Capítulo III

1905 Words
— Conheci-o desde pequena. Ele brincava comigo e me ensinou a cavalgar. Pode parecer estranho, eu era apenas uma criança enquanto ele já era um homem. Mas ele era um dos poucos aliados do meu pai que realmente se importava comigo. Com o tempo, a nossa convivência foi a diminuir... Cerise falou com um tom tímido, mas um sorriso nostálgico iluminava o seu rosto. — Ele seria um grande t**o se não te quisesse — Genevieve comentou, e Samantha a cutucou com o cotovelo, provocando uma risada sincera de Cerise. — Muito obrigada, Genevieve e Samantha. Às vezes, eu esqueço como é ter amigos. Mais tarde, naquele mesmo dia, Cerise e Samantha convidaram Genevieve para um passeio a cavalo. Genevieve, educadamente, recusou, pois não sabia cavalgar e preferia aproveitar o belo dia para cuidar do jardim. Ela decidiu plantar novas flores e cuidar das plantas tóxicas. Após discutir com Elion, concordou que seria mais seguro manter as plantas tóxicas numa estufa, ao invés de deixá-las expostas ao ar livre. Elion providenciou prontamente a construção da estufa, que logo começaria a tomar forma. Genevieve colocou o seu chapéu para se proteger do sol e ajustou o seu avental para evitar que o seu vestido verde se sujasse de terra. Há algum tempo, Samantha havia convencido Elion a criar uma pequena horta, que Genevieve cuidava com prazer. Apesar de modesta, a horta produzia frutas e verduras saudáveis. Hoje, Genevieve estava a dar o seu toque pessoal ao jardim. Plantava lírios, girassóis e rosas de várias cores, enriquecendo o espaço com a sua visão estética. Enquanto trabalhava, uma leve brisa começou a soprar, e o chapéu quase voou da sua cabeça. Genevieve o segurou firmemente e, ao olhar para o chão, paralisou ao ver uma figura sombria emergir entre a grama. Um homem, alto e de constituição atlética, emergiu da grama como uma visão de ouro e carmesim. Com certeza, era Kairon do Deserto. A sua beleza era inegável, mas sua expressão impassível conferia-lhe uma aura perturbadora. Os cabelos ruivos, como chamas ocultas sob a sombra de um crepúsculo, contrastavam com os seus olhos verdes, tão intensos e brilhantes quanto o próprio campo em que pisava. Genevieve conteve um grito que se formava nos seus lábios ao testemunhar o surgimento de duas outras figuras. Um homem moreno, marcado por cicatrizes vermelhas nas bochechas, e uma mulher loira, ambos de uma beleza impressionante, mas que palideciam diante da presença enigmática do ruivo. Ele estava a apenas sete passos de distância, uma proximidade que fazia o ar parecer pesado com a ameaça da sua presença. Se desejasse, poderia usar a sua habilidade de compulsão para ceifar a sua vida com um mero olhar, e Genevieve se viu enredada no seu olhar penetrante. Kairon avançou com passos firmes e deliberados, movendo-se com a precisão de um predador que sabe exatamente onde quer ir. Os seus olhos nunca se voltaram para Genevieve, o seu caminho traçado com a confiança de quem não precisa se desviar para nada. Cada passo que ele dava fez Genevieve estremecer até a alma. Nunca ela havia conhecido um medo tão profundo e visceral. O homem e a mulher que o acompanhavam seguiram-no, lançando um olhar furtivo para a loira que estava no seu caminho. A mulher fez um gesto de reconhecimento com a cabeça, enquanto o homem a observava de cima a baixo, oferecendo-lhe um sorriso carregado de malícia. A loira só conseguiu exalar um suspiro de alívio quando os três desaparecem de vista, como sombras dissipando-se ao entardecer. Pouco antes da noite cair, Cerise e Samantha chegaram ao jardim, avistando Ino parada, imóvel perto de uma árvore. Ao perceberem o estado perturbado da loira, correram em direção a ela. — Genevieve, querida, o que aconteceu? — perguntou Samantha, com uma expressão de preocupação. — Você está pálida como a lua — completou Cerise, agachando-se ao lado de Samantha e envolvendo o rosto