A luz da manhã penetrava friamente pelas altas janelas arqueadas do Castelo de Velaris, incidindo sobre a geada que teimosamente se agarrava aos vidros. O grande salão, geralmente ecoando com o murmúrio baixo dos criados se preparando para o dia, parecia mais pesado que o habitual, como se as próprias pedras sentissem o peso que oprimia a princesa. Evelyne estava parada na entrada do salão, os dedos repousando levemente no corrimão de carvalho esculpido da galeria, observando os cortesãos reunidos lá embaixo. Seu coração palpitava, não de excitação, mas com um pavor quase físico.
A voz da mãe soou por trás dela, nítida e incisiva, embora não fosse rude. "Evelyne, você irá. Não é um pedido."
Ela se virou, lançando à Rainha Isolda um olhar que misturava frustração com a polidez praticada de uma filha treinada por tempo demais na arte da obediência. "Claro, mãe", disse ela, inclinando levemente a cabeça. A inclinação do queixo e a aspereza no olhar não revelavam nada da tempestade que a consumia por dentro.
“Ótimo”, disse Isolda, alisando a manga do vestido. Seus olhos, afiados como os de um falcão em público, suavizaram-se por um breve instante ao se deterem na filha. “Essas providências... não são crueldade. Você precisa entender, Evelyne. Um dia, você poderá me agradecer pela segurança que elas trazem.”
Evelyne expirou lentamente, as palavras a envolvendo como chumbo. "Segurança", murmurou, deixando a palavra ter um gosto amargo na língua. "Ou confinamento".
Os lábios de Isolda se comprimiram, sua compostura impecável. "Uma princesa de Velaris não pode se dar ao luxo da liberdade, minha querida. Você se casará bem, como sempre aconteceu em nossa família. Como eu me casei. Como seu pai insiste."
Suas palavras pairaram no ar, uma lembrança de correntes usadas como joias, douradas, mas inquebráveis. O estômago de Evelyne se contraiu, uma mistura agitada de medo e desafio. Ela sonhara, muitas vezes em segredo, em correr pelos jardins do castelo sob a neve, em escapar das paredes que a confinavam desde o nascimento. Mas agora, com a realidade das intenções de sua mãe exposta, aquele sonho parecia impossivelmente distante.
As portas se abriram de repente, deixando entrar uma lufada de ar fresco e os sons abafados da atividade vinda do pátio. Criados entraram apressados, anunciando a chegada de um emissário estrangeiro. O pulso de Evelyne acelerou. Ela já esperava por isso — sussurros sobre seu noivado circulavam em tons baixos há semanas — mas ver a realidade da situação, a presença tangível de um homem escolhido para sua mão, a atingiu com uma nova onda de ansiedade.
Isolda a conduziu até uma cadeira revestida de veludo no fundo do salão, guiando-a com uma firmeza gentil, quase relutante. "Lembre-se", disse ela suavemente, quase como se falasse consigo mesma, "é para sua própria segurança".
Evelyne afundou na cadeira, mantendo a postura impecável, o frio do piso de mármore penetrando o tecido grosso de suas saias. Ela observou o emissário, um homem alto e imponente com um terno de tecido fino e uma polidez cuidadosa que denunciava riqueza e influência. Ele fez uma reverência profunda, seus olhos se voltando brevemente para os dela antes de se dirigir à Rainha. "Vossa Majestade, trago saudações e votos de uma união frutífera".
“Claro”, respondeu Isolda, com tom ponderado, os olhos voltando-se para Evelyne. “Princesa Evelyne, a senhora compreenderá a importância destes arranjos. Sua família, seu reino…” Ela parou de falar, deixando o peso da expectativa preencher o espaço entre elas.
O maxilar de Evelyne se contraiu. Ela havia ensaiado suas palavras, suas expressões, cada reverência e inclinação de cabeça para momentos como aquele, mas isso pouco adiantou para aliviar a sensação de aperto no peito. Ela se obrigou a acenar com a cabeça, a sorrir educadamente, embora seus pensamentos estivessem a mil: a prisão do dever, a impossibilidade do amor, o anseio silencioso e sombrio que começara a sentir por alguém que m*l conhecia — um protetor que observava e esperava, invisível, firme.
