Era terça-feira e, como em todos os outros dias, eu segui a mesma rotina de sempre. Acordei, me arrumei e estava esperando a minha carona para a escola, como de costume.
Mas aquele beijo do Lucas ainda estava martelando na minha cabeça. A noite toda, não consegui parar de pensar no que teria acontecido se o Léo descobrisse. Eu me perguntava se deveria contar a ele o que aconteceu ou se isso não passaria de um erro que nunca se repetiria.
O visor do meu celular acendeu e uma mensagem do Léo apareceu:
"Daqui a 5 minutos estamos chegando aí."
Fiquei pensativa. Será que deveria contar? Ou seria melhor não tocar no assunto? Talvez, se eu não falasse nada, o que aconteceu entre o Lucas e eu ficasse no passado, um simples deslize. Mas uma coisa era certa: eu precisava de um conselho, e a Milena era a única pessoa que poderia me ajudar sem complicar tudo ainda mais. Ela sabia como me ouvir sem julgar, e eu confiava nela para não contar nada para o Léo.
Sai para a rua e, poucos minutos depois, o purosangue preto do Lucas encostou na calçada. Entrei no carro e cumprimentei os dois — Lucas e o Léo — que me responderam com um simples "Oi".
Durante o caminho até a escola, senti o olhar do Lucas me analisando pelo retrovisor. Eu fingia não perceber, mas meu coração acelerava cada vez que ele me olhava.
Aquela tensão estava me consumindo, e só fiquei aliviada quando finalmente chegamos à escola.
Assim que o Léo saiu do carro, tomei a decisão de dar um ponto final em algo que nunca deveria ter começado.
— Lucas, precisamos conversar!
Ele olhou para mim, confuso.
— Sobre o que? Aconteceu algo?
— Como assim, aconteceu algo? Não lembra que a gente se beijou ontem à noite?
Ele me olhou com uma expressão despreocupada.
— Ah, é sobre isso? Relaxa, nem me lembro mais.
Fiquei aliviada, mas ao mesmo tempo, algo dentro de mim me incomodou. Eu não sabia exatamente o porquê, mas o jeito dele falar sobre o beijo me fez sentir como se fosse algo sem importância.
— Ótimo! Melhor assim, porque para mim também não significou nada.
Saí do carro com a porta batendo, sem me importar com o quão caro o carro era. O que eu mais queria naquele momento era deixar tudo aquilo para trás.
No pátio da escola, o Léo já me esperava. Torci para que ele não perguntasse o motivo de eu ter saído do carro tão rápido. Conversamos sobre o dia, mas ele não fez nenhuma menção ao que aconteceu na noite anterior. Eu tentei tirar alguma informação dele, mas ele estava quieto demais. Algo me dizia que ele sabia mais do que estava dizendo, mas não queria tocar no assunto.
Cheguei em casa e, depois de um dia cheio, decidi que iria para a academia. Eu precisava de algo para tirar a mente daquele turbilhão de sentimentos. Coloquei um short e uma camiseta, e fui caminhando até lá. A academia era perto, e, além de tudo, era o lugar onde o Lucas e o Theo treinavam.
Cheguei lá por volta das 17h, esperando não encontrar ninguém que me fizesse perder mais tempo. Eu só queria treinar e sair rápido, mas, como sempre, o destino tinha outros planos.
Estava terminando o treino de pernas, quase no final do dia, quando ouvi uma voz conhecida.
— E se não é a garota mais bonita de Seattle? — Theo disse, se aproximando e se curvando para me cumprimentar.
— Olha, se você não morasse aqui, eu acharia que isso é uma perseguição. — falei, dando um beijo no rosto dele.
— E se fosse, seria algo r**m? — Ele sorriu de volta.
Eu ri e balancei a cabeça, desconcertada com a proposta. Não sabia bem o que pensar. Theo era simpático, mas a proposta dele era clara: ele queria algo mais. E se eu aceitasse, sabia que poderia acabar me envolvendo.
— Vamos ter uma competição na semana que vem, então nosso Mestre exigiu que pegássemos pesado durante a semana, para descansarmos no sábado e no domingo. — Ele explicou, com entusiasmo. — As fases iniciais vão acontecer em Washington, e a final em Nova York.
— Uau, que legal! Eu nunca assisti a uma luta de MMA. — disse, impressionada.
Ele deu um sorriso travesso.
— Se quiser, podemos ir juntos.
Fiquei sem palavras. Eu não sabia como reagir à proposta dele. Era nítido que, se eu aceitasse, isso poderia levar a algo mais... íntimo. Um homem de 22 anos, morando sozinho, e eu, uma garota curiosa. Era difícil acreditar que nada aconteceria.
— Relaxa, não precisa responder agora. — Ele pegou o meu celular e anotou o seu número. — Vou confiar em você e vou esperar você me avisar sobre a ida.
Ele se despediu, colocando a mão na minha cintura e dando um beijo rápido no meu rosto. Eu fiquei ali parada por um momento, tentando processar tudo o que acabara de acontecer.
Saí da academia e, para minha surpresa, me esbarrei no Lucas.
— Você por aqui? Isso é uma novidade. — Ele disse, com um sorriso sarcástico.
— HA HA HA! Preciso melhorar o que já é bom, né? — respondi, tentando manter a calma.
— Melhorar para quem? — Ele perguntou, com um olhar curioso.
— Não existe para quem, e sim para quê? — Respondi, colocando o meu dedo indicador suavemente no peito dele.
Lucas me analisou da cabeça aos pés e, com um sorriso irônico, falou:
— É, até que não está tão r**m assim.
— Claro, porque eu sou toda natural, diferente das siliconadas que você tem ficado. — Disse, com um sorriso de canto.
— Então você repara nas garotas com quem fico? — Ele questionou, levantando uma sobrancelha.
— Ai, Lucas! O mundo não gira em torno do seu umbigo. — Respondi, começando a caminhar para a saída da academia. Eu só queria ir embora.
Ele deu um último sorriso, provocador.
— O mundo não, mas você sim.
— Ah, e por falar "em torno do seu umbigo", boa sorte na competição da semana que vem. Vai precisar! — falei, com um tom desafiador, e saí da academia em direção à minha casa.