele se vira para mim e me perfura com seus olhos. — A tua irmã vem ai?
Acredito que nesse momento o que ele desejava era que nosso encontro, você e eu, fosse a comida dele. De preferência, eu de quatro e ele metendo em mim.
Minha irmã Marina chega e é minha salvação. Eu hoje não queria ser a comida de ninguém. Minha coluna está me matando e tudo que eu queria era somente minha cama.
Ele me puxa e eu levanto as sobrancelhas bruscamente.
— O que devo fazer, Eduardo?
— Você deveria pelo menos me dizer uma palavra, não acha?
A diversão começa...
Ele percebeu plenamente que pode lidar com a situação como quiser e tira vantagem disso.
Deixe-o dizer palavras mágicas...
Talvez ele devesse gemer no ouvido dela?
— Abracadabra — digo secamente e acrescento — Não sei mais nada. Na escola de magia, infelizmente, não estudei.
— Não sei por que, mas não acredito em você — ele responde e acrescenta algo inesperado — Graças a Deus ainda é inverno. Caso contrário, amanhã de manhã você teria pegado uma pá e ido ao rio procurar ervas para suas poções.
— Tenho congelados no frigorífico — Eu jogo junto.
— Ah, sim, Bruna? — a nossa conversa se transforma numa pequena batalha.
— Sim! Enquanto todos congelam morangos, framboesas, cerejas e outras iguarias doces para fazer compotas no inverno ou rechear bolinhos, eu preparo minhas ervas. Só para esses casos... quando um Gryts aparece e se aproxima no horizonte... um Hamster pesado — digo esse nome, observando-o.
Eu percebo...
Ele não gosta muito disso. Percebo como o rosto dele...
Fica igual à primeira vez que o chamei de hamster, na nossa reunião de ontem.
Li nele raiva e agressividade.
Ele não gosta da palavra com que me refiro à sua pessoa honrada. Mas eu não me importo.
Muitas coisas também não me fazem feliz. Então, espere um pouco.
— Para executar seu plano, você teria que me envenenar numa quarta-feira de manhã, mas nosso próximo encontro é na segunda-feira — sua voz soa confiante e calma, apesar de seu óbvio descontentamento.
— Segunda-feira? — Repito — Ei, só te devo uma citação... Disseste-o no singular, não no plural. Estou muito atento a esses detalhes. É como as letras miúdas no final de um contrato, pode esconder muitas coisas.
— A reunião de hoje não conta... Além disso, alguém tem que lhe dar a segunda injeção — a raiva desaparece do rosto dele.
— Minha irmã vai me dar.
— Acho que ele vai arrastar os seus pés de novo...
—Você a convenceu, já que diz isso com tanta certeza? Chegaste a algum acordo secreto? — Entendo cem por cento o comportamento de Marina.
Tenho certeza que ele disse algo a ela. E não descarto que esteja muito insatisfeito com esse encontro, mas ela, me conhecendo como se fosse meu diário em que escrevo meus pensamentos mais ousados, está me pressionando...
— Bruna, em vez de inventar coisas, é melhor você aprender meu nome imediatamente — muda de assunto e se vira.
Vire a cabeça e ligue o motor novamente. Park, porque até agora estávamos apenas em frente ao prédio.
Coloque o carro em um lugar livre, embora eu não recomende. É o local do tio Antonio e sua beleza...
Ele chama a beleza de carro, não de esposa, como você pode pensar. Ele passa todos os fins de semana brincando com aquele cavalo de ferro: ou ele cava debaixo do capô ou ele lava e pole até que ele brilhe. Ele adora sua beleza.
Mas fico quieto, não é problema meu.
— E como diser seu nome? No seu celular você guardou um inventado... E com esse mesmo você se apresentou aos meus parentes.
Assim como o tio António, um cabo é cruzado e ele começa a investigar... Ele não gosta de mentiras.
— Eu disse a verdade — desligue o motor.
— Ah, sim? — Estou surpreso.
— Sim — volta-se para mim novamente — Eu disse a pura verdade. O mais puro.
— E o que tia Margo não deixou você dizer? — Lembro-me de como ele o interrompeu com meia palavra.
