6. Ayla

665 Words
Fechei a porta do quarto e o mundo desapareceu. Ou, talvez, foi o contrário: o mundo entrou inteiro dentro de mim, pesado demais, rápido demais. Sentei na beira da cama, os cotovelos nos joelhos, as mãos no cabelo. O ar parecia grosso, denso, difícil de puxar. Tentei respirar. Não consegui. Me inclinei pra frente mas a respiração saiu curta demais e depois falhou, logo em seguida ela sumiu. O quarto pequeno, simples, antes acolhedor, começou a encolher. As paredes se aproximavam devagar, como se quisessem me engolir. A luz da janela me ofuscava. O lençol tocou minha pele e eu estremeci. Cada som de fora entrava como lâmina no meu ouvido: carro passando, cachorro latindo, alguém rindo na rua. Rio de Janeiro. Morro do Rosário. Lugar estranho. Vários barulhos. Ele. Ele segurando uma briga inteira com um olhar. A autoridade no tom dele. O poder. A tensão dos homens se curvando. A minha reação fechada. O instinto de alerta. E de repente eu não estava mais ali. Eu estava nua em um camarim frio, com o stylist esfregando o dedo no meu quadril e dizendo "fica quieta, é só arte". Eu estava no primeiro ensaio da Dior, com o fotógrafo pedindo pra eu "mostrar vulnerabilidade" enquanto segurava meu queixo forte demais. Eu estava em Milão, vomitando no banheiro enquanto minha agente batia na porta dizendo "as marcas precisam de você bem". Eu estava no chão do banheiro de Paris, chorando com a boca aberta, sem som. E agora… agora eu estava aqui. Num quarto de uma casa simples, onde ninguém sabia meu nome verdadeiro, e ninguém sabia minha história é muito menos sabia que, por dentro, eu era um campo minado. Meu peito começou a apertar, apertei o meu próprio braço, respirando fundo mas falhei. A crise veio como sempre vinha: subindo pela garganta, queimando, invisível, silenciosa. Aquele tipo de pânico que ninguém vê, porque acontece por dentro. Um tremor pequeno nas mãos, um peso enorme no peito. Me joguei no chão. Literalmente. O corpo escorregou da cama até os pés tocarem o piso frio. Me encolhi, a testa encostando no chão, os dedos agarrando o lençol. Respiração irregular. Boca seca. Mãos geladas. — Respira... — eu sussurrei pra mim mesma. — Respira, Ayla. Pelo amor de Deus... respira... você está sozinha… sempre esteve… respira Mas o ar não vinha. Senti o coração acelerar tanto que parecia que ia arrebentar minha caixa torácica. Os olhos ardiam. O corpo tremia inteiro. Lágrimas começaram a descer sem permissão. — Você não está lá... — murmurei. — Não tá lá... não tá lá... Mas meu cérebro não acreditava. A imagem de VT dominando o bar, a voz firme, a postura mandando, o morro inteiro se calando... se misturou com todas as outras figuras de autoridade que já me esmagaram sem levantar a mão. Proteção e poder têm o mesmo cheiro quando você vem do meu mundo. Então meu corpo entrou em colapso. O choro veio de verdade agora. Alto. Eu me enrolei contra o chão, abraçando a si mesma, tentando conter o tremor. — Você tá segura... — eu repetia. — Você tá segura... Mas a segurança, pra mim, sempre foi um mito. Um conto de fadas que ninguém me contou direito. Lá fora, alguém ria alto. Uma mulher gritou o nome de um garoto. Um funk tocava distante. Era vida real acontecendo, vibrante, ignorando meu colapso. E eu ali. No chão. Respirando em pedaços. Fechei os olhos e fiquei assim por longos minutos. Talvez meia hora. Talvez mais. Até a respiração voltar aos poucos, como um animal arisco se aproximando devagar. Quando finalmente consegui sentar, o rosto estava molhado, a camiseta grudada nas costas, e minhas mãos tremiam. Mas ao mesmo tempo... havia algo estranho no fundo do peito. Um silêncio. Pequeno, quase imperceptível. Mas real. Talvez... só talvez... desmoronar aqui fosse diferente. Porque, pela primeira vez, ninguém estava vendo e eu estava livre pra quebrar. Livre pra juntar meus pedaços sem pressa. E livre, pra recomeçar.
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