Capítulo 125
A Ivone disse que não sabia, já apreensiva, achando que a Kaori iria querer ir atrás de qualquer jeito.
Ela foi ao banheiro, lavou o rosto, voltou a trabalhar sem falar nada. Não mexeu no celular, não tentou ligar.
Quando estava anoitecendo, Bibi respondeu às mensagens com um áudio longo contando o que aconteceu. Ainda não sabiam ao certo o que tinha acontecido, mas era quase certeza de que eram sequelas da gravidez. O médico deu uma chamada em Bibi por causa do tamanho da Maria. Ela não estava se desenvolvendo bem para a idade dela, era muito mole para segurar a cabeça, não reagia bem aos estímulos nos testes. Elas iam dormir no hospital, esperando vagas para exames.
Kaori fez algumas perguntas e se ofereceu para ajudar, caso fosse preciso.
Bibi respondeu:
— Fiquei te esperando no domingo em casa. Você deve estar brava comigo, por isso sumiu no fim de semana. Tá acontecendo muita coisa agora, precisamos conversar melhor pessoalmente.
Ela disse que só estava tentando se colocar no seu devido lugar, que não era mãe da Maria e que sabia disso.
Bibi disse que o lugar dela era sempre por perto, e que ela era, sim, uma mãe para Maria.
Conversaram bem pouco.
Quando saiu do trabalho, foi embora sozinha. Ivone já tinha saído antes.
Ela foi para casa de ônibus, supertriste pela Maria, tomou banho e foi deitar.
Lisa já estava sabendo e ligou para ter notícias.
Kaori contou tudo o que sabia, que não era muito.
Lisa falou:
— Você quer que eu vá pra casa? Quando fui embora, nem nos despedimos direito, não tivemos oportunidade de sentar e conversar. Filha, tô sentindo na sua voz que você não tá bem!
Ela disse que não tinha como ficar bem com as coisas que estavam acontecendo.
Pareceu que ela estava falando das últimas novidades. Lisa achou que ela estava falando da gravidez, ficou chateada e disse que iria para lá na manhã seguinte.
Ela estava com medo de Kaori ficar depressiva e fazer algo contra si mesma novamente.
Kaori respondeu:
— Não, mãe, eu só tô preocupada com a Maria. Não precisa largar tudo e vir me socorrer. Você tem suas coisas, eu vou ficar bem. Nem ia adiantar mesmo. Vou trabalhar direto o dia todo e não podemos fazer nada pela Maria.
Ela disse que iria para lá assim mesmo.
Kaori pediu, por favor, para ela não ir.
Começou a chorar no telefone.
Lisa perguntou se ela estava chateada por causa da gravidez e se iria se afastar novamente, igual a quando foi embora.
Ela respondeu que não tinha nada a ver, que não estava ficando sozinha e que não queria atrapalhar a rotina da mãe.
Hugo começou a falar com Lisa, perguntando o que estava acontecendo.
Ela disse que iria desligar.
Ficou triste.
Kaori ficou mais ainda, sentindo-se culpada.
Quando Rui chegou, ela estava acordada, deitada.
Ele sempre chegava falando as mesmas coisas, perguntando se estava tudo bem e como tinha sido o dia de trabalho.
Ela respondeu que estava triste, mas que não queria conversar.
Ele se sentou na beirada da cama e respondeu, fazendo carinho:
— De novo? Teve notícias da Maria?
Ela contou o que Bibi falou e disse que precisava dormir porque iria entrar cedo no dia seguinte.
Ele perguntou se ela tinha tomado calmantes novamente.
Ela disse que não.
Ele não acreditou, mas achou melhor não falar nada.
Foi comer e se deitou quando ela já estava dormindo.
No dia seguinte, foram trabalhar juntos.
Na hora do almoço, ele disse que não iria à aula para ficar com ela.
Ela recusou a oferta, falando que estaria trabalhando e que a prioridade era a faculdade.
Depois do almoço, ela mandou uma mensagem para Lisa, perguntando se ela não iria para casa.
Lisa disse que não, que iria respeitar o pedido de Kaori e dar um tempo para ela.
Ela respondeu:
— A casa é sua, se quiser pode vir. Só não quero ficar dando trabalho à toa pra você. O Rui tá dormindo comigo, eu não tô sozinha. Também acho que você precisa se cuidar. Desculpa se não pareci empolgada o suficiente com o baby, mas tô muito feliz por vocês. Tenho certeza de que o Hugo vai ser um pai incrível. Te amo, mãe. Desculpa por tudo.
Lisa disse que a amava demais, que não queria ela longe e que já havia falado isso.
Elas conversaram um pouco sobre Maria.
Lisa pediu para Kaori ir para lá no fim de semana, para ficar com eles.
No período da tarde, Bibi mandou mensagem dizendo que haviam recebido alta.
Convidou Kaori para ir lá ver Maria.
Ela estava se segurando o dia inteiro, louca para ir mesmo.
Saiu um pouco mais cedo e foi para lá.
Assim que chegou, chamou no portão.
Breno saiu para atender.
Cumprimentaram-se.
Ela perguntou se haviam feito os exames e o que tinha dado.
Ele disse que fizeram apenas dois. Para investigar mais a fundo, só pelo médico particular ou então teriam de esperar meses para conseguir consulta e exames pelo SUS.
Bibi estava na sala, deitada no colchão no chão, com Maria mamando.
Kaori se aproximou, abaixou-se, falou oi para Bibi e falou com Maria sem encostar:
— O que a mocinha andou aprontando, hein? A madrinha ficou com medo, sabia?
Maria Cecília começou a rir mamando.
Logo largou a mamadeira.
Bibi falou, rindo:
— Isso, ignora o seu tetê pra ir ficar com a dinda. Depois ela vai embora e a mamãe não vai te dar outro, não.
Kaori pegou Maria no colo, sentou-se no sofá e começou a falar com ela.
Maria ria o tempo todo, derretendo-se para a dinda.
Bibi contou o que aconteceu com riqueza de detalhes.
Maria passou m*l em casa, do nada. Foi ficando molinha e desfaleceu no colo dela.
O médico foi bem direto, dizendo que ela teria atrasos com toda a certeza.
Talvez as convulsões fossem constantes, mesmo com ela crescendo.
Ele fez encaminhamentos para outros médicos e aconselhou que mantivessem atenção redobrada com Maria.
Bibi estava muito chateada e preocupada.
Kaori perguntou se não compensava pagar um convênio para Maria.
Ela respondeu:
— Não tem como, pelo menos não ainda. Meu salário-maternidade já vai acabar. Ninguém quer dar um emprego ao Breno porque ele fez o favor de ir preso, né?