Subi a viela com o sol nas costas e o pensamento longe. A moto ficou no canto, encostada como sempre. Aqui ninguém toca. Não porque tem alarme, mas porque tem respeito. E respeito, no Rosário, vale mais que tranca.
Parei na frente da casa da minha mãe. Pequena, parede azul descascada, floreira feita de garrafa pet, o cheiro de sabão em pó e feijão fresco escapando pela janela. Dona Jussara, a rainha sem trono. A mulher que me criou na sola do chinelo e na força do olhar. Foi ela que me ensinou que "homem bom é aquele que segura o mundo com uma mão e protege com a outra, e não solta nenhuma".
Ela tava sentada na cadeira de ferro, enrolando a pontinha de uma colcha velha. Olhou pra mim sem pressa, como quem já sabe o que vai dizer.
— Se continuar cuidando do mundo e esquecer de si, vai morrer cedo, menino.
— Bom dia, mãe.
— Dia é só depois do café.
Entrei, dei um beijo no topo da cabeça dela, e fui direto pra cozinha. Peguei um copo d'água e respirei fundo.
Às vezes eu penso em largar isso tudo. Mas só por um segundo. Aí lembro que o morro não pode se dar ao luxo de perder quem segura as pontas quando a cidade inteira vira as costas.
Quando meu pai morreu: tiro de policial, sem investigação, sem pedido de desculpa, eu tinha seis anos. E a única coisa que minha mãe fez foi chorar em silêncio e continuar costurando até tarde. A vida não dava tempo pra luto. Aqui, a gente engole a dor com arroz e farofa.
Com quinze, quase fui puxado pelo crime. Não porque queria, mas porque era fácil. Tinha quem me chamasse de "esperto demais pra ser só pobre". Mas minha mãe me trancou em casa com Bíblia e geladinho no freezer. Me fez estudar. Me fez observar. E vender geladinho no semáforo lá embaixo.
Aprendi cedo que quem manda no morro não é o mais forte. É o mais necessário, e eu virei isso. O necessário.
As tias me chamam pra resolver treta de água, luz, aluguel. Os moleques me ouvem quando mando descer da laje. As mulheres sabem que podem contar comigo quando algum covarde levanta a mão. Os comerciantes me pedem ajuda pra tirar alvará. Os políticos me procuram em época de eleição. Mas aqui, só entra quem eu deixo. E se não respeitar o povo, sai com uma mão atras e a outra na frente.
Não sou santo. Nem tento ser. Já bati em gente que mereceu. Já fechei bar que vendia droga disfarçada de bala. Já tirei moleque da escola pra evitar que fosse morto por engano. Aqui, ou você faz o corre da vida, ou a vida te engole.
Mas o que ninguém vê é o preço.
Ser o "dono do morro" não é ter tudo. É abrir mão de tudo. i********e. Descanso. Medo. Quando todo mundo depende de você, você não pode cair. Não pode surtar. Não pode fugir. Você é o alicerce. E alicerce não quebra.
— Tá pensando alto de novo, VT? — ouvi minha mãe perguntar da sala.
— Sempre.
— E come, pelo amor de Deus. Não adianta ser rei se morre desnutrido.
Sorri. Peguei um pão quentinho e comecei a mastigar, olhando pela janela e foi aí que pensei nela, na Ayla.
A garota diferente, com o olhar de quem já viu o inferno e ainda assim tem medo do escuro. Educada, mas com raiva guardada nos olhos. Linda, mas com fome de outra coisa, algo que nem ela entende ainda.
Vi que ela travou ontem. Ficou distante depois da treta no bar. Se fechou. Eu conheço esse tipo de silêncio. Já vi em mãe que perdeu filho, em homem que acabou de sair da cadeia, em menino que apanhou do pai. É silêncio de quem tá segurando uma avalanche por dentro.
Mas não vou forçar.
Ela vai falar quando quiser e se quiser.
Eu só vou continuar sendo quem sou. Porque, mesmo quando o mundo tenta me empurrar pro lado do vilão, eu sei quem eu sou.
Sou o Victor, o nome que pesa, mas a calma antes da confusão, a tempestade depois da injustiça E se ela quiser saber mais, que suba. Que olhe nos meus olhos e aguente o que vai ver.
Porque ser dono de morro é muito mais do que segurar o alto é segurar todo mundo que tá pra cair.