Ela se desculpou após a reunião, deslizando pelos corredores com a graça de uma princesa experiente, embora sua mente estivesse a mil. Passou pelos estábulos, notando o aroma fresco do feno misturado ao ar frio e o distante tilintar de cascos enquanto um guarda fazia sua ronda. Os planos de Azriel eram evidentes na sutil disposição dos homens — guardas que protegeriam sem se intrometer, sempre vigilantes. Mesmo assim, Evelyne não conseguia se livrar da sensação de inquietação que lhe invadia o estômago. Mesmo agora, mesmo com todas as precauções, a gaiola ao seu redor parecia apertada.
Quando chegou à varanda envidraçada, a luz que entrava pelas janelas altas refletindo na geada no vidro, ela se permitiu um suspiro silencioso. O palácio, o reino, os deveres que lhe eram impostos — tudo parecia sufocante. Ela vagou entre as samambaias e a hera congeladas, tocando as folhas geladas, se conectando com o frio. No entanto, seus pensamentos insistiam em vagar, sem serem convidados, para a sombra de uma figura que ela começara a notar — silenciosa, vigilante, inflexível. Ela ainda não sabia seu nome por completo, ainda não compreendia a extensão de sua presença em sua vida, mas a sentia intensamente: a sensação de que alguém estava sempre por perto, mantendo uma linha entre ela e os perigos que ela nem sempre conseguia enxergar.
A tarde passou num turbilhão de aulas, reuniões e observações silenciosas. Evelyne sentia a tensão aumentar em seu peito a cada menção de alianças estrangeiras, a cada olhar para o salão onde circulavam sussurros sobre seu iminente noivado. Quando os criados começaram a iluminar o salão para a noite, o brilho dourado das velas iluminando as grandes tapeçarias e os retratos de ancestrais há muito falecidos, Evelyne soube com absoluta certeza que o mundo não esperaria por seus sonhos, nem se curvaria aos seus desejos.
Ela se dirigiu a um canto tranquilo, apertando as saias contra o corpo, sua respiração formando uma névoa no ar frio que entrava pelas janelas abertas. Lá fora, a neve recomeçara a cair, delicada e implacável, cobrindo os jardins com um manto imaculado que brilhava à luz dos postes. Ela se imaginou correndo, rindo em meio à tempestade, livre do peso das expectativas e das regras inflexíveis do castelo. Imaginou o mundo além dos muros de pedra, o vento em seu rosto, a emoção de ser simplesmente Evelyne — não princesa, não peão, não filha — apenas ela mesma.
Mas a fantasia foi breve. Uma sombra passou pela periferia de sua visão, um lembrete da realidade da qual não podia escapar. Alguém estava sempre observando, sempre guardando, sempre presente. E embora ela ainda não o conhecesse completamente, ainda não confiasse nele, a curiosidade e a frustração se entrelaçavam em seu coração. A gaiola permanecia, dourada e fria, mas, pela primeira vez, ela vislumbrou uma sombra dentro dela — uma presença que não podia ignorar.
Ela inspirou lentamente, deixando o frio se instalar em seus pulmões, e voltou-se para o corredor. O tribunal a aguardava, o jogo de aparências e deveres nunca parava. Mas Evelyne, apesar de todo o medo e frustração, sentiu uma pequena faísca de desafio. Ela resistiria, ela navegaria por essas correntes e, talvez, um dia, encontraria uma maneira de dobrá-las à sua própria vontade.
E enquanto as velas tremeluziam e o vento sussurrava ao longo das muralhas do castelo, ela se permitiu um sorriso secreto, pensando apenas na sombra que começara a notar e na promessa tácita de algo que estava quase ao seu alcance.
O castelo jazia em um silêncio raro, quebrado apenas pelo sussurro do vento entre as ameias de pedra e pelo suave ranger da neve sob as botas de Evelyne. Ela havia saído de seus aposentos após o jantar, tomando cuidado para evitar os criados e guardas, com a capa bem ajustada ao corpo. Os corredores do Castelo de Velaris eram familiares e claustrofóbicos, mas à noite pareciam diferentes — mais silenciosos, secretos, quase vivos de uma forma que o dia jamais permitira.