— A verdade — diz, sem mais delongas.
— Verdade? — Eu olho nos olhos dele.
— Que hoje deveríamos ter um encontro... Embora eles não tenham imaginado apenas isso. Certamente eles até provaram o bolo de casamento. Principalmente o seu tio, com quem passei no exame de bebida.
— Graças à tia Margo você copiou — digo sarcasticamente — Bem debaixo do nariz deles.
— Bem, não é problema meu que o professor não tenha visto o corte. O importante é que eu passei — me virei e saí do carro.
Vejo-o dar a volta ao veículo e dirigir-se para mim.
Ele se aproxima da porta, abre-a e, quando o ar frio envolve meu rosto, volto à briga com minha pergunta:
— Então, qual é o seu nome verdadeiro?
— Você já sabe — resposta.
— Eu não acredito em você — novamente, uma batalha verbal, ou melhor, um tiro.
— Você quer que eu lhe mostre meu passaporte?
— Mostre-me — Eu permaneço firme.
Ele provavelmente não esperava que eu lhe dissesse isso.
E? Se ele não mentir, deixe-o-me mostrar quem ele realmente é... Porque há todo o tipo de homem que faz turnê com nomes falsos, come cabeças de garotas, deixa uma parte de si e desaparece como pó...
Impossível encontrá-los!
E quem a criança chamará de pai a seguir?
Eeeh...
Aonde meus pensamentos me levam? Bruna para onde você foi? Olá?
Eu franzo a testa e ele me ensina...
O passaporte.
Ele não mentiu. É o nome verdadeiro dele, não um pseudónimo para manter disfarçado...
— Interessante — Não escondo minha surpresa.
— Eu disse que não estava mentindo — ele guarda o documento no bolso interno do casaco— Desde pequeno aprendi que isso não deveria ser feito e continuo a fazê-lo.
— Bem, é sobre isso que estou disposto a discutir — Eu murmuro, mas ele não reage.
Então minha atenção muda para outra coisa: me tirar do carro com o mínimo de gritos possível...
A propósito, estou muito melhor agora do que quando estávamos perto do restaurante. Certamente não é só o medo da injeção que faz efeito, mas também a pílula.
Claro, não consigo me endireitar e andar sozinho, mas não sou mais um trapo antiquado e rachado.
Ele me leva para o apartamento e já está abrindo a porta com a chave que eu dei a ele...
E imediatamente um pensamento vem à mente...
Não deixei uma bagunça ao sobreviver com pressa? E a poeira... Bem, eu a removi há dois dias.
Não há castores.
O hamster... Ou devo começar a chamá-lo de Eduardo Boris, meu chefe?
Bom, que seja Bruna... E um hamster para quando isso me deixa realmente louco.
O que acontece 99% das vezes?
Eu ignoro essa pergunta.
Ele tira os sapatos, depois tira as minhas botas, meu casaco e me leva para o quarto...
Direto para o quarto. No primeiro encontro. Nem sequer é um encontro!
Isso me ajuda a deitar na cama e, assim que o colchão afunda sob meu peso...
Uma nova onda de pânico feroz toma conta de mim enquanto me lembro do que me espera...
A injeção...
Meu coração corre como uma maratona, minha respiração fica irregular.
— Onde fica o banheiro para lavar minhas mãos? — tira o casaco.
— Você sai do quarto e é a primeira porta à esquerda.
— Obrigado — sai, e eu...
Eu entro em colapso total. Dos nervos começo a morder os lábios; afundo os dentes no inferior e torturo-o.
Não...
Eu não entro em pânico. Tento acalmar-me. Mentalmente grito comigo mesma que sou mais velha, não uma garotinha, mas...
Volte mais cedo do que eu esperava. Paro de maltratar meu lábio e o observo, percebendo o que ele está vestindo...
Ele se vestiu bem para a reunião. Uma camisa branca deslumbrante, calças pretas...
Sua mão está imersa com segurança na bolsa de medicamentos. Ele pega uma seringa embalada esverdeada e eu perco o controle...
Eu me solto, sentindo como o medo distorce minhas entranhas:
— Não precisa... Eu não quero... Estou melhor agora... Isso é desnecessário...