O avião pousou e eu senti meu corpo inteiro entender antes da minha cabeça: Brasil. Aquele calor úmido que entra pela manga do casaco, o barulho de gente falando alto, o português com sotaques diferentes atravessando o saguão, a sensação de que aqui tudo é mais vivo e, por isso, mais perigoso também. Eu desci com a nuca tensa, óculos escuros no rosto, a bolsa colada no corpo como se dentro dela estivesse meu coração. Talvez estivesse mesmo. Eu não parei pra nada. Não olhei loja, não olhei placa, não olhei "bem-vinda". Eu só queria atravessar aquele aeroporto sem virar assunto. A cada vez que alguém falava meu nome perto demais; mesmo que não fosse o meu, eu sentia um pico de adrenalina. E junto vinha o sono. Um sono pesado, grosso, que parecia crescer de dentro de mim. Como se meu corpo