Ela havia prometido a si mesma que caminharia um pouco antes de se recolher, para respirar, sentir o frio contra a pele, para se lembrar de que existia além dos salões dourados e das obrigações intermináveis. Os jardins, cobertos de neve fresca, estendiam-se diante dela, prateados e silenciosos, iluminados pela pálida lua.
Uma sombra moveu-se à sua frente, alta e silenciosa, quase como se pertencesse à própria noite. Ela o reconheceu antes mesmo de alcançá-lo — Azriel. Ele estava de serviço nas proximidades, sempre atento, mas de alguma forma havia percebido sua presença. Seu casaco escuro se confundia com as sombras, e suas mãos repousavam levemente no punho da espada. Seus olhos, penetrantes e indecifráveis, a observavam com uma intensidade que fez seu coração acelerar.
“Você não deveria estar aqui fora”, disse ele, com a voz baixa, mas firme, abafando o som da neve rangendo.
“E você não deveria ficar se escondendo como um fantasma”, ela retrucou, mas havia um tremor em sua voz. A noite, o silêncio, a solidão… tudo isso a deixava nervosa, e ainda assim ela sentia um arrepio na possibilidade de desobedecer.
“Estou aqui para garantir que nada lhe aconteça”, disse ele, aproximando-se, embora mantendo uma distância cautelosa. “Você não tem ideia de quão imprudente isso é”.
“E eu não faço ideia de por que você se importa”, disse ela bruscamente. “Talvez você devesse ir embora e me deixar ser tola em paz”.
Os olhos de Azriel se estreitaram. "Tolice? Evelyne, se algo lhe acontecesse — qualquer coisa — a culpa seria minha. Você é imprudente e imprevisível, e mesmo assim não posso permitir que se arrisque."
Evelyne sentiu um lampejo de indignação. "E o que devo fazer, então? Ficar sentada ociosa no meu quarto enquanto o mundo decide minha vida por mim?"
“Você não tem como saber o perigo que existe aqui fora”, disse ele, com a voz tensa e contida. “Um único passo em falso e você pode ficar em perigo. Se isso acontecesse… as consequências seriam inimagináveis”.
Ela riu amargamente, deixando a neve se acumular em seus cabelos. "Consequências? Você acha que me importo com uma reputação que não significa nada se eu não puder escolher minha própria vida? Se isso significar que posso escapar de um casamento que não quero, arriscarei tudo."
O maxilar de Azriel se contraiu, seus olhos percorrendo as muralhas do castelo e as sombras além delas. "Você é tola, Evelyne. Pode achar que é um risco pequeno, mas o mundo lá fora não perdoa. E meu dever... meu dever é para com a Coroa, não para com você. Não posso segui-la se você fugir."
Seu coração se apertou com as palavras dele, embora ela mantivesse sua postura desafiadora. "Eu sei. E mesmo assim, aqui está você, observando. Farei isso sozinha. Você não me seguirá, não de verdade. Então, recue, Azriel. Recue antes que seja tarde demais para nós dois."
Ele não se moveu, mas a tensão em sua postura demonstrava frustração e vigilância. "Caminhe com cuidado. Não me faça me arrepender de ter ficado de lado", advertiu ele em voz baixa. "Não poderei protegê-los se algo acontecer além destes muros."
Evelyne engoliu em seco, o ar frio enchendo seus pulmões, e por um breve instante, permitiu-se sentir o peso de sua vigilância. "Serei cuidadosa", prometeu, embora suas palavras soassem desafiadoras. "Nunca quis te machucar, mas não posso esperar que outra pessoa decida minha vida."
O vento rodopiava ao redor deles, espalhando flocos de neve sobre seus rostos, e os jardins ficaram silenciosos mais uma vez. Evelyne se virou, as botas rangendo suavemente sobre a geada, deixando Azriel nas sombras. Ele permaneceu imóvel, silencioso, vigilante, sua presença um lembrete dos olhos atentos dos quais ela não podia escapar, mas também dos limites da proteção que ela podia esperar.
Para Evelyne, a noite foi ao mesmo tempo libertadora e limitadora, uma lembrança de sua própria rebeldia e do mundo rígido que ela continuaria a desafiar — sozinha.