da loira com suas mãos delicadas. Genevieve lutava para recuperar o fôlego, os olhos ainda alucinados pela visão aterradora. — Eu… eu o vi, Samantha. Meu Deus, ele é verdadeiramente assustador. Pensei que a morte estava próxima. — Quem você viu, Genevieve? — inquiriu Cerise, sua voz suave, mas repleta de ansiedade. — Kairon do Deserto — murmurou Genevieve, o terror ainda visível em seus olhos. — Kairon? Há quanto tempo ele chegou? — perguntou Samantha, a inquietação crescente. Genevieve, ainda tremendo, permitiu-se ser ajudada a se levantar pelas amigas. — Não sei exatamente quando chegou. Só sei que estou aterrorizada. Que fraqueza a minha... — Oh, Genevieve, não se preocupe — disse Samantha com um tom de consolo. — Kairon é sem dúvida o homem mais temido que já conheci. Apesar da sua natureza intimidante, ele é um aliado confiável. No entanto, eu certamente não gostaria de estar no seu caminho se fosse seu inimigo. *** Como de costume, o jantar seria servido no salão principal, repleto de esplendor e recepção. Genevieve ajudava na cozinha, mas, para seu alívio, havia a chance de se sentar à mesa com os convidados. A cozinha estava em plena efervescência, preparando mais do que o triplo da quantidade usual de alimentos, e a ajuda era essencial. Para o seu alívio, Kairon não compareceu ao jantar. Apenas os seus dois acompanhantes se fizeram presentes. A primeira era Millicent, irmã mais velha e conselheira de Kairon. Com um temperamento afiado e uma língua tão mordaz quanto uma lâmina, ela era inesperadamente cativante e Genevieve encontrou nela uma inesperada simpatia. O segundo era Kor’vas, o irmão do meio de Kairon e comandante do exército do Deserto. A sua presença era marcada por uma ousadia desconcertante e uma notável falta de reservas. Ele flertou incessantemente com Genevieve e Cerise durante toda a refeição, tornando o jantar uma experiência animada, apesar do seu comportamento impertinente. Ainda assim, a noite prosseguiu tranquilamente e, ao final, todos se retiraram para seus respeitosos aposentos, encerrando um dia de intensas emoções e novos encontros. O quarto de Genevieve, ainda que modesto em tamanho, irradiava uma beleza serena e acolhedora. Não possuía a grandiosidade do quarto de Samantha, mas oferecia um refúgio encantador e confortável. Da janela, a vista para o Jardim se desenrolava como um tapete de cores vibrantes, uma celebração do trabalho diligente de Genevieve ao longo de nove meses. Quando ela chegou às Terras da Neblina, o solo era um cinza desolado, quase abandonado, mas agora florescia sob o seu toque cuidadoso. Após revirar a cama em busca de um descanso que parecia inatingível, Genevieve levantou-se e, decidida a dissipar as suas inquietações, caminhou pelos corredores silenciosos até a biblioteca, um santuário de sabedoria e tranquilidade. Ao adentrar o espaço, os seus olhos capturaram uma visão peculiar: uma figura reclinada de maneira desleixada numa poltrona no fundo da biblioteca. Com passos furtivos e silenciosos, aproximou-se, os ecos dos seus movimentos quase inaudíveis. Ali, repousava Kairon, o demônio de ruivo como o fogo e olhos verdes como esmeraldas frescas. Ele estava apoiado na mão direita, que descansava sobre o braço da poltrona, as suas pernas longas esticadas com uma indolência quase felina. No sono, ele parecia desprovido da sua aura de terror, revelando um semblante de inusitada suavidade. O contraste entre a sua beleza sublime e a sua suposta crueldade o fazia parecer uma criatura de contos antigos, enigmática e fascinante. Genevieve, enfeitiçada pela visão, permaneceu ali, observando-o. O demônio, agora um mistério adormecido, despertava um questionamento silencioso no seu coração. A sua presença, que antes parecia intimidante e opressiva, estava agora envolta num véu de serenidade e inofesiva. De repente, os olhos verdes de Kairon se abriram, encontrando os dela com uma intensidade fulgurante. Genevieve, atônita, fixou o olhar, sentindo uma mistura de fascínio e apreensão. A presença do demônio, antes temida, agora revelava camadas de complexidade que desafiavam a percepção da sua verdadeira natureza. — Retire o vestido. As palavras de Kairon eram implacáveis, e seu olhar, agora iluminado por um brilho rubro ao redor da íris, carregava um poder temível. O comando de compulsão que ele lançou sobre Genevieve era quase palpável. Ela sentiu seus braços se moverem contra sua vontade, desamarrando o laço do robe e deixando-o escorregar pelo chão. Por mais que lutasse contra o controle que lhe era imposto, seu corpo agia como se tivesse vida própria. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto suas mãos deslizavam as alças do vestido, que caía lentamente até sua cintura delgada. O olhar de Genevieve, agora inundado, encontrou o de Kairon, que se mantinha impassível e sem vacilar. A brutal realidade se revelava diante dela: ele era verdadeiramente um monstro. Com um desespero silencioso, ela baixou as alças do vestido até seus pés, ficando apenas de lingerie. Genevieve esperava, com um olhar devastado, o próximo comando do demônio. O ódio que sentia por si mesma era profundo e doloroso. Kairon se levantou da poltrona com uma graça majestosa, aproximando-se de Genevieve até ficar a poucos milímetros de distância, seu sussurro carregado de autoridade: — Desnude-se. O comando era uma lâmina afiada. Genevieve choramingou, seu corpo tremendo, enquanto lutava com todas as suas forças para forçar suas mãos a obedecerem. A impotência era esmagadora. Lágrimas escorriam por seu rosto, e suas mãos, guiadas por uma força que não podia controlar, começaram a desabotoar o fecho do seu sutiã. O som abrupto da porta se arremessando contra a parede ecoou pelo recinto, interrompendo o momento de terror e trazendo um fio de esperança à situação desesperadora. Ren irrompeu na biblioteca com a fúria de uma tempestade, seu semblante feroz como o de uma fera. Cerise, seguindo-o com passos rápidos e desesperados, estava logo atrás. Genevieve m*l teve tempo de piscar antes de testemunhar o loiro desferindo socos furiosos contra Kairon, cada golpe fazendo com que o controle de compulsão se rompesse. A dor e o terror que a afligiam dissiparam-se quando recuperou o controle de seus movimentos. — Seu imenso desgraçado! Este lugar não é o submundo e ela não é uma das suas mercenárias! As palavras de Ren eram um rugido de fúria. Ele estava tão transformado pela raiva que parecia uma sombra da pessoa que Genevieve conhecia. Desabando sem forças, Genevieve caiu ao chão, incapaz de se sustentar. — Oh Genevieve! Respire, está tudo bem, já passou. Cerise se agachou para ficar ao nível dos olhos de Genevieve, a suas mãos pegando gentilmente o robe caído e envolvendo-o nos ombros da loira. A morena fez um esforço silencioso para encorajar Genevieve a se levantar. Com um apoio frágil, Genevieve se ergueu, apoiada em Cerise, que a guiava para fora da biblioteca. As duas saíram apressadas, enquanto os gritos e grunhidos distantes de uma batalha épica se desvaneciam atrás delas. Ao chegarem no quarto de Genevieve, Cerise a conduziu com suavidade até a cama e a ajudou a deitar. A morena acomodou-se ao lado dela, oferecendo uma presença tranquila e acolhedora. — Agora você está segura — disse Cerise com uma voz suave, quase etérea. — Chore se sentir vontade. Não há necessidade de se conter. Genevieve se aninhou no colo de Cerise, e as lágrimas começaram a fluir como um rio desaguando de uma tempestade. Por minutos, talvez horas, ela chorou sem parar. Cerise permaneceu ao seu lado, acariciando suavemente o seu cabelo e murmurando palavras de conforto. O tempo parecia diluir-se, e a dor que antes parecia insuportável começou a encontrar alívio no calor e na compaixão da presença da amiga.
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