55. Ayla

1322 Words
A mãe dele olhou pra ele. Depois pra mim. Depois de volta pra ele. E, ao invés de explodir, ela sorriu. Não um sorriso enorme. Um sorriso de orgulho contido, de quem gosta do que vê. — Finalmente. — ela disse, como se fosse comentário sobre chuva chegando. Victor fez cara de "mãe". — O quê? — Finalmente tu escolheu alguém que não vem com barulho. — ela respondeu, colocando a mão no ombro dele com força. — Alguém que olha e pensa. Isso é raro. Eu senti um calor subir no peito, uma emoção inesperada. Porque eu não tava acostumada a ser aprovada por figura materna sem que isso viesse com cobrança. Victor ficou meio sem jeito, o que era quase inacreditável. — Mãe... Ela deu um tapa leve no braço dele. — Cala a boca. Deixa eu falar com ela. Victor fez um gesto de rendição e voltou pra regar as plantas, mas eu vi ele sorrindo de lado, satisfeito. A mãe dele se aproximou e, pra minha surpresa, sentou numa das cadeiras perto do mirante como se estivesse em casa, porque estava. — Vem cá, Ayla. — ela chamou. Eu fui devagar e sentei perto. Ela me olhou com atenção, mas sem invasão. Era um olhar de mulher pra mulher. — Tu tá bem? — ela perguntou, simples, direto. — Tô. — Ele te trata direito? — Ela assentiu, como se guardasse aquilo. — Trata. Ela soltou um "hm" satisfeito. — Se não tratasse, eu mesma quebrava ele. — disse, como se fosse piada e aviso ao mesmo tempo. Eu soltei uma risada, apesar do nervosismo. — Ele disse que a senhora é a juíza dele. — E sou. — ela respondeu. — Fui eu que pari, eu que aguento, eu que cobro. Se eu não cobrar, vira bicho solto. Eu olhei pro Victor ali do lado, regando a Sofia "dramática" com cuidado, e senti um afeto estranho por ele naquele cenário doméstico. A mãe dele acompanhou meu olhar e sorriu de novo. — Ele tá todo bobo, né? — ela perguntou, baixinho, quase conspiratória. Eu senti as bochechas esquentarem. — Ele... ele é ele. — tentei. Ela riu, um riso curto. — Ah, minha filha, eu conheço meu filho. Ele se apaixona raro. Quando acontece, ele vira um cachorro fiel. — Um cachorro? — eu ri, surpresa. — Ué. — ela deu de ombros. — Aquele ali, quando quer, vira o bicho mais orgulhoso do morro. Mas quando ama... ele fica. E ele não sabe fingir. Eu olhei pra ela, meio encantada. — A senhora e Dona Tereza são parecidas. — Eu sei. — ela disse, com orgulho. — Mulher de verdade não passa pano pra homem não. Do lado, Victor olhou pra gente desconfiado. — Vocês tão falando de mim? A mãe dele virou o rosto e gritou sem nenhum pudor: — Tá sim, Victor! Tô contando pra tua namorada que tu sempre foi ciumento desde pequeno! Eu engasguei de rir. Victor ficou vermelho, o que eu não achei que fosse possível, e apontou o regador como se fosse arma. — Mãe! — "Mãe" nada. — ela respondeu, rindo. — Vai regar tuas filhas e deixa a gente conversar. Ele resmungou alguma coisa, mas voltou pro trabalho. Só que agora ele tava sorrindo. Daquele jeito satisfeito, como se ouvir "namorada" na boca dele tivesse sido uma escolha que ele não queria desfazer. Eu olhei pro céu aberto, pro morro lá embaixo, pra casa bonita e viva ao mesmo tempo... e senti uma coisa assentar dentro de mim. A conversa com a Jussara já tinha virado aquele tipo de coisa perigosa: leve demais pra eu lembrar que eu tava me envolvendo num território que não era simples. Ela falava, ria, soltava umas verdades atravessadas com a mesma naturalidade que Dona Tereza tinha, e eu me pegava respondendo como se estivesse em casa. Como se aquilo fosse... permitido. Victor terminou de aguar a última planta, sacudiu o regador, colocou no canto e veio se aproximando, enxugando as mãos numa toalhinha. Eu vi ele olhando pra gente com aquela cara de quem finge que não tá ouvindo, mas tá. Jussara virou pra ele e apontou o queixo na direção da cozinha como se desse ordem. — E aí, vocês dois. Almoço lá em casa hoje. Eu travei na hora, o sorriso indo embora sem querer. Meu primeiro impulso foi recuar. Não por ela, por mim. Por aquela sensação antiga de que, se eu aceitasse demais, eu ia dever alguma coisa. Que pertencimento vinha com contrato escondido. — Dona Jussara... — eu comecei, educada, tentando não parecer ingrata. — Eu tenho que ir pra ONG. Hoje tem coisa pra organizar ainda... eu faltei ontem, preciso aparecer. Jussara fez um "hm" avaliador, mas não me pressionou. Só olhou pro filho, como se fosse óbvio que ele teria opinião. Victor soltou uma risada curta, como se eu tivesse falado uma coisa linda e irritante ao mesmo tempo. — Loirinha... — ele falou, chegando mais perto. — A ONG não vai acabar porque tu não foi um dia. Eu ergui a sobrancelha. — Não é isso. — É sim. — insistiu, com aquele tom de quem sabe que eu vou me cobrar até virar nó. — Tu tá querendo se punir. Tá querendo "compensar" como se tivesse cometido crime. Jussara cruzou os braços, observando, e eu senti o olhar dela pesando mais do que a fala dele. — Eu não tô me punindo. — eu respondi, tentando manter firmeza. — Eu fiz um compromisso. Eu... eu quero ser confiável. Victor parou na minha frente, perto o suficiente pra eu sentir o cheiro dele. — Tu já é confiável. — ele disse baixo. — Um dia não define tua presença. Eu abri a boca pra retrucar, mas Jussara entrou na conversa com a calma de quem corta briga com faca bem afiada. — Ayla, escuta. — ela falou. — Compromisso é bonito. Mas mulher também tem que aprender a descansar sem culpa. Senão vira escrava do próprio "dever". Eu senti a garganta apertar, porque a frase acertou em cheio. Victor olhou pra mãe com um "tá vendo?" silencioso, como se ela tivesse acabado de provar o argumento dele. — E outra. — Jussara continuou, já mais prática. — Hoje eu tô chamando porque eu quero. Não é favor. Não é obrigação. É almoço de família. Eu sorri sem graça, tentando achar uma saída respeitosa. — Eu agradeço muito. De verdade. Mas eu... eu não quero faltar de novo. Victor passou a língua pelos dentes, impaciente. — Então faz o seguinte. — ele falou, e o tom foi de solução pronta. — Tu passa na ONG rapidinho, dá tua cara, vê se tá tudo certo... e depois tu vai almoçar com a gente. Eu hesitei, porque parte de mim queria aceitar aquilo como normal. A outra parte queria fugir só de imaginar. Jussara inclinou a cabeça, olhando pra mim com um tipo de firmeza que não machucava. — Ele tá tentando facilitar tua vida, menina. Deixa. Eu respirei fundo. — Eu posso ir... mais tarde. — eu falei, devagar. — Se eu sentir que tá tudo bem lá. Victor sorriu de canto, vitorioso. — Pronto. — ele disse. — Negócio fechado. — Não é negócio. — eu resmunguei. — É sim. — ele respondeu, debochado. — Porque tu é teimosa e eu sou mais. Jussara riu baixo. — Vocês dois são. — ela comentou. — Já gostei. Vai lá então, Ayla. Resolve tua cabeça na ONG e depois vem comer. Eu assenti, sentindo aquele misto de calor e nervoso. Victor pegou minha mão por um segundo, apertou de leve, e falou só pra mim, num tom mais baixo: — Sem se castigar, hein. Eu engoli seco e assenti. — Eu vou tentar. — Não tenta. — ele corrigiu, com firmeza. — Faz. E o pior é que, com ele, eu começava a acreditar que eu conseguia.